Navio Negreiro 2.0

morier

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

E batalhamos dinheiro!

Um trocado, dinheiro
Um programa, dinheiro
Uma vida, dinheiro
Uma laje, dinheiro
Uma aula, dinheiro
Uma chupeta, dinheiro
Batalhando, batalhando, batalhando
dinheiro.

O tempo inteiro!

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Olha lá quem vai passando
É Oxóssi que vão carregando
Olha lá Oxóssi cavalgando
Seu cavalo Fernando
Seu cavalo vai sangrando
Baledo, bambeando
Mais uma morte vou cantando
O sangue espumando
que polícia vai ‘rrancando

Era assim ontem, era, sim
Capitão do Mato, no interim
de ontem e hoje, tão ruim
De caçar, matar pra mim

Que sou branco, mas por favor
Sou branco, mas não senhor
Sou branco, mas tenho horror
Do navio negreiro com roda e motor
Que ronda a quebrada espalhando dor
Enquanto eu ouço um tambor,
No funk e no samba é só o amor.
Mas na calada, na quebrada, quanto horror.
Seu delegado você não é doutor
Seu delegado você é um feitor

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Fernando não era bandido
Isso que é o mais doído
Era um trabalhador sofrido

Que a polícia meteu bala de fuzil
Fernando morreu, sumiu
Mais um óbito no Brasil
“Se é preto foda-se, nunca existiu”
Aqui só gostam branco, amarelo cor de anil
O resto que vá pra puta que os pariu

Dona Ana não era puta
Por favor, seu policia, escuta
Criou 4 filhos com conduta
Nunca entrava em disputa
Dona Ana era astuta
Sem diploma ou batuta
Limpar chão era sua luta

Limpar chão, limpar chão
Limpar com sua mão
carvão
clarear o chão do patrão
clarear o chão do Capitão
Limpar chão, limpar chão
Que lamento que tensão
A molecada sem pai, sem atenção
Sem escola ou educação
Limpar chão, limpar chão

Chão sujo de sangue
Vontade de apoiar a gangue
Que mandava na rua do Mangue
Vontade também de tirar sangue
água com açúcar, suco Tang

Nada acalma
Nada sossega a alma
Na cara estala a palma
No âmago instala o trauma

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Tanto esforço
Tanto, sonho, seu moço
Agora fundo do poço
Chuparam a vida até o caroço
É tanto esforço
E eu que torço, torço
Pra que, seu moço?
Agora esse alvoroço
Dói até o osso
Até o osso

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Como era há 500 anos
Como era há 500 anos
Como era há 500 anos

(Em Órum, um canto
Um lamento de Fernando
Que já dura 500 anos)

“Em quinhentos anos nada mudou
Eu era um escravo e ainda sou
índios, negros e brancos pobres
são a base da imensa pirâmide que dorme
Imponente o gigante Brasil não levanta
O país do futuro suas dores canta
Com a alma dilacerada e a fé em Deus
Esperando na Terra o que Jesus prometeu

Nada mudou, mas vai mudar
Nada mudou, vamos mudar
Nada mudou, vamos mudar?”

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Somos um povo guerreiro
Somos um povo
Somos um.

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Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia; autor de “
Canções para ninar adultos” (Ed. Patuá) e “Haicais Animais” (Ed. Panda Books), criador do projeto Glück — uma investigação sobre a felicidade e roteirista de diversos jogos e newsgames. Ele também toca baixo na Banda de Bolso. Seus poemas estão espalhados aqui.

Como ficam a mídia e os jornalistas diante dos protestos no Brasil?

Dizia uma velha propaganda eleitoral: “eu tenho medo”. Eu também tenho medo: medo de perder o emprego. Isso mesmo, devo confessar minha covardia; toda vez que vejo explodirem protestos contra injustiças eu penso duas vezes para fazer comentários que possam comprometer meu emprego. Toda vez que a maior revista do Brasil escreve uma matéria distorcendo fatos, trocando notícias por opiniões e carregando em adjetivos preconceituosos eu me sinto amordaçado e não comento nada. Justo eu que sempre inventei fanzines, jornaizinhos e programas de rádio para dizer o que penso livremente. Mas, e agora, se eu falar o que penso poderei ser demitido?

Bom, nós temos “cumprido nosso dever” como jornalistas. Nossos chefes mandaram repórteres e fotógrafos para cobrir os protestos contra o aumento da passagem de ônibus. As notícias que me chegam são que um fotógrafo ficou cego e uma jornalista foi gravemente ferida pela truculência da Policia Militar (acostumada a espancar, matar e torturar rotineiramente nas periferias do estado). Um fotógrafo e uma jornalista que estavam TRABALHANDO. Cumprindo as ordens dos seus chefes. E o que nós recebemos em troca pelo sacrifício? Editoriais, colunas e blogs elogiando a violência sem sentido da PM que cega. E não podemos nem comentar em nossos Facebooks e Twitters pessoais por que temos medo de perder o emprego?

É engraçado porque, na faculdade, muitos dos meus colegas – de esquerda e de direita – escolheram a profissão porque achavam que podiam ajudar a mudar o Brasil. Podiam denunciar a corrupção, a violência e dar voz às grandes histórias que mereciam ser contadas. E a gente acusava os estudantes de engenharia de serem alienados. Mas agora os engenheiros constroem pontes e nós construímos o quê?

Então, no final, nós jornalistas somos como a PM? Cumprimos as ordens que servem para manter a ordem e voltamos para casa felizes por receber os nossos salários que nos permitem tomar uma cerveja importada, uma viagem pro exterior ou um iPhone novo? Somos a polícia militar do pensamento contando as mesmas histórias sempre sobre vândalos e bárbaros que querem destruir a ordem e o progresso? Bem, nós não concordamos com as próprias notícias que publicamos, claro, mas não temos direito de escrever as verdades que apuramos. Escrevemos o que nos pagam pra escrever? Afinal, temos que manter nossos empregos… No entanto, por mais dóceis que tenhamos sido (mais ponderados e obedientes ), nós estamos perdendo os empregos aos montes. Na Folha, no Estado, no Valor Econômico, na Abril, na Caros Amigos, na Trip… Quando a situação aperta jornalistas se tornam descartáveis. Um ponto a mais nas folhas de gastos como papel, luz ou aluguel. Agora não temos emprego nem dignidade dos tempos de faculdade.

E do outro lado?

Eles têm balas de borracha que nos cegam, gás de pimenta que nos sufocam, os maiores jornais e revistas do Brasil, todos reportando um só lado da história. Eu tenho essas simples e sinceras palavras. A dignidade que me resta me impede de continuar escondendo-as na garganta.

E você?

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