Clube de Ideias – Sabrina Barrios

Quinta-feira, um respiro para arte aqui nesse espaço Punk

Clube de Ideias foi um blog coletivo que reuniu escritores, artistas, cineastas e vagabundos bem(mal)intencionados. O belo topo do blog foi uma colaboração da artista e designer Sabrina Barrios.

-Mais trabalhos da Sabrina Barrios
-Imagens Multiestáveis, da fotógrafa Nati Canto

>Carlão

>

Ilustração “Vazio”, por Sabrina Barrios

Eu sempre penso que, quando eu morrer, não gostaria que as pessoas só ficassem chorando, mas lembrassem os bons momentos, as piadas, pensassem coisas boas de mim e dos nossos momentos juntos.

Eu sempre dizia que quase ninguém próximo de mim tinha morrido. Até uns meses atrás eu tinha 3 avós vivos, toda família, amigos, exs, conhecidos…

Hoje Marcão me falou que o Carlão morreu. Assim do nada. O Carlão não era meu amigão, ele era um colega de Penápolis, sempre envolvido com a cena rock de lá. Sempre procurando fazer alguma coisa para agitar a cidade. Era um cara por quem eu tinha uma simpatia grande, maior que minha intimidade com ele. Foi o cara que ajudou a organizar o primeiro show da minha banda, Milhouse, lá em Penápolis. As imagens que eu tenho dele são sempre rindo, tomando uma breja, agilizando alguma coisa. No tempo em que ficou aqui, ele fez um pouco de política, um pouco de música, de bagunça, um pouco de várias coisas legais e importantes. A última vez que eu o encontrei foi no Carnaval e ele tinha um vídeo engraçado na câmera fotográfica.

É isso. Ele foi um cara que viveu a vida. Fiquei triste quando soube da sua morte e ao mesmo tempo com uma puta vontade de fazer coisas legais e viver um pouco mais a vida. Criar, agilizar, beber. Coisas que realmente importam. Mais do que nove horas diárias movendo engrenagens para alguém lá em cima ganhar dinheiro. Acho que o Carlão ia ficar feliz com isso. De inspirar as pessoas a serem um pouco como ele.

E mesmo eu, agnóstico por falta de opção, queria acreditar que existe um céu pra onde essas pessoas legais possam ir. Paro por aqui, que já estou com um nó na garganta. Foda.

A ilha – Fred Di Giacomo – versão original

Uma versão atualizada e editada deste conto pode ser encontrada no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, publicado em 2012, pela Editora Patuá.

***

Ilustrações de Sabrina Barrios feitas originalmente para o blog Clube de Ideias

Fazia muito tempo que estavam ali: o jovem e a menina. Tanto tempo que já nem sabiam mais o que tinha acontecido direito. Eram os únicos sobreviventes de um naufrágio, disso tinham certeza, do resto não lembravam muito: se eram parentes, se haviam se conhecido no acidente, se viajavam de barco ou avião. Nem do seu nome recordavam-se, perderam-se, assim, sem passado, sem memória e sem nomes, tiveram que inventar de novo a vida. Às vezes, a menina sonhava com a mãe. Não lembrava direito, mas entendia o que era uma mãe, quando sonhava sentia o cheiro de proteção e o calor do afeto. Ela devia ter por volta de cinco anos e ele quinze. A diferença de idade os afastava. Não podia ser seu pai, e nem seu amante, estava no ápice das descobertas sexuais e sentia muita vontade de ter uma mulher. Decidiram que quando ela fizesse quinze anos poderiam casar, até então seriam como irmãos.

Desejo

A menina inventou que o jovem chamava Desejo e ele a chamou de Utopia. Viviam sozinhos, com as árvores e os peixes, se alimentavam de cocos e frutas e andavam nus. Desejo era loiro de cabelos encaracolados e Utopia tinha cabelos negros curtos e uma pinta na bochecha. Desejo ensinava tudo que sabia a Utopia, sobre o pouco que lembrava da vida antiga e sobre o que aprendia a cada dia na ilha. No começo ele brincava com ela também, mas quanto mais Desejo crescia, menos queria ser criança. Quando Desejo fez dezoito anos começou a sonhar que Utopia era uma moça grande, com boca carnuda e seios fartos, os dois dormiam juntos e tinham uma porção de filhos. Às vezes, o rapaz acordava excitado pelo sonho e sentia vergonha. Resolveu,então, que era melhor os dois dormirem separados e construiu uma divisória na cabana. A menina não entendeu direito porque Desejo tinha feito uma divisória e por que o Desejo se cobria, agora, com uma folha. Foi por esses tempos que ela conheceu dois amigos imaginários: A Vergonha e o Pudor. Mas logo, Utopia se encheu dos amigos, ela não gostava da Vergonha e achava o Pudor muito sério. Ficou mais alguns anos amiga de Ninguém, até que ficou brava. Porque Ninguém nunca estava lá quando ela precisava e Ninguém falava muito com ela. Ninguém sabia por que Desejo tinha coberto seu corpo e Ninguém contava pra ela. Utopia achou que Desejo e Ninguém eram bobos e foi brincar com outros amigos.

A tristeza da menina era porque naquela ilha, ela sem Ninguém só tinha o Desejo e o Mar, e então começou a ficar amiga do Mar. Às vezes ela queria que o Mar fosse seu pai, porque não se lembrava dele direito. Às vezes ela sonhava que era filha do Vento ou da Terra, e que sua mãe era uma virgem como Nossa Senhora, seja lá o que isso significasse… O Mar era seu amigo, e sempre a abraçava e lhe contava segredos, o Mar tinha segredos que não acabavam nunca, e quanto mais fundo ela ia com o Mar, mais ela aprendia.

Desejo ignorava que Utopia tivesse tantos amigos, na sua cabeça de quase adulto ele via a menina brincando sozinha, e ficava com pena. Às vezes, construía algum brinquedo pra ela com madeira e bambu. Sempre que completava um ano do acidente eles comemoravam o aniversário dos dois. Desejo fazia uma festa e pescava um peixe, ficavam ele, Utopia e mais Ninguém na praia contando as estrelas. Quanto mais Utopia crescia, mais o moço se apaixonava por ela. Desejo sempre falava do tempo em que os dois se casariam , ele esperava aquilo com muito afinco. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo começou a construir uma casa maior para os dois morarem juntos. E Desejo aprendeu a fazer uma rede pra poder amar Utopia. Utopia parecia não se empolgar muito com isso, mas o rapaz achava que era normal pela idade dela.

Utopia estava então com doze anos e começara a virar mocinha. Sentia-se muito curiosa com seu novo corpo: sangrava uma vez por mês, estava com alguns pelos ralos lá embaixo e sentia dor nos peitos. Um dia acordou com uns biquinhos e, de uma hora pra outra, seus seios começaram a crescer. Sentiu-se mal porque estava ficando diferente de Desejo. Perguntou pra ele, e ele riu, disse que ela estava virando uma mocinha. Utopia não gostava de envelhecer, e quanto mais Desejo crescia, mais ela tinha medo dele. Queria ser criança pra sempre. O único que a entendia era o Mar, olhava pra ele e via seu reflexo, uma moça igual a ela, com seios e pelos lá embaixo. Desejo era tão diferente, incontrolável, e o Mar era tão calmo e sábio. Um dia ela contou pro Mar que estava apaixonada, e que não ia casar com Desejo. Ia fugir de Desejo o quanto fosse possível.

Desejo já estava se tornando homem. Faltava um ano para se casar, então ele tinha vinte e quatro. Já aprendera a pescar, plantar e construir utensílios de madeira, nadava como um peixe e o Mar era seu amigo. Aprendera tudo que sabia com a Natureza, a única coisa que faltava era poder amar uma mulher. O rapaz podia sentir o amor dentro dele, queimava o como fogo, mas era só uma idéia vaga, não era prático. Queria compartilhar aquele sentimento com alguém, mas parecia que Utopia nunca era grande o suficiente. Agora, a menina passava os dias nadando e sempre voltava com um caranguejo ou estrela marinha. Dizia que eram presentes que o Mar lhe dava, e se enfeitava com pedrinhas e corais. Desejo sabia que o Mar era traiçoeiro e tinha medo que um dia ele levasse Utopia. Quando Utopia menstruou pela primeira vez Desejo fez uma roupa para ela. Era pra controlar Desejo, porque ele era um rapaz de palavra e só queria possuí-la depois que casassem.

Utopia

Nesses tempos Utopia já estava apaixonada, o Mar lhe enchia de presentes e em troca ela ficava horas dentro dele.

– Desejo vai ficar muito surpreso, quando descobrir que eu não sou mais mocinha. Por mais que Desejo me tente, eu me entreguei, antes, pro Mar.

O Mar sabia que a moça era dele, ela havia fugido uma vez, mas devia voltar algum dia. Só Desejo podia levar a moça pra outro destino. Um dia o Mar deu a Utopia uma pérola, foi seu presente de quinze anos, serviu como um anel de noivado. A menina, agora moça, jurou pro Mar que só amaria ele e mais Niguém. O Mar pediu que ela só o amasse e ponto. E assim fez.

Desejo estava muito feliz porque hoje era o dia do aniversário dos dois, ele tinha preparado tudo muito bem. Havia feito aguardente com as frutas da ilha, pescado siris, camarões e caranguejos. Construíra sua casa com um quarto grande e uma rede confortável. Fez uma coroa de flores para que Utopia ficasse ainda mais linda no dia de seu aniversário. Mas parecia que Utopia se perdia, quanto mais velha ficava. A moça já mal conversava com Desejo, e os dois nem pareciam irmãos. No dia do seu casamento a menina ficou no Mar toda a manhã e só voltou pra casa de noitinha.

_ Onde você estava Utopia? Eu preparei nosso casamento com tanto carinho, pesquei caranguejos, siris, camarões, teci uma rede e até lhe fiz uma coroa de flores.
_Eu estava com o Mar…
_Você devia ter cuidado com o Mar, ele é traiçoeiro, não esquece que foi ele quem levou a nossa gente.
_ Eles devem estar num lugar melhor do que essa ilha maldita, não agüento mais ver sua cara todo dia, não agüento mais você, Desejo. Desejo me querendo, Desejo me tentando… Eu tenho nojo do Desejo! Eu quero sumir com o Mar.
_Não, fale isso Utopia! Eu te amo tanto! Como você pode falar assim comigo? Eu sempre te cultivei Utopia, como uma flor, e você me despreza como o mais vil dos homens? Minha Utopia, aonde eu errei? Quando eu te perdi?
_ Eu não sou sua Utopia, eu não sou de Ninguém! Eu não tenho dono, eu não tenho destino traçado, foi tudo um acidente…
_ Como um acidente? Você me traiu, Utopia!
_Um acidente, por acaso eu conheci o Mar, e com ele descobri o mundo. Me apaixonei pelo Mar e seus mistérios, o Mar e seus presentes. Eu preciso do Mar. Me identifico com ele, o Mar também tem seu lado feminino, no qual vejo meu reflexo, a Mar. Não só “O” MAR, e a Mar é linda também.
_Minha Utopia, completamente perdida, minha Utopia está morta! Aonde se escondeu aquele sonho? Aonde se perdeu minha menina? Cuidei de ti como o mais valioso dos tesouros, te pus numa redoma de vidro. Num mundo aonde só existíamos você e eu, como evitas me amar?
_Entenda, Desejo, você é muito importante pra mim, mas quero o Mar, entenda, nasci para Mar e dele sou parte, nele encontrarei minha família, meus pais… Não suporto mais morar nessa prisão!
_ Impossível, eu não vou aceitar isso! Você tem que ser minha, eu esperei muito por esse momento!

E Desejo partiu pra cima de Utopia, agarrou-a pelos cabelos, agora compridos, e beijou sua boca vermelha e carnuda. Sentiu seu peito contras os seios da menina, e um calor correu por seu corpo. Desejo enlouqueceu, Desejo estava cego, atirou a menina na areia, e pulou sobre ela. Arrancou a folha que cobria os pelos, já não mais ralos de Utopia e colocou a mão em sua parte de baixo, estava molhada, com água salgada:
_Mas como? Quem?
_O Mar! O Mar entrou em mim, Desejo. Ele me transformou em mulher, antes de você! Há tanto Mar dentro de mim que você nunca vai poder tirar, por isso estou molhada, por causa do Mar. São dele as lágrimas que saem dos meus olhos, salgadas também, eu sou do Mar, Desejo. Você pode me possuir agora, mas nunca vou te amar.

O mar

Desejo tinha quebrado a Utopia, ela estava deitada no chão chorando, encolhida. Abraçada aos joelhos em posição fetal, de seus olhos saíam pequenos pedaços de água do Mar. A pérola que havia ganhado reluzia, presa aos seus cabelos negros. Desejo perdeu, então, o controle, começou a chorar e viu que o Mar também o contaminara. Tentou conter as gotas salgadas que saíam de seus olhos, odiava o Mar, ele lhe roubara tudo: seu passado, sua memória, seu amor, seu tempo. Fez-se amigo do Mar, mas sabia que o Mar lhe destruiria. O Desejo estava dentro do Mar, e o Mar dentro do Desejo. Ficou louco, de vez. Saiu correndo gritando, vermelho. Arrancavas os tufos loiros da cabeça, desesperado. Gritou muito alto e Ninguém ouviu. Aquele dia o Mar estava bravo, agitado, Desejo pulou no Mar com ódio, mas o Mar abraçou-o, estrangulou-o, as lágrimas de Desejo fundiram-se ao Mar. E o Mar entrou em Desejo pelos pulmões, sufocando-o. Desejo sumiu, então, no meio da noite e do Mar.

Utopia ficou perdida na Ilha, a noite toda, e vagou sozinha, sem Ninguém. Estava apaixonada pelo Mar, mas sentia-se mal por ter perdido Desejo. No dia seguinte o Mar já estava calmo, Utopia, solitária resolveu que era hora de ficarem juntos para sempre. Entrou no Mar, e ali ficou, sentindo-o dentro do seu corpo, descobrindo o amor. As ondas levaram-na longe, finalmente o Mar recuperara o que era dele.
***

Da ilha nada mais restou, nenhuma testemunha, Ninguém soube o que aconteceu. Ninguém ficou lá. Só.

20/07/05

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.
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