“O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde – Resenha

Confesso, minha primeira impressão ao ler as floreadas linhas do único romance do autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) foi pouco empolgada. Era a obra mais feminina que eu já lera. E era escrita por um homem. Justo eu, acostumado ao excesso de testosterona exalado por Bukowski, Pedro Juan Gutiérrez e Henry Miller. Eu que já havia lido autores homossexuais, mas homossexuais libertários ou marginais, capazes de versos viris como os de Allen Ginsberg e Walt Whitman. E das mulheres, que vergonha, lera alguns poucos livros de Anaïs Nin, Rachel de Queiroz e Clarice Lispector. Sou um machista? Um cara fechado em literatura branca/heterossexual/ocidental? Talvez…

E lá, dessa caverna de ogros, me deparo com o parágrafo de abertura:

O ateliê estava repleto de odor substancioso das rosas, e quando a brisa de verão agitou-se por entre as árvores do jardim, entoou, pela porta aberta, o aroma acentuado do lilás, ou o perfume mais delicado do pilriteiro rosáceo.

Seria Oscar Wilde um hipster?

E, então, por trás da afetação dos personagens e das frases polidas com precisão por Wilde, se revela a alma de uma juventude narcisista, hedonista, fútil. Não há nada que você, com sua extraordinária beleza, não possa fazer. Quem aconselha é o experiente dândi Henry Wotton, apresentado ao jovem Dorian Gray – dono de uma beleza extraordinária, que hipnotiza todos que o conhecem – pelo pintor Basil Hallward. É Basil quem fará o retrato de Gray que, magicamente, passará a envelhecer no lugar de seu modelo. O tempo corre, mas o jovem – obcecado em sua busca por prazer – seguirá belíssimo e todos seus (muitos) pecados ficarão impressos apenas na tela pintada por Hallward. (Essa tela, terá papel semelhante à consciência deixada por Macunaíma na beira de um rio, na famosa rapsódia escrita por Mário de Andrade.) 

Calma, esse livro foi escrito quando? 1889? Mas ele parece falar direto à geração “colírios”, aos metrossexuais e aos emos. Aos playboys filhos de donos de grandes empresas de comunicação (RBS) e aos goleiros Brunos da vida. Uma pessoa extremamente bela está acima do bem e do mal? A morte de “seres menores” deve aborrecê-la? Quem são os deuses que habitam um mundo superior, o Olimpo das celebridades, as festas da alta sociedade e que observam intrigados a pequenez da escória (Que inclui eu que sou torto, você que é pobre e ela que é gorda.) Mas Henry e Dorian pedem: E, por favor, não converse assuntos sérios. Nada é sério, hoje em dia. Não deveria sê-lo, ao menos

 “O retrato de Dorian Gray” está longe de ser simples crítica social ou moral. Nem tão pouco é um elogio ao esteticismo defendido duante anos por Oscar Wilde – ele mesmo visto como figura excêntrica, envolvido em escândalos que condenavam sua homossexualidade e seu relacionamento com jovens ingleses. Este livro tem a qualidade das grandes obras de arte que conseguem tratar diversos temas universais e ainda falar direto ao âmago do leitor. É uma profunda reflexão sobre valor da arte e a produção artística. Sobre o belo, sobre o narcisismo e sobre uma juventude que parece não ter envelhecido em nada mais de um século depois.

Muitas pessoas faliram por ter investido na prosa da vida. É uma honra arruinar-se por causa da poesia. Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”

“Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação sobre valores”, Robert M Pirsig


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por Fred Di Giacomo
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” não é só mais um romance hippie/beatinick que fez a cabeça de uma geração nos anos 70. Sim, ele tem motocicletas como o clássico filme “Easy Rider/Sem Destino”, ele trata de uma viagem como o livro “On The Road” e flerta com orientalismo como a contracultura o fez na música dos Beatles ou na adoção de Yoga, Meditação Transcendental e Vegetarianismo para seus princípios básicos. Mas “Zen” é muito mais um livro de filosofia do que um romance doidão. Ok, filosofia pop, mas filosofia. Enquanto cruza os EUA em sua motocicleta, o autor precisa explicar o pensamento de Kant ou dos filósofos gregos como Aristóteles e Sócrates para esclarecer sua própria teoria, a “Metafísica da Qualidade”, lembrando a didática de “O Mundo de Sofia”, passo inicial para muita gente no universo do pensamento.

Antes de virar um best-seller e vender 4 milhões de cópias, “Zen” entrou para o Guinness como o sucesso de vendas mais rejeitado da história. Simplesmente 121 editoras se negaram a publicá-lo. Seu autor, o escritor e filósofo Robert M. Pirsig, nasceu na cidade americana de Minneapolis, Minnesota, em 1928. Pirsig era uma criança superdotada, com um QI de 170. Ele estudou Bioquimíca e jornalismo e se formou em filosofia, mas sempre questionou o método científico e de ensino. Entre 1961-1963 sofreu um colapso mental e passou anos em hospitais psiquiátricos onde recebeu tratamento de eletrochoques. Depois disso, Pirsig dedicou-se a escrever manuais técnicos de computadores, até conseguir publicar seu livro em 1974.

O nome de “Zen” faz referência a “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, obra do filósofo alemão Eugen Herrigel, que introduziu esse pensamento oriental no ocidente. Como o autor avisa logo na nota introdutória, o “livro baseia-se em fatos reais.(…) No entanto, não deve ser associado ao vasto conjunto de informações relativas à prática ortodoxa do Zen-budismo. E a parte das motocicletas também não é lá muito ortodoxa”. Toda a história se passa em dezessete dias, no final dos anos 60. A primeira parte do livro é um relato da viagem de Robert com o filho Chris e um casal de amigos John e Sylvia. John, um baterista, tem um sério problema para lidar com tecnologia. Para ele, viajar de moto é uma fuga da “civilização moderna”. O autor, por outro lado, adora saber como cuidar da motocicleta, como a máquina funciona e faz os reparos, ele mesmo, em sua moto. Em cima de suas observações sobre o ódio de John contra tecnologia é que Pirsig começa a desenvolver suas primeiras divagações filosóficas. A princípio tímidas, essas divagações vão, ao longo do livro, tomando o papel principal, em detrimento dos relatos da viagem. E vão sendo organizadas no que o autor define como chautauquas, “séries de palestras que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador.” É através dessas chautauquas que os capítulos se estruturam cada um com um tema que abrange filosofia, educação, ciência, arte e manutenção de motocicletas. Mas esses pensamentos não são ideias soltas, são parte de uma teoria maior que ficamos sabendo não ser de autoria do autor, mas de um fantasma do passado, Fedro, cuja identidade só vai ser revelada quando já terminamos um terço do livro. Para explicar a postura de John e a sua própria, Pirsig divide o mundo entre “Românticos” e “Clássicos”. Emoção e Razão. Arte e Tecnologia. Unir essas duas visões de mundo e provar que “o Buda pode estar nos circuitos de um computador” será a sua missão.

O resumo – *A partir daqui a resenha contém spoilers.

A viagem pelas estradas dos Estados Unidos prossegue. Depois que sofreu os eletrochoques, o autor apagou muito de sua memória. Andando pelas vias secundárias, mais vazias e próximas da natureza, ele cruza o país e vai se embrenhando em suas recordações. Houve um tempo em que foi professor na Universidade de Montana e o governo conservador do estado decidiu que todos maiores de 18 anos, mesmo que não tivessem ensino médio, poderiam estudar na Universidade. E as reprovações de alunos seriam punidas com multa. Para defender a Universidade “de verdade”, Fedro, que nós descobrimos surpreendentemente ser o autor, antes do surto, cria a teoria da “Igreja da Razão”. Para explicar a teoria ele usa o exemplo de um prédio de igreja rural que tinha se tornado um bar para o horror do padre local. No entanto, aquela igreja não era mais uma igreja, era apenas uma estrutura criada para atender o objetivo de servir a Deus, que não mais funcionava para isso. Assim como, por mais que a comunidade criticasse um sermão do padre por ser chato, ele não deveria se abalar, pois não estava ali para servir a comunidade e sim a Deus. A Universidade também não estava lá apenas para servir a comunidade e sim para servir a razão. E se ela continuava com sua estrutura física e mudava sua função, seu compromisso com a razão, ela já não era mais uma Universidade. Com o tempo, Fedro foi perdendo a fé na razão pura. E para explicar isso, o autor faz um breve resumo das idéias de Kant e Hume. Fedro interessa-se, então, pelas filosofias orientais e vai para Índia estudar.

Sylvia, John e Chris
Na terceira parte do livro, Sylvia e John voltam para casa e a viagem passa a ser só de pai e filho, que vão aproveitando os longos dias para reconstruir o relacionamento, abalado desde o período de loucura paterna, sua internação e posterior divórcio. Chris também tem apresentado alguns problemas psicológicos, o que preocupa seu pai. No entanto, absorto em suas reflexões, o autor não consegue penetrar no escudo criado pelo filho, mantendo uma relação fria com o garoto. “Qualquer realização que vise à autoglorificação fatalmente termina em tragédia”, explica Pirsig, enquanto escala uma montanha com o filho. Não devemos escalar a montanha para provar que somos os maiores, o segredo está na escalada em si. Como a arte da manutenção da motocicleta que pode trazer a paz de espírito. O trabalho manual foi muitas vezes rejeitado pelos românticos como algo desprezível em comparação às grandes artes, mas não é ele também uma forma de arte? “Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior. Os outros poderão imaginar maneiras de expandir o destino da humanidade. Eu só quero falar sobre o conserto de motocicletas. Acho que o que tenho a dizer tem valor mais duradouro”, explica Pirsig. Mais à frente ele crava: “O trabalho produz brio”.Em seus flahsbacks, vemos Fredo criar sua teoria da “qualidade” partindo de Kant passando pelo Tao e por Hegel e chegando a Poincaré. É interessante poder acompanhar o caminho do filósofo rumo à formação de sua teoria. Aos poucos, uma questão que começou com as aulas de redação de Fedro vai crescendo e tomando forma: “A Qualidade é o evento que torna possível a inter-relação sujeito objeto”. “A Qualidade é a reação de um organismo ao seu objeto”. A Qualidade é semelhante ao Tao, “a grande força central geradora de tudo”. Seria então a “Qualidade” o elo entre a ciência, as artes e a religião? “A arte é a Divindade revelada nas obras humanas”. “Conforme disse Poincaré precisa haver uma escolha subliminar dos fatos a serem observados”. À medida que o autor vai se embrenhando no raciocínio genial de Fredo, ele também se embrenha em sua loucura e começa a ter pesadelos e falar dormindo. Agora que conhecemos a “Metafísica da Qualidade”, o livro vai chegando ao fim e talvez a sanidade do autor também.No final do capítulo ele introduz o conceito de “Mu”, palavra japonesa que significa nenhum. Nenhuma classe: nem um, nem zero, nem sim, nem não. Significa exatamente “desfaça a pergunta”.

Agora esta viagem pelo mundo da filosofia e pelo interior do autor está em seus últimos quilômetros. Pirsig revê os últimos dias de Fredo, quando esse descobre a origem do pensamento racional do homem em Aristóteles e a ideia de “Qualidade” dos sofistas que foi enterrada por Sócrates e Platão. Para isso ele faz uma análise dos pais da filosofia grega e do próprio homem grego. Desenterra o conceito de aretê do homem grego, tradicionalmente traduzido como virtude, mas que o autor prefere definir como superioridade. Era o que impulsionava o homem grego a praticar atos de heroísmo, não o senso de dever que conhecemos, em relação aos outros, é um senso de dever em relação a si mesmo, termo irmão da palavra sânscrita dharma, que significa “dever para consigo mesmo”. O herói da Odisséia, de Homero, era um grande lutador, um orador decidido, sabe arar a terra e tosquiar um boi. Despreza a eficiência em um aspecto da vida, em detrimento da vida em si mesma. Despreza a especialização em uma coisa só. Fedro rompe então com a Universidade onde estudava para obter seu PHD e que insistia em glorificar o pensamento aristotélico. Depois disso viria a crise e a internação. O autor tem medo de sofrer outra crise e pensa em parar a viagem por ali e mandar o filho de volta para casa. Mas antes disso ele precisa resolver sua relação com o garoto, garantindo assim, sua própria sanidade.
Depois daquela viagem
Robert M Pirsig vive isolado do mundo exterior viajando de barco com sua mulher. Só lançou um segundo livro em 1991, chamado “Lila – uma Investigação Sobre a Moral”, no qual se propõe a definir melhor sua Metafísica da Qualidade. O livro não obteve o mesmo sucesso que “Zen”. Em 1979, Chris, o filho de Pirsig foi esfaqueado até a morte na saída do Centro Zen que freqüentava. É como se no final de “Zen”, quando o autor finalmente se reconcilia com o garoto, ele fosse profético: “Naturalmente os problemas jamais deixarão de existir. A infelicidade e o infortúnio fatalmente ocorrerão em nossas vidas, mas agora sinto algo que antes não sentia, que não se localiza apenas na superfície das coisas, mas as permeia até a medula: nós vencemos. Agora tudo vai melhorar. A gente pode até garantir”.

Veja também:
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Misto-Quente, Charles Bukowski

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A VIDA COMO ELA É: Resenha do livro Misto-Quente

Retrato autobiográfico do nascimento de um gênio marginal

“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.

Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobaintenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.

Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)

A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto-Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…

Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.

Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.

Misto-quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.

Fred Di Giacomo, brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel no livro “Canções para ninar adultos”
26/05/04

-Frases de Charles Bukowski

 

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