Os 47 livros que li em 2018

2017 não foi um ano fácil. E nem tô falando da economia que derreteu (apesar dela ter influenciado nos meus trabalhos), nem das tretas na política (que derrubam um pouco nosso humor todos os dias). Pra resumir a história, vamos dizer que a coisa começou com uma pessoa da família presa injustamente (já solta, graças) e terminou com meu filho na UTI. No meio do caminho, diversas pedras.

Pra ajudar a bicar essas pedrinhas inconvenientes pra longe, ainda bem, existem os livros. E minha retrospectiva do ano eu faço por meio deles. Mesmo com a correria do filhote pequeno e as visitas aos hospitais, deu pra ler 47 livros em 2017. Uma boa parte foi pra pesquisa do meu primeiro romance (que a princípio se chama “Desamparo”) – um pequeno épico sobre uma cidade no noroeste paulista. (Meu romance deve sair ainda no primeiro semestre e ele foi um dos ganhadores do edital da prefeitura de São Paulo. \o/.) Mas também deu pra me aprofundar na minha listinha de “clássicos pra ler”, me divertir lendo biografias de roqueiros e artistas e desbravar alguma poesia.

Abaixo vão os livros que li esse ano por categoria e classificação de corações. Como sempre, não avaliei livros de conhecidos. 😀

PS: Quem me lembrou de publicar minha lista esse ano foi meu amigo Rafael Kenski.

CLÁSSICOS
O leopardo,
Giuseppe Tomasi di Lampedusa ♥♥♥♥♥
Steppenwolf (Lobo da Estepe),
Herman Hesse ♥♥♥♥♥
Hamlet,
William Shakespeare ♥♥♥♥♥
Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, ♥♥♥♥♥
Hunger, Knut Hamsun ♥♥♥♥
Ninguém escreve ao coronel,
Gabriel García Marquez ♥♥♥ ♥/2
Robinson Crusoe, Daniel Defoe ♥♥♥
Passagem para a Índia, E.M. Forster ♥♥♥

LITERATURA BRASILEIRA
Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves ♥♥♥♥ ♥/2
A Paixão segundo G.H.,
Clarice Lispector ♥♥♥♥
Os Sertões (Campanha de Canudos), Euclides da Cunha ♥♥♥ ♥/2
O analista de Bagé, Luis Fernando Veríssimo ♥♥♥

POESIA
Livro sobre nada,
Manoel de Barros ♥♥♥♥
Um amor feliz, Wisława Szymborska ♥♥♥♥
Mar absoluto e outros poemas, Cecilia Meireles ♥♥♥
Velório sem defunto,
Mario Quintana ♥♥ ♥/2.

SOBRE LITERATURA
O Cânone Ocidental, Harold Bloom ♥♥♥♥♥
Panaroma do Finnegans Wake,
James Joyce/Haroldo e Augusto de Campos. ♥♥♥♥♥
Romancista como vocação, Haruki Murakami ♥♥♥♥♥

FILOSOFIA E HUMANIDADES
 A conquista da felicidade, Betrand Russell, ♥♥♥♥♥
 Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi ♥♥♥♥

QUADRINHOS
Sin City: The Hard Goodbye Curator’s Collection,
Frank Miller ♥♥♥
Habibi,
Craig Thompson  ♥♥  ♥/2 

SOBRE MÚSICA
My bloody roots,
Max Cavalera ♥♥♥
The Beatles: A história por trás de todas canções, Steve Turner ♥♥♥
Cliff Burton: a vida e a morte do baixista do Metallica, Joel Mciver ♥♥♥

BIOGRAFIAS e JORNALISMO
Prisioneiras, Drauzio Varella ♥♥♥♥♥
Abusado, Caco Barcellos ♥♥♥♥♥
Roberto Civita: O Dono da Banca, Carlos Maranhão ♥♥♥♥♥
Entre duas fileiras,
Gerald Thomas ♥♥♥♥

PESQUISA HISTÓRICA PRO MEU PRIMEIRO ROMANCE
Tenente Galinha – Caçador de homens: Eu sou a lei!,
Adherbal Oliveira Figueiredo ♥♥♥♥
A Carne e o Sangue – a Imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a Marquesa de Santos,
Mary Del Priore ♥♥♥ ♥/2
O passado, passado a limpo,
Glaucia M. de Castilho Muçouçah Brandão ♥♥♥ ♥/2
Penápolis: História e Geografia,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥
Padre Claro Monteiro do Amaral,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥
Achêgas para a história de Penápolis,
Fausto Ribeiro de Barros ♥♥♥ 
Salto do Avanhandava: História e documentação,
Orentino Martins ♥♥ ♥/2
Minha vida de menina,
Helena Morley ♥♥  ♥/2
Andanças,
Oroncio Vaz de Arruda Filho ♥♥ ♥/2
Maria Chica: o símbolo da mulher pioneira nos campos do Avanhandava,
Adolpho Hecht e Ricardo Carneiro ♥♥
Dioguinho: o matador de punhos de renda,
João Garcia ♥♥
Maria Chica: a saga de uma heroína,
Glaucia Maria de Castilho Muçoçah Brandão ♥
Roberto Clark: meu avô,
Fernando José Clark Xavier Soares ♥
Fernando Ribeiro de Barros: o Conquistador de Paris,
Joaquim Cavalcanti de Oliveira Lima Neto ♥/2

LIVROS DE AMIGOS E CONHECIDOS
 Se eu quiser falar com Deus, Dimas Mietto
Amorte chama semhora, Jr. Bellé
Penápolis: nativos, povoamento, ferrovia e os ciclos econômicos, Alessandra Jorge Nadai e Cladivaldo A. Donzelli

 

 

 

 

 

“Eu e outros poesias” (1912): Augusto dos Anjos transforma a morte em poesia

Eu e outros poesias

augusto-dos-anjos
Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Eu e outras poesias
Eu” é o único livro publicado em vida pelo poeta paraibano Augusto dos Anjos. Mistura de técnica parnasiana com temas simbolistas e que acabou classificada na segunda metade do século XX como “pré-modernista”, sua poesia se tornou popular apenas após a morte do autor.

O livro foi publicado de forma independente no Rio de Janeiro, em 1912. Após a morte de Augusto, foi lançada uma nova versão da obra com poemas inéditos que ficou conhecida como “Eu e outras poesias”.

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Versos a um coveiro
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Augusto dos Anjos
Poeta queridinho de punks e góticos, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Dedicou-se ao magistério e chegou a ser diretor de uma escola. Morreu jovem, em decorrência de uma pneumonia. Uma das principais características de sua poesia é o uso de termos populares mesclados com expressões científicas/eruditas.

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

Ouça “Nós somos a América do Sul (disco completo)” um clássico do hardcore brasileiro gravado pelo Psychic Possessor em 1989

Capa do clássico "Nós somos a América do Sul"

Capa do clássico “Nós somos a América do Sul”

Quando a banda Psychic Possessor começou em Santos, ela tocava uma mistura de trash metal e crossover (a fusão de metal e hardcore). O que era bem avançado pro Brasil da época. Recordando: o ano era 1986. O Ratos de Porão ainda não tinha gravado seu clássico “Cada dia Mais Sujo e Agressivo”, nem o Lobotomia tinha lançado seu primeiro disco. Em 1988, Psychic Possessor lançou seu primeiro disco, o cult “Toxin Diffusion“, pela Cogumelo Records, que ganhou fãs fiéis ao redor do mundo, mas vendeu pouco.  A banda passou, então, por uma grande mudança de formação (só ficando o guitarrista Zé Flávio) que mudou o som do grupo, eliminando o lado metal e os levando a um som inspirado pelo hardcore americano dos anos 80 (Agnostic Front, Gorilla Biscuits, Minor Threat, etc) – o que ainda era uma novidade pro Brasil. O punk nacional tinha basicamente duas grandes escolas de influências: o hardcore oitentista de bandas inglesas e finlandesas de um lado e o crossover do outro. Havia exceções (como o Garotos Podres), mas nenhuma soava como o disco que marcaria o nome do Psychic Possessor na cena nacional: “Nós somos a América do Sul”.

Para manter o contrato com a Cogumelo (que previa mais um disco), resolveram não mudar o nome da banda e lançaram “Nós somos a América do Sul”, em 1989, que acabou tornando-se um pequeno clássico do HC nacional com uma boa produção e a excelente bateria de Boka (hoje no RDP) segurando a cozinha. Entre os destaques estão “S.O.S. Amazônia”, “América do Sul” e “Capitalismo” (regravada pelo RDP no disco “Feijoada Acidente? – Brasil”). Dá pra ouvir o disco na íntegra no link abaixo:

As faixas são:

1. Ação Terrorista
2. Porque Razão?
3. Capitalismo
4. Aposentados
5. Heróis
6. Vítimas de Miséria
7. Vote Nulo
8. Disciplina Militar
9. S.O.S. Amazônia
10. Cubatão
11. Desarme
12. Aicreuqonrevog
13. Consciência Nacionalista
14. Desespero
15. O Mundo Nos Sufoca
16. América do Sul

Ouça o disco novo “mundo livre s/a vs Nação Zumbi”

Capa do disco "Mundo Livre s/a vs Nação Zumbi"

Quando a Deck Disk lançou o álbum “Raimundos vs Ultraje a Rigor” (com uma banda fazendo covers de sucessos da outra), eu confesso que achei um lance meio caça-níqueis. Talvez porque o Ultraje já tenha regravado diversas músicas em álbuns ao vivo, acústicos e de covers. Ou talvez tenha sido só preconceito mesmo. Acontece que agora a Deck está lançando esse lindo e sensacional “Mundo livre s.a. vs Nação Zumbi” com as duas bandas fundadoras do movimento mangue beat gravando covers uma da outra. Vai ouvindo enquanto eu falo:

Bom, o lado do Mundo Livre s/a abre a bolachinha e é uma das coisas mais energéticas e “jovens” que eles gravaram em anos. E olha que eu acho o último disco de inéditas deles (“Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa”) bem bom. Mesmo sendo um disco de regravações (de muitas das melhores canções da da fase Chico Science e algumas da Nação Zumbi), eles não seguiram o caminho fácil do cover e investiram em ótimas versões com arranjos criativos e psicodélicos – ora muito pops, ora porradas punks como as que gravaram em seu segundo disco “Guentando a Ôia”. É engraçado que influências do começo de carreira deles como Clash e Titãs parecem ressurgir quando Fred 04 e cia regravam músicas de seus velhos chapas de Recife. O lado da Nação Zumbi também é bom, com destaque para primeira música (“Livre Iniciativa”) que ficou mais “hit” que a original e traz coloridos novos para a tradicional fórmula da Nação. O mal desse lado da bolacha é um mal antigo: o vocal do Jorge du Peixe continua lá monocromática e um pouco cansativo. Pra quem é fã, maravilha. Já quem acha o estilo do cantor repetitivo vai enjoar rápido. Destaque também para  a safada”Bolo de Ameixa” que abre com um riffão de guitarra pesada.

O clima todo do disco – apesar da ótima e intrincada produção – é de uma grande celebração entre amigos. Uma celebração pelos mais de 20 anos de mangue beat e de amizade entre as bandas. E funciona pro movimento pernambucano como os discos “O Barulho dos Inocentes” e “Feijoada Acidente?” (do Ratos de Porão) funcionaram para o punk nacional. Compra aí que vale a pena!

Leia análise de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel: o livro que apresentou o zen budismo para o mundo ocidental

A arte genuína não conhece nem fim nem intenção, Kenzo Awa

Capa da edição brasileira de “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”

O livro “A arte cavalheiresca do arqueiro zen”, do filósofo alemão Eugen Herrigel(1884-1955), tem o mérito de ser um dos principais responsáveis por introduzir e popularizar o pensamento zen budista no ocidente. Grande parte desse mérito se deve ao fato do livro ser curtíssimo (a edição da editora Pensamento tem 91 páginas) e escrito numa linguagem simples, que traduz os pensamentos do zen para leitores comuns.

Herriegl passou alguns anos(1924-1929) no Japão, ensinando filosofia na Tohoku Imperial University. Interessado no pensamento oriental, ele começou a estudar o kyudo (arte do arco e flecha) com o mestre Kenzô Awa (1880-1939), enquanto sua mulher estudava a arte dos arranjos florais.

Posteriormente, Herrigel relacionaria a arte do arqueirismo com o pensamento zen, produzindo uma série de estudos que dariam origem ao livro. A forma de relacionar um trabalho manual com o desenvolvimento espiritual (“… a obra interior que ele deve realizar é muito mais importante que as obras exteriores”) dialoga diretamente com livros posteriores que se inspirariam na obra de Herriegel, como o clássico “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” de Robert M. Pirsig, no qual o autor ensina que a escalada da montanha é muito mais importante que chegar ao cume.

Eugen Herrigel praticando arqueirismo

Muita viagem? Um trecho que resume bem a ideia do livro é essa fala do mestre Kenzo sobre o arqueirismo: “(…) não se deve envergonhar pelos tiros errados. Da mesma maneira, não deve felicitar-se pelos que se realizam plenamente. O senhor precisa libertar-se desse flutuar entre o prazer e o desprazer. Precisa aprender a sobrepor-se a ele com uma descontraída imparcialidade, alegrando-se como se outra pessoa tivesse feito aqueles disparos. Isso também tem que ser praticado incansavelmente, pois o senhor não imagina a importância que tem.”

Atingir o equilíbrio, evitar a busca pelo prazer ou tristeza pela falha, preocupar-se mais com o ato do que com suas conseqüências. Seguir os instintos. “Comer quando se tem vontade de comer e dormir quando se tem vontade de dormir”. O pensamento zen oriental, apresentado por Herrigel, pouco tem a ver com nossa forma pós-moderna e ocidental de viver. Mas é uma boa oportunidade de enxergar que toda regra é burra e que existem formas muito velhas de pensar, que parecem mais modernas que o hype que engolimos diariamente como a hóstia da nossa (não)religião descolada.

Compre o livro aqui e ajude nosso blog!

Veja também:
-A filosofia pop de “Zen e a Arte da Manutenção de motocicletas”
-Confira o lado ocidental do conhecimento na “Odisséia” de Homero

Não existe solução fácil: assista ao documentário “Notícias de uma guerra particular” e tente achar uma jeito simples de acabar com a violência.

Infelizmente, resolver o problema da violência não é tão simples como a gente gostaria.

Duvidam?

Cena do documentário "Notícias de uma guerra particular"

Assistam a esse documentário já meio velho (“Notícias de uma guerra particular”, da Kátia Lund e do João Moreira Salles ) e tentem achar uma solução fácil pra todos os problemas apresentados:

Assistiram? Estão com preguiça? Bom, algumas coisas que eu achei bem foda e bem esclarecedoras:

1) A parte em que o escritor Paulo Lins (autor do best-seller “Cidade de Deus”) fala que a violência e as mortes nos morros sempre existiram, mas a classe média só começou a se preocupar com ela quando o tráfico cresceu e a violência espirrou no assalto.

2) A parte quando o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Hélio Luz, admite que a polícia é corrupta e é corrupta porque a gente quer. Ele questiona coisas como: “Você aceitaria uma polícia que não aceita um cafezinho?” “Que multa quando tem que multar?” “Que não deixa segurança de supermercado dar porrada em menor de idade?” “Que prende filho de rico quando atropela?” “Que prende o usuário de drogas no Posto 9?” É interessante que ele define a função da polícia brasileira como “garantir a segurança da elite”

3) Quando um menor infrator preso diz que seu primeiro trabalho aos 11 anos foi QUEIMAR um X-9 (gíria pra dedo duro). Queimar… Caramba, qual o futuro pra um moleque cuja “missão” aos 11 anos era botar fogo numa pessoa viva? E é interessante observar que a prática de “queimar vivo” rolava no morro vinte anos atrás (todo mundo viu isso no “Tropa de Elite”) e chegou ao asfalto agora com os tristes casos de dentistas incendiados vivos. 🙁

4)Quando um casal de moradores da favela diz que a polícia invade a casa dos moradores e, se encontrar televisão ou DVD caros, “toma pra ela” porque acha que coisa cara na favela é coisa roubada. Mesmo com nota fiscal – salienta a esposa. E o marido acrescenta que a “polícia quando invade o morro bate em velho, aleijado e criança”. Lembra bastante o que os bandidos têm feito hoje em dia torturando e roubando famílias em assaltos violentos, né?

5) O momento em que o capitão Pimentel do Bope (que inspirou o personagem do Capitão Nascimento) diz que a guerra nunca vai acabar porque a única presença do Estado na favela é a policial e só a polícia não resolve. Repito, o “Capitão Nascimento” disse que só polícia não é a solução pro problema do tráfico e da violência.

Mortes de policiais são uma dura realidade da guerra do tráfico

Tudo isso não quer dizer que polícia é má, que o ladrão é bom ou coisa que o valha. Isso seria tão simplista quanto achar que a violência é a solução de tudo. Tudo isso mostra que uma questão muito complexa (que envolve distribuição de renda, educação, melhores salários pra polícia e inclusão dos moradores de favela na nossa sociedade) está sendo reduzida a uma solução simples (cadeia e bala) e o resultado disso vai ser mais gente revoltada, órfã, viúva.

Gente mais violenta

Clássicos Underground: “Golden hits by…”, Thee Butchers Orchestra

Em 2001 o rock brasileiro andava mal das pernas: Rodolfo, vocalista dos Raimundos (recém convertido ao cristianismo), havia abandonado seu grupo no auge; o Planet Hemp tinha acabado para que Marcelo D2, líder da banda carioca, seguisse em sua carreira solo de samba-rap; e as rádios (quando tocavam rock) eram dominadas por hardcore melódico e rebeldia pasteurizada. CPM22 e Tihuana ditavam as fórmulas copiadas por outros clones menos famosos – assim como um Charlie Brown Jr que se repetia cada vez mais. Já faziam quatro anos que Chico Science tinha morrido e que o Sepultura havia perdido Max Cavalera e sua repercussão internacional.

Mas havia uma luzinha brilhando (barulhenta) no final do túnel…

Capa do disco "Golden Hits By", recheado de pérolas garageiras

No meio desse marasmo musical, uma cena independente começava a despontar com bandas garageiras e rock n´roll como os Forgotten Boys (na época um trio que lançara seu excelente primeiro disco homônimo) e o Thee Butchers Orchestra (a “Orquestra de Açougueiros”). Ambas as bandas paulistanas dividam o palco e o amor por rock n’ roll clássico e bandas de garagem americanos, dos anos 60 e 70, como o MC5.

O Butchers era composto por duas guitarras distorcidas e uma batera alucinada (nos moldes do John Spencer Blues Explosion, apesar deles não curtirem muito essaa comparação). A banda liderada por Marco Butcher (guitarra e vocais) e Adriano Cintra (guitarra, vocais e futuro integrante da banda Cansei de Ser Sexy) lançou seu primeiro disco (depois de algumas demos) em 2001. O título – “Golden hits by…” pode soar pretensioso, mas fazia jus às intenções do trio: era um apanhado de riffs poderosos, som alto e sucessos em potencial para sua festinha indie favorita. 

O cd de capinha rosa abria com “Black Ceasar”, que poderia estar numa trilha sonora de Quentin Tarantino, e desfilava fusões de suingue com barulho como a fantástica “She Said”, o riff grudento e garageiro de “Uncle Black” e, o cover do The Oblivians, “Nigger Rich”. Ainda valem ser citadas “Feelings on Fire” movida por uma bateria quebrada e carregada de vocais inspirados e o punk soul de refrão matador “Got me in a Hook”. O som soava como uma mistura indie e pesada do blues de John Lee Hooker, o pré-punk do Mc5  e o rock n’ roll dos Stones com pitadas de… Ike e Tina Tuner!

Nos shows do Thee Butchers Orchestra o coro comia solto

Os shows do Butchers eram um capítulo a parte: energéticos, insanos e dançantes faziam os pequenos palcos do país pegar fogo. Eu tive a oportunidade de assisti-los em Bauru, no saudoso AudioGalaxy, em 2003, e a performance dos caras era realmente foda.

Baixe, compre ou roube, mas escute este pequeno clássico do underground brasileiro com o SOM NO TALO.

 

Thee Butchers Orchestra tocando no programa Musikaos (TV Cultura), em 2001.

Assista a “Cidade Oculta” (1986), filme de Chico Botelho que mistura Will Eisner, vanguarda paulistana e rock n’ roll

Lá em Penápolis (interior de São Paulo), meus pais tinham uma bela coleção de  discos de vinil com vários clássicos da MPB, do rock e da música clássica, mas também algumas raridades. A trilha sonora do filme “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho, era uma delas. O filme era muito difícil de ser encontrado, por isso eu passei minha infância e adolescência ouvindo as músicas do Arrigo Barnabé (com participações de Ney Matogrosso, Patife Band e Tetê Spíndola), olhando as fotos do encarte e imaginando como seria aquela história cheia de punks, belas mulheres e tiras com armas.

Bom, graças ao Youtube, encontrei o “Cidade Oculta” completinho na internet. Você pode assisti-lo logo abaixo (enquanto ninguém tira do ar), e conhecer um pouco mais sobre a história e o enredo em minha apressada resenha que segue depois.

Confira o filme “Cidade Oculta” completo

Antes de rasgar elogios a este clássico do cinema paulista, deixe-me fazer alguma crítica ao filme de Chico Botelho. Primeiro um pouco de contexto: “Cidade Oculta” foi filmado em uma época de transição no cinema nacional; mais precisamente no gap entre o auge do Cinema Novo dos anos 70 e a retomada dos cinema nacional nos anos 90 com “Carlota Joaquina” (dirigido por Carla Camurati, protagonista de “Cidade  Oculta”). Neste período, o cinema brasileiro teve diversas fases “undrigrudis” cheias de boas intenções e com pouquíssimo dinheiro. Tivemos, por exemplo, o cinema marginal do genial Rogério Sganzerla, as pornochanchadas da Boca do Lixo, o cinema mais engajado do começo dos anos 80 (“Pixote”, “Eles não usam black tie” e “O Homem que virou suco”) e ,ainda,  o que se chama de cinema “pós-moderno” ou “neon-realismo” brasileiro. Nessa escola, destaca-se a trilogia da noite paulistana composta por “Cidade Oculta” (1986), de Chico Botelho, “Anjos da Noite” (1987), de Wilson Barros, e “A Dama do Cine Shanghai” (1988), de Guilherme de Almeida Prado. Particularmente, acho que “Cidade Oculta” também dialogo com erótico “O Olho Mágico do Amor”, principalmente por ambos se passarem em São Paulo, contarem com o mesma turma de atores (Arrigo Barnabé e Carla Camurati estão nos dois filmes, Sérgio Mamberti atua em “Olho Mágico” e seu irmão Cláudio em “Cidade”) e estarem recheados de participações de “celebridades malditas”. Bom, dado o contexto histórico, vale o aviso: “Cidade Oculta” não é uma superprodução. Seus cenários são simples, algumas atuações de personagens coadjuvantes são extremamente caricatas e o roteiro é às vezes simplório, dando “saltos” para resolver situações. (Exemplo: o protagonista Anjo acaba jurado de morte pelo policial Ratão por dar um soco na cara do tira em uma explosão de raiva pouco verosímil. A partir dai o policial passa a procurá-lo dia a noite, matando inclusive bastante gente no caminho).

Muito bem, se você está disposto a descontar esses tropeços, “Cidade Oculta” é um filme interessantíssimo e muito original que foge das regras do Cinema Novo e dos clichês de filmes brasileiros numa mistura frenética de quadrinhos, rock n’ roll e cinema noir. Ou seja, um “Sin City” lançando anos antes, um pré-Tarantino de terceiro mundo. O cenário aqui é urbano e futurista, uma São Paulo sombria cheia de punks, policiais corruptos, drogas, armas e boates de rock n’ roll. A inspiração pro roteiro sãos as HQs de Will Eisneir (especialmente seu detetive Spirit) e os filmes noir, como o clássico “O Falção Maltês/Relíquia Macabra”. Artistas de outras áreas colaboram fortemente no processo criativo o que rende ao filme um caráter multimídia e pop. O músico da vanguarda paulistana Arrigo Barnabé assinou a excelente trilha sonora, participou do roteiro e foi o ator principal. O cartunista Luis Gê (que desenhou a HQ “Tubarões Voadores” que vinha encartada com o disco do mesmo nome de Arrigo) também colaborou com a história. Os músicos Itamar  Assumpção, Clemente e Tonhão (da banda punk Inocentes) e a Patife Band fazem pontas. Jô Soares (que havia atuado em “A Mulher de Todos” de Sganzerla) faz uma participação especial, assim como o músico underground Goemon e Satã (ator que acompanhava Zé do Caixão em suas apresentações). As melhores atuações estão com a belíssima Carla Camurati (que interpreta a dançarina e criminosa Shirley Sombra) e o ótimo Cláudio Mamberti que vive Ratão – um policial junkie, campeão número 1 no combate às drogas. Em tempos de Bolsonaro bombando, o filme nunca pareceu tão atual.

A história conta o retorno de Anjo (Arrigo Barnabé) às ruas paulistanas depois de 7 anos de cana (situação que lembra um pouco  o filme “O Selvagem da Motocicleta” de Francis Ford Coppola) por roubo de muamba. Anjo reencontra seu antigo comparsa Japa (Celso Saiki) que lidera uma gangue de punks (na qual Clemente e Tonhão fazem pontas).  É Japa que apresenta pra Anjo a linda Shirley Sombra que dança sensualmente na boate SP Zero (na vida real a clássica “Madame Satã”). Numa briga, Anjo acerta o corrupto policial Ratão que o jura de morte e passa a persegui-lo pelas ruas sombrias de São Paulo. Inclusive, uma das melhores cenas é a que mostra Ratão (depois de tomar baque na veia) rodando de carro pela metrópole cinza atrás de Anjo, enquanto a trilha explode a versão de Arrigo para “Poema em Linha Reta“, de Fernando Pessoa. Destacam-se na trilha o dueto de Arrigo e Ney Matogrosso na bela “Mente, Mente”, o hit potencial de  “Pô, amar é importante” e a sombria música título.

Entre as referências não declaradas, ainda é possível captar ecos de “Warriors/Selvagens da Noite” (1979), cult futurista americano sobre gangues em Nova York. Assim com em “Warriors”, em alguns momentos a história de “Cidade Oculta” é interrompida por um “narrador”, no caso um ventríloquo com sotaque latino. Outras vezes o filme é cortado por flashbacks que explicam a história passada de Anjo e Japa. As duas produções têm como pano de fundo a metrópole, que aqui aparece em belas cenas do skyline paulistano, em tomadas do rio Pinheiros (ou seria o Tietê) podrão e em rondas noturnas pela Liberdade e pelo centro da cidade.

No geral, o clima do filme é pessimista, os jovens sonhadores são esmagados pelo rato conservador e quem se ergue sobre as ruínas é Shirley Sombra, uma femme fatale forte, que não precisa da proteção masculina no mundo. Vale observar como esse pessimismo reflete as sensações da geração que criou este filme, espremida entre os sonhos dos idealistas anos 70 e a prosperidade do Plano Real. A ditadura havia acabado de acabar, Sarney estava às voltas com a inflação de 76%, o punk paulista se dividia em brigas intermináveis (apesar de musicalmente ainda estar no auge) e a vanguarda paulista de Arrigo, Itamar Assumpção e Patife Band nunca vingou nas rádios. O próprio diretor Chico Botelho só dirigiu dois filmes e morreu precocemente em 1991, depois de voltar com febre do Pará. O ator Celso Saiki*, que vive o carismático Japa, faleceu de Aids ( mesma algoz de outros grandes da geração 80 como Renato Russo e Cazuza) em 1994.

No entanto, ficou  pra posteridade esta experiência de cinema brasileiro “pop marginal” –  fugindo dos clichês do Brasil tropical – e que serve de  retrato para a criativa cena oitentista da cidade de São Paulo, verdadeira protagonista do filme.

O artista underground Goemon em cena em que canta num karaokê da Liberdade

*Um adendo: Celso atuou também no filme “Gaijin” de Tizuka Yamasaki, no “Telcurso Primeiro Grau” da Globo e dirigiu teatro e episódios do programa “Bambalalão”, da TV Cultura. 

Assista ao documentário “O dia que durou 21 anos”

Recomendo fortemente o documentário O dia que durou 21 anos, dirigido por Camilo Tavares e elogiadíssimo na imprensa americana. Ele está em cartaz nos cinemas, mas tem uma versão para a TV disponível no Youtube (abaixo).

“O dia que durou 21 anos” mostra, através de uma brilhante pesquisa em documentos e gravações do governo americano, como os EUA inventaram uma “ameaça comunista” no Brasil de 1964 para derrubar o governo democrático de João Goulart. Fica claro que não existia tal ameaça. Para se ter uma ideia, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) era ilegal durante o governo de Goulart. 

O filme traz conversas telefônicas oficiais dos presidentes John F.  Kennedy e Lydon B. Johnson tramando o golpe de 64 com o embaixador americano no Brasil e , inclusive, escolhendo Castelo Branco como ditador ideal para o Brasil.

Militares que apoiaram o golpe de 64 contam como o tiro (que era pra durar pouco) saiu pela culatra e resultou numa ditadura de 21 anos que atrasou muito o desenvolvimento do nosso país. Após o golpe, a “linha dura” prendeu e cassou, inclusive, políticos de direita como o governador Carlos Lacerda. Muitas das reformas que só aconteceram nos governos FHC e Lula  podiam ter sido antecipadas vinte anos e talvez nossa história tivesse sido diferente.

Algumas das opiniões da crítica internacional:

“Excelente, emocionante história”
The Hollywood Reporter – USA

“Revelador, merece aplausos”
Variety – USA

“Fascinante”
ScreenDaily -USA

“Pedra preciosa”
Luiz Carlos Merten – Estadão

“Um filme de verdade”
Nelson Pereira dos Santos – Cineasta

É triste, mas estamos pagando a conta desse atraso até hoje 🙁

Sinestesia sonora: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” – Beatles, 1967.

Texto originalmente publicado no jornal laboratório da Unesp-Bauru, Contexto, em agosto/2004

A famosa capa do disco reunia diversas personalidades famosas


Sinestesia Sonora

Comprei um ácido com desenho de uma banda colorida, Karl Marx, Marilyn Monroe, Huxley e um monte de gente famosa. Espetei-o com a agulha e tudo se pôs a girar. Ouvi um ruído. Ecos rascantes e energia tomaram o meu corpo. Cheiro forte de pimenta e uma canção de amor cadenciada. Vermelho. Olhos de diamantes observam um céu de marmelada. A trip desacelera e os sentidos se embaralharam, está tudo melhor, azul e lento. Meu corpo sonolento dança seguindo o ritmo de uma orquestra psicodélica. Sinto-me triste pela garota que se vai, mas o clima muda. Pareço estar num show fantástico, com música de circo e sons mágicos vindos de uma caixinha de música.

A melodia pára. Quando a agulha espeta novamente, estamos na Índia e uma cítara adocicada me faz flutuar. Uma melodia antiga, pontuada por sinos e cheirando a cabarés esfumaçados, leva a pergunta: como vou estar com 64 anos? A energia volta verde. Gritos na minha cabeça e um flashback começa. De volta para os uniformes coloridos e cheiro de pimenta. O vermelho agora é rosa, me acalmo, alguns ruídos surgem espontâneos. Notícias no jornal. O ruído aumenta, tudo parece que vai explodir. Mas a viagem acaba. Apenas mais um dia na vida.

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Os Beatles em ensaio feito para o encarte do disco

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