10 músicas clássicas do rap nacional

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 Sim, sim, dava pra fazer umas 3 listas com clássicos do rap nacional. A primeira poderia ser só com  as músicas do começo do movimento, de caras como Athaliba e a Firma, Pepeu e Ndee Naldinho. Outras poderiam trazer as que  fizeram mais sucesso ou com as que foram mais influentes. Eu não pretendo rabiscar nenhuma dessas. A ideia aqui não foi listar as melhores, mas 10 músicas que marcaram época e que são conhecidas(ou deveriam) por todo mundo que curte hip hop. A maioria delas conseguiu ultrapassar a barreira de gêneros e fez sucesso fora do mundo do rap também. Tentei equilibrar aquelas boas pra animar bailes, com outras mais preocupadas em passar uma mensagem.  Foquei no final dos anos 90 porque foi a época em que ouvi mais esse som, e é de lá que vem meu saudosismo com “um tempo bom que não volta nunca mais”.

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Diário de um detento – Racionais Mc’s
“Fim de semana no parque” foi uma das primeiras músicas dos Racionais que ouvi – no rádio mesmo – no meio dos anos 90. Eu era bem moleque e alguns anos depois eles estourariam com “Sobrevivendo no Inferno”. Ouvi esse disco diversas vezes, prestando atenção em cada detalhe das letras. “Diário de um detento” virou, provavelmente a música mais conhecida do rap nacional. Do playboy do colégio ao empacotador do supermercado, todo mundo sabia a letra de cor. Tem outras boas mais antigas(“Mulheres Vulgares”, “Hey Boy”, “Pânico na Zona Sul”), mas poucas marcaram tanto quanto esse relato do cotidiano no Carandiru.

Senhor Tempo Bom – Thaíde e DJ Hum
Muita gente acha que o grande clássico de Thaíde é “Corpo Fechado” que saiu  na coletânea “Hip Hop Cultura de Rua”, de 1988. Ela tem sua importância pioneira,  mas “Senhor tempo bom” se tornou um hino, uma homenagem funkeada aos clássicos black power que acabou se tornando, ela mesma, um clássico, animando bailes por todo o Brasil desde que foi lançada em 1996.


Rap é compromisso
– Sabotage
Infelizmente, Sabotage só lançou um disco em vida. Foi o suficiente para entrar pro pódio do hip hop nacional com uma cadência chapada nas rimas e influências de samba, chorinho e MPB que faziam a diferença em seus raps. Ao lado de “Respeito é pra quem tem” e “Um bom lugar”, “Rap é compromisso” é uma das melhores composições que Sabota deixou antes de ser assassinado.


Fogo na Bomba
– De Menos Crime
“Fogo na Bomba” ultrapassou os limites do rap, virou grito de guerra de maconheiros espalhados por todo Brasil, ganhou espaço em show de rock e foi um dos grandes hits de 1999. Ralando desde 1987 em São Mateus, os manos do De Menos Crime fizeram muita gente que nem curtia hip hop ter o refrão dessa música na ponta da língua. Pra quem gostar vale ouvir “Burguesia” e “A Bola do Mundo”


Tic Tac
– Doctors Mc’s
Tic Tac deve ter sido um dos clipes de rap mais exibidos no extinto Yo!,  da Mtv. Pra mim ela tem um puta gosto de nostalgia. O Doctors normalmente fazia um som mais animado, bom pra galera bater cabeça, mas foi nessa baladinha bem-humorada que os caras conseguiram criar um clássico maior que a própria banda.

Us mano e as mina – Xis
Outro megahit que ultapassou os limites do hip hop, “Us Mano e as mina” tinha a força de um refrão de torcida e fez a galera começar os anos 2000 cantando rap. Xis já estava na correria há anos, tocava a gravadora 4P com KL Jay, tinha passado pelo DMN e gravado “De Esquina”, com Dentinho. Mas foi na simplicidade divertida dessa faixa que ele encontrou o caminho pro sucesso.

O Trem – RZO
O RZO é respeitado por toda sua história, gravou diversas músicas, fez parcerias com artistas que vão de Charlie Brown Jr a Sabotage, passando pelo Instituto. A banda de Pirituba, revelou – também – o talento de Sabotage e Negra Li pro mundo. Mas pra mim, o grande momento dos caras é essa música, presente no disco “Todos são manos”, de 1999.

Cada um por sim – Sistema Negro
O Sistema Negro foi o responsável por colocar Campinas no mapa do rap. Em 1994, “Cada um por si” virou um clássico instântaneo das festas de hip hop - e do já citado Yo!. Diziam que o som dos caras era gangsta, mas as letras eram muito mais retrato e crítica da violência, do que a apologia que os rappers gringos faziam. Faz parte do disco “Ponto de Vista”.

Casa Cheia – Detentos do Rap
Antes de 509-E e outras bandas formadas na cadeia fazerem sucesso, o Detentos do Rap abriu caminho com “Apologia ao crime”, gravado em 1998 na Casa de Detenção de São Paulo. O disco vendeu 30.000 cópias e tornou o refrão “É o Carandiru está de casa cheia/Muito veneno no ar/ e muita droga na veia” um crássico.


De Esquina
– Dentinho e Xis
Em 1997, os rappers Dentinho e Xis(então no DMN) se juntaram pra gravar esse rap que fala sobre a paranoia da cocaína. A faixa foi produzida pelo Thaíde, abriu caminho pra carreira solo de Xis e ganhou até versão samba na voz da cantora Cássia Eller.

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>Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

>(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.
_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.
_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?
_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.
Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

Tava tocando Bezerra da Silva, era cd de camelô. Cheiro de gordura queimando. Churrasco de gato. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja Conte barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando historinha do Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua, revirando lixo. Salivando por causa do lixo podre. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha Tv por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.
_Se liga, Bino! Porra! To falando que você ta frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.
_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.
_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.
_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.
_Ah! Eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.
_Para então, tiziu. Macaco do caralho!
_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.
_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.
_ Cê vai chupar, então.
Pararam.
Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.
_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?
_ Só.
_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.
_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.
_Vai lá então, garanhão.
_ Que cê acha, Bina?
_ Desisti das mulheres, só como puta. O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.
_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat.
_ Treta, hein?
_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda.
_ Só, vou lá na Sheila, então.
Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans marcando a lordose. Blusinha de alcinha. Chinelinho havaiana, vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até em baixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo. Desenhava. Trabalhava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.
Daí chegou um opalão com som fudido. O Morcego, Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado. Colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. O Gil com a Tat lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

O pessoal do “movimento”. Chamar a polícia, rápido. Polícia corrupta. Direto parava um “taticão” na “boca” do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: Rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

_ “Cê” vai chupar!
_ O caralho!
_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.
_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.
_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Vectra parado ali na frente.
_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?
_Se liga, Morcego, o cara ta com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.
_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a arma.
O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as duas armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Vectra sai em disparada. Os três correm atrás, dão de cara com o “taticão”. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. “Vendo terreno no inferno”. Periferia é periferia, né?
2005.