O Uivo – Allen Ginsberg

Escrevi isso pro site do Eduardo(ECM ou Lúcio), o extinto Watchtower. Tinha lá meus 19 anos, mas ainda concordo:
Sobrevivendo no Inferno.
Resenha do clássico beat “O Uivo e outros poemas” de Allen Ginsberg.

“Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”.

Willian Borroughs é adorado no rock n’ roll, tomou picos com os punks e gravou uma música com o U2, mas a literatura beatnik se abriu pra mim com “O Uivo e outros poemas”, obra que conquistou milhões de leitores e tornou seu autor mundialmente famoso. Ginsberg pode ter conhecido a aprovação e a popularidade de um autor consagrado, mas nunca deixou de lado seu estilo “pervertido”, seus versos longos, sua acidez que o enquadram na poesia marginal. Homossexual, usuário de drogas, filho de uma comunista com que teve uma relação delicada, o autor escreveu sua obra num período pré-libertação hippie, segunda metade da década de cinqüenta, quando ainda se sentiam os ecos do Macarthismo e toda paranóia da Guerra Fria. Perseguido e processado pela direita puritana americana e sem o apoio dos ortodoxos da esquerda, Ginsberg escrevia tudo em ritmo de fluxo psicológico, versos grandes que eram na verdade um apanhado de versos menores,como se cada uma de suas poesias fosse um conjunto de pequenos poemas representados por cada parágrafo. De um lado há a escrita coloquial, com uso de linguagem crua, referências a órgãos sexuais, sodomia, drogas e muito jazz, do outro as diversas citações de autores e trechos da liturgia hebraica que demonstram a erudição do poeta,ou como Cláudio Willer escreve em sua apresentação, que os beats se tornaram escritores por serem antes de tudo leitores.

“O Uivo” é um grito de derrota, de revolta, um relato autobiográfico de quem passou por internações em hospitais, de quem viu o horror com os olhos. Autobiográficos são todos os poemas do autor como “Kaddish para Naomi Ginsberg”, escrito para sua própria mãe, um longo poema marcado pela dor, onde ele relata sua conturbada relação edipiana, desde os tempos da militância no Partido Comunista, depois enlouquecida e paranóica, entrando e saindo de instituições psiquiátricas(destino repetido pelo filho), até sua morte. Tudo escrito sem pudor, com a caneta espirrando sangue, a ironia impregnando o papel, pintando o irmão, Eugene, como um advogado fracassado, a figura paterna distante, a mãe hora motivo de repúdio, ora de desejo.
Ginsberg foi um autor que aprendeu a escrever, não só com a literatura, mas também com a vida. Escreveu “O Uivo” depois de sair de Nova York, ter conhecido o mundo trabalhando em um navio e ter chegado à Califórnia onde conheceu Ferlinghetti e Gary Snider, entre outros. Foi internado em instituições psiquiátricas, andou com traficantes e junkies pelas ruas dos Estados Unidos. Seus versos têm o lirismo das calçadas sujas, dos becos, as rimas alteradas pelas drogas, os (anti) heróis são seus amigos beats, seu companheiro no hospício Carl Solomon e Neal Cassady, o “NC”, amante de Ginsberg e Kerouac (com quem viveu um triângulo amoroso, envolvendo a mulher do escritor) e morto de overdose.

A poesia anárquica de Ginsberg é revolucionária, sem ser partidária, retrata a morte sem lamentações, como uma superação. O poeta passa por toda realidade como um sobrevivente. A vida é curta e ele a viveu da forma mais intensa, o que importa é o instante, já que como Ginsberg diz “o universo morre conosco”.

Fred Di Giacomo 09/08/03
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