“Não devemos nada você” – Resenha do livro de Daniel Sinker

-Conheça a autobiografia de Dee Dee Ramone

As coisas à sua volta acontecem muito rápido, você está ansioso pra fazer alguma coisa, mas não sabe por onde começar? Calma! Respire, compre (baixe ou roube) o livro “Não devemos nada a você” e leia todas as 30 entrevistas até o final. Pronto, agora você pode montar sua banda, seu coletivo, sua ONG ou sua própria gravadora. Você pode até mesmo sonhar em mudar o mundo e ter exemplos concretos de gente que trabalhou pra isso.

Inspiração é o que transborda das quase 300 páginas de conversas com figuras importantes da cena punk/alternativa americana que falaram com a revista Punk Planet, em seus 13 anos de vida. E lá estão veteranos do punk rock como Jello Biafra(ex-Dead Kennedys) e Ian Mackaye(ex-Minor Threat e Fugazi), mas também grupos novos como The Gossip e Los Crudos. Artistas hype como Miranda July, pensadores como Noam Chomsky e produtores como Steve Albini. Todos unidos pela vontade de fazer as coisas de forma independente, de achar uma alternativa ao status quo. “Do it yourself” grita para o leitor cada entrevista.

É bacana conhecer uma cena onde punk ou atitude alternativa não são coisas só de meninos rebeldes ou de figuras uniformizadas com moicanos e coturnos(nada contra moicanos, só contra padrões). Muitas das vozes de “Não devemos nada a você” saem de pessoas que vivem daquilo há anos. Que realmente fazem coisas práticas – como ajudar mulheres a abortar ou levar mantimentos para o Iraque – para mudar nossa sociedade. Pra quem se interessa por imprensa alternativa, rock, punk ou cultura independente é item obrigatório. Pra quem não se interessa por nada disso, é uma forma inspiradora de começar.

-Leia alguns contos punks, se tiver coragem.

Capa da edição gringa – bem mais bacanuda que a nossa, né?

 

É só isso?
Não, também tem entrevistas com Thurston Moore(Sonic Youth), Bob Mould(Hüsker Dü & Sugar), Black Flag, Kathleen Hanna(Bikini Kill & Le Tigre), Sleater-Kinney, Porcell(Shelter), entre vários outros.


NÃO DEVEMOS NADA A VOCÊ

Organização e edição: Daniel Sinker
Edições Ideal
308 p. / R$ 40
www.idealshop.com.br

Daniel Sinker, criador da Punk Planet

“Viagem ao fim da noite” – Louis-Ferdinand Céline


Pessimista. Futuro colaboracionista do nazismo. Ácido. Dono de uma escrita crua e erudita ao mesmo tempo. Essa, carregada de neologismo, gírias, palavrões e exclamações em excesso jogadas ali, no meio das palavras. Assim é Céline e assim se desenrola “Viagem ao fim da noite”, seu primeiro e cáustico romance lançado em 1932. Influência seminal de Bukowski, dos beats e, principalmente, de Henry Miller – que rescreveu “Trópico de Câncer” após ler a “Viagem”, Céline inaugura uma nova fase na literatura mundial, dando voz às massas pobres – sem idealizá-las – e escrevendo de uma forma extremamente autobiográfica.
“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.”

“Os pobres são privilegiados. A miséria é gigantesca, utiliza para limpar as misérias do mundo a sua cara, como um pano de chão.”

Céline: celebrado pela esquerda no começo de carreira, acabou virando simpatizante dos nazistas

Seu alter-ego, Ferndinand Bardamu, também luta na Primeira Guerra Mundial, vai trabalhar em plantações na África colonial, mora nos EUA e depois – médico formado – clinica nos subúrbios da França. Numa versão mais trágica da vida do autor, Bardamu é medíocre, perde pacientes para as moléstias, vive sem dinheiro, não conhece o amor – só guardando sentimentos carinhosos para a americana Molly e algumas crianças que aparecem no livro.

“Nunca estamos muito pesarosos que um adulto se vá, é sempre um pulha a menos na face da terra, é o que pensamos, ao passo que uma criança é, afinal, mais incerto. Há o futuro.”

Seu companheiro de viagem ao fim da noite é Robinson, trapaceiro que se envolverá até no assassinato de uma senhora, crime muito mais perverso e menos sofrido que o de Raslkolnikov, em “Crime e Castigo”. Robinson e Bardamu fazem dos protagonistas de “On The Road” heróis cheios de glamour. Dão caráter a Macunaíma, o herói que não tinha nenhum. O absurdo da guerra que Hemingway retrata em “Adeus às armas” nunca foi tão nonsense como no começo de “Viagem…” – quando o quase anarquista Bardamu se alista sem nenhum motivo em especial. O retrato da exploração colonial de “Coração das Trevas” de Conrad, parece lírico diante do cinismo e crueza com que Céline descreve o preconceito, a escravidão e o comércio entre brancos e negros. Cada palavra escrita por Céline é uma arma; uma pílula de revolta, ódio e horror.

“Os ricos não precisam matar uns aos outros para comer”.

A de se destacar que este francês está no seleto rol de escritores que realmente inventaram uma linguagem própria. Sua prosa – mesmo traduzida – soa como um dialeto particular, uma tentativa de reproduzir a oralidade e o fluxo de consciência, sem perder a erudição. Um Guimarães Rosa dos becos. O romance explicita o absurdo do imperialismo, do taylorismo e da guerra, sem propor grandes mudanças, saídas ou esperanças. Talvez seja por isso que, para desilusão da esquerda que aclamou seus dois primeiros romances, Céline tenha se tornado colaborador do nazismo na ditadura de Vichy. Sua crítica, ódio incurável e insatisfação niilista o levariam de encontro às soluções populistas de Hitler.

“É triste as pessoas se deitando, a gente percebe muito bem que não ligam a mínima se as coisas andam como gostariam, a gente vê muito bem que não tentam compreender o porquê de estarmos aqui.”

“Quando não se tem imaginação, morrer não é nada; quando se tem, morrer é demais. É essa minha opinião”.

“Nós dois não chorávamos. Não tínhamos nenhum lugar onde pegar lágrimas”.

Outros malditos que a gente adora:

-Henry Miller e o sexo como razão de viver
-Bukowski: o genial bêbado brigão
-Leia algumas poesias marginais

Livros que eu li em 2010 – Retrospectiva

Ainda no clima das listas de final de ano, refaço aqui minha tradicional (hahaha, tradicional mas só interessante pra mim mesmo, provavelmente) retrospectiva de livros que li no ano. Não fui tão nerd quanto em 2009, li um pouco menos e esqueci de ir anotando os livros enquanto ia terminando, mas acho que estão todos aí. Tentei voltar a ler um pouco de teoria, atacando um Marx aqui, um livro sobre jornalismo ali e outro sobre filosofia zen acolá…


25) Poema Sujo, Ferreira Gullar ****

24)Mãos de Cavalo, Daniel Galera *****

23)Newsgame: Jounalism at Play,
Bogost, Ferrari, Schweizer ****

22)O Manifesto Comunista, Karl Marx e Frederick Engels ****

21)Os prisioneiros,
Rubem Fonseca *** */*

20) O Alienista/O Espelho, Machado de Assis ****

19)A Arte de Causar Efeito Sem Causa, Lourenço Mutarelli, ***

18) Noturno do Chile, Roberto Bolaño ***

17)Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez **** */*

16) O Som e a Fúria, William Faulkner **** */*

15) Lúcia McCartney, Rubem Fonseca ****

14) O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde ****

13) Não devemos nada  a você, Daniel Sinker *****
12) Historia Das Ideias e Movimentos Anarquistas – Vol 1,
George Woodcock *****

11)Uma temporada no inferno, Arthur Rimbaud ****

10) O Amante de Lady Chatterley, D.H. Lawrence ***  *1/2

09) Oficina de Escritores – Um Manual para a Arte da Ficção, Stephen Koch ****

8)O Livro  dos Abraços, Eduardo Galeano *****

7) A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, Eugen Herrigel ****

6) Septuagenarian Stew,
Charles Bukowski ***

5)Onde vivem os monstros, Maurice Sendak *** */*

4)Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley *** */*

3)Cuca Fundida, Woody Allen ***

2) Estação Carandiru, Drauzio Varella *** */*

1)Seis personagens a Procura de um autor, Luigi Pirandello *****

-Resenhas de livros
-Leia alguns contos

Quadrinhos:
7) Cachalote,
Daniel Galera e Rafael Coutinho *****
6) Zap Comix, R Crumb e vários ****
5)Gênesis, Robert Crumb *****
4)Beleléu, vários ****
3)Grito do Povo, Tardi e Vautrin **** */*
2)Complô: A História Secreta dos  Protocolos dos Sábios do Sião,
Will Eisner *****
1)O Sonhador , Will Eisner*** */*

Cozinha do Inferno: Hellbent for Cooking

Faz um bom tempo que eu não escrevo um post (e o Fred está quase me expulsando daqui), mas foi por um bom motivo: estava ocupado com os preparativos do meu casamento.

Um dos presentes que ganhamos foi o livro Hellbent for Cooking. Já que temos que cozinhar, que seja da forma mais metal possível!

O livro foi escrito pela canadense Annick Giroux “The Morbid Chef” e traz receitas enviadas por bandas de vários países e estilos, desde o metal mais tradicional do Judas Priest até o black metal do Gorgoroth. Só senti falta de umas bandas mais farofa. HÁ!

Black Metal Berry Pie: a torta do satanás (clicando nas imagens você consegue ler as receitas)

Ela conta que algumas não puderam entrar no livro, pois não poderiam ser testadas por falta ou bizarrice dos ingredientes e ninguém ia realmente conseguir fazer, como o coração de cobra cru com whiskey enviado pelo Surrender of Divinity da Tailândia ou o guisado de cachorro mandado pelo Piledriver do Canadá.

As receitas são divididas em capítulos de acordo com a especialidade, seja carne, cordeiro, drinques ou até vegetariano. O Kreator por exemplo mandou uma receita de hamburguer vegan de aveia.

Bife com Jack Daniel's: não tem nada melhor

Dentre bandas de todo o mundo, duas brasileiras entraram na jogada: Sepultura com seu “churrasco ao molho de soja” e Holocausto com a óbvia “caipirinha”.

O livro tem 224 páginas, é editado pela Bazillion Points que é especializada em heavy metal e não tem versão nacional, mas pode ser encontrado em livrarias online como Amazon por $23.89 + shipping e The Book Depository por $20.17 com free shipping.

O churrasco de Andreas Kisser

Nosso GG em Havana, Pedro Juan Gutiérrez

-Outras resenhas de livros

por Fred Di Giacomo

GG pôs a mão no bolso e pegou umas moedas. O homem se despediu imediatamente. A cidade sob a chuva era ainda mais bonita. Olhou o panorama por alguns minutos. Sentiu que a atmosfera estava mais fresca e limpa. Bateram na porta. Traziam uma bandeja de prata com uma garrafa de uísque, gelo, água e copos. Serviu uma dose generosa, com pouca água e dois cubos de gelo, e, sorrindo, parcimoniosamente, brindou a si mesmo olhando para a cidade molhada:

- Bem-vindo a Havana, mister Greene. O senhor é nosso hóspede de honra.

Não espere aqui o Pedro Juan Guitiérrez que escreve com o fígado em “Trilogia Suja de Havana”. Em seu novo ciclo – no qual se insere “Nosso GG em Havana” – o cubano escreve com o cérebro. O livro é rápido, as frases continuam curtas e sexo, sangue e rumba marcam sua presença. Mas essa não é mais uma obra autobiográfica sobre a Cuba contemporânea. Aqui Guitérrez traz uma trama de espionagem e mistério, envolvendo o escritor britânico Graham Green (de “O Americano Tranquilo”). Se for pra traçar um paralelo com Bukowski – com quem Gutiérrez é sempre comparado – este seria o seu “Pulp”, momento em que o velho Buk deixou de lado a autobiografia para se aventurar pelas histórias de detetive fantásticas.

A Cuba de “Nosso GG em Havana” não é nem a ilha dos anos 60, marcada pela revolução de Fidel Castro, e nem o Estado agonizante que muitos retratam hoje em dia. Pela escrita crua de Gutiérrez nós somos levados ao país pré-revolução, quando cassinos, prostitutas e turistas americanos eram os principais elementos do cenário caribenho. Carrões potentes e modernos rodavam pelas ruas infestadas de gringos. Mafiosos controlavam o jogo e mulatas sensuais enlouqueciam a imaginação.

Pedro Juan Gutiérrez experimenta nova fase em "Nosso GG em Havana"

É nesse cenário dos anos 50, que Pedro Juan cria sua trama fictícia – pincelada de situações fantásticas – envolvendo Green, boxeadores decadentes, travestis, caçadores de nazistas e organizações secretas comunistas. Não tem o mesmo fôlego e inspiração de suas obras anteriores, mas é uma dose curta e saborosa de um coquetel que mistura ritmos caribenhos, sangue e sacanagem.

- Leia análise da “Trilogia Suja de Havana”, de Pedro Juan Gutiérrez
- Resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski

ZAP Comix – Robert Crumb, Gilbert Shelton e outros

Capa da coletânea da Zap Comix publicada no Brasil pela Conrad

Ele (Crumb falou com todo mundo , e teve culhões para fazer esse gibis. Reinventou o gibi. Ele tomou isso como outros de sua geração tomaram a música. Existem poucas pessoas que você pode dizer que literalmente se tornaram o ponto de partida para todo um mundo. Crumb teve a grande visão, a visão ardente”. Bill Griffith, colaborador da Zap Comix!

Crumb, nerd responsável pelo caos

Os beats já eram homens maduros quando o Flower Power explodiu no final dos loucos anos 60. Os hippies ainda eram muito ingênuos pra escrever seus livros na mesma época. Enquanto Jimi Hendrix tacava fogo na guitarra, Timothy Leary pregava a expansão da mente através do LSD e Zé Celso revolucionava o teatro no Oficina, quem escrevia a literatura daquela geração desbundada? Os livros eram o registro em papel daqueles ecos lisérgicos?

Não. A literatura não era apenas a poesia dos velhos (e bons) beats. Ela era composta pelas resenhas musicais de caras como Lester Bangs e pelos rabiscos malucos de quadrinistas underground como o gênio Robert Crumb. Crumb era só um desenhista de cartões postais, vindo de uma família desajustada e com gosto por músicas e roupas antigas, quando começou a fazer seus primeiros quadrinhos. Não é o tipo de gente que você imagina que seria chamado para desenhar a clássica capa de “Cheap Thrills” da Janis e que depois se negaria a desenhar uma para os Stones. Mas lá vai nosso nerd, vindo de Cleveland para desenhar sozinho o número zero da Zap Comix. As ruas da Califórnias estavam prontas para aquele petardo? Bom, acontece que o cara que deveria imprimir a ZAP sumiu do mapa com os originais e lá foi Crumb desenhar a edição número 1 inteira, sozinho novamente, e revolucionar a indústria dos quadrinhos. Desde a Mad original não se via tamanha afronta. Sexo, drogas, nonsense, gírias. Tudo fazendo rir. Críticas sociais, morais, e culturais que vinham em formato de humor sacana e barato. Edições tiradas em impressoras off set baratas que estavam revolucionando a indústria. E distribuídas inicialmente no carrinho de bebê da mulher de Crumb.

Começo da polêmica e incestuosa história "Joe Blow"

E outros artistas foram se unindo a Crumb. Cada um representando uma subcultura. Spain Rodriguez (operário membro de uma gnague latina), Rick Griffin (surfista e ilustrador), Robertt Williams (marginalzinho e aspirante a artista), Victor Moscoso (espanhol que já tinha experiência na indústria de HQs), Gilbert Shelton (dividia o tempo entre uma gangue de motoqueiros e uma revista underground), Siclay Wilson (cursava Belas Artes e servia o exército a contragosto). Aos poucos aquela gangue de surfistas, hippies, latinos e freakies ia ligando suas histórias na tomada e eletrocutando os leitores. A Zap não tinha periodicidade fixa, mas vendia surpreendentemente bem. Dizia-se até que ela iria matar Super-Homem e Cia.

Piratas pirados de Siclay Wilson

A coletânea publicada no Brasil pela Conrad reúne 14 números publicados entre 1967 e 1998. É um delicioso aperitivo para quem quer se introduzir no mundo da ZAP. Conta ainda com uma primorosa introdução escrita por Rogério de Campos, o homem por trás da Conrad. E uma experiência inspiradora de produção independente que ajudou a subverter e transformar a indústria que a rodeava.

Capa da Zap Comix número 1

Zap foi o start. Mas a coisa teria acontecido mesmo sem o Crumb, porque todos os artistas underground estavam caminhando nessa direção – Griffin, Mouse, Kelley, eu no sul da Califórnia, Gilbert Shelton. Havia um grande ódio contra a autoridade e o governo, e os quadrinhos eram uma tremenda forma de expressão”, Robert Williams.

-Chiclete com Banana: Angeli cria um hit underground dos quadrinhos
-Ódio:  Versão HQ do grunge

Mulheres II: Quando acordam

Este conto é um trecho do livro “Memórias de um Perdedor”, em breve nos melhores botecos.

Quando acorda, olhinhos fechados, Nathália tem cara de azul, gosto de esperança, cheiro de paz. Me lembra incenso queimando. Viajo longe… Fico olhando seu rosto, tentando ler uma história, mas sua pele macia não tem rugas e nem verbos. Só farejo vestígios de uma boa notícia, meu instinto jornalístico é mais forte que minhas desilusões com a profissão. Ela bate o despertador e volta pro sono. Murmura, cansada, quase pedindo:

_ São seis ainda, vou dormir mais meia horinha…

Tudo bem, meu anjo, durma quanto quiser, enquanto isso, peço pra dEUS(se eLE existir), que estique essa meia hora em um dia, pra que essa menina possa descansar de todo uma vida, pelo menos dessa vez.

Seus cabelos são lisos, negros, olhos puxadinhos, boca carnuda, parece índia. Só um ano mais velha, mas toda uma vida na minha frente. ELA: trabalha desde os dezesseis. EU: me desfaço em lágrimas e borro as calças por um estágio de duzentos reais ao mês. Se mantém na cidade com nove horas diárias de trampo numa empresa de suco em pó. Embalam de tudo por lá: suco, sonhos, lágrimas e suor dos operários, desidratam, tiram toda água e humanidade e depois deixam os funcionários voltarem sentindo um buraco em seus corpos. Nem passa em casa, vai pra aula, vender seus sonhos em troca de “comunicação social com habilitação em jornalismo”. Fala comigo e o tempo para. Meiga, quase uma menina, com histórias que deixariam todas minhas noivas neuróticas a ponto do suicídio. Gosto de ouvi-la. Quando chega em casa vira suco.

_Eu falo demais, né?

Não, linda, adoro te ouvir, você me fez voltar a escrever depois da síndrome de pânico, da hipocondria e do coração partido. Parece que eu não escolho mulheres ou pretendentes, mas boas histórias. E você é cheia de boas histórias, me conte uma, vai:

_ Tinha uma indiazinha que morava na quebrada de São Paulo, Freguesia do Ó .
_Como chamava essa indiazinha?
_Hum… Chamava Iracema!
_A virgem dos lábios de mel?
_Não, nada mais de virgem, os pais não gostavam da ideia, mas ela transou com um namorado legal, até, aos dezessete anos…
_E o que fazia essa indiazinha? Caçava, pescava? Fazia artesanato?
_ Não, artesanato é coisa de hippie. Trabalhava e estudava!
_ Hum… Que mais?
_ Bom, um dia, cacique bateu na sua esposa e a indiazinha partiu pra cima dele
_Jura?
_ Sim, dizem que era de uma tribo de amazonas guerreiras.
_Certo, certo,que mais?
_ Bom, deixa eu ver, o irmão da indiazinha, resolveu virar mulher…
_ E aí?
_Aí, o cacique o expulsou da aldeia, mas sua mulher não deixou. O cacique saiu de casa, e sua mulher cortou os pulsos.
_ (…*) É um mundo horrível, não é?(…) Vem, dá um abraço!

O mundo é horrível e ela me abraça, enroscada no meu corpo, mas quem precisa daquilo sou eu. Naquele emaranhado o (quase) homem de um metro e oitenta é, na verdade, embalado pela menina-mulher de um e sessenta e quatro. Ela aninha a cabeça no meu peito e sua respiração na minha pele faz um bem danado.

_É, a tribo só se reuniu quando Iracema foi estudar fora. Aí, um dia, um homem mau a parou na rua. Ele tinha nos olhos toda a cólera dos novos tempos. Toda raiva sem sentido que as pessoas frustradas carregam. Assaltou-a e tentou violentá-la. Falou e fez coisas horríveis. Ela nunca pôde falar pro cacique ou pra mãe.
_ (…*)(…*)Os homens são uns animais, né? Deviam ser todos castrados… (…*) Ela não ficou com trauma de sexo?
_ De sexo não, mas ficou com medo de sair de casa por um ano…
_ E aí?
_Aí, ela encontrou um louco que pensava que era príncipe, um bufão. E ele animou sua vida, enquanto as cicatrizes fechavam.

Sou um palhaço triste, já escrevi e repito, agora, você me tirou dessa. Obrigado. Olho pra sua cara, seis e meia da manhã. O primeiro ônibus passa sete e vinte e leva até o centro. O segundo você pega quinze pras oito. Volta direto pra aula às sete da noite. Amanhã, vou pensar que sou uma franga com medo da vida e você é forte como ferro. Mas agora, só olho pra você, abraço seu corpo, e peço que dEUS transforme sua meia hora de sono num dia inteiro.

*(…) = Silêncio da vida real.

***
Quando acorda, Ana tem cara de vermelho. Faz barulho, um barulho estranho, meio perdida. Quando volta ao nosso planeta, é toda um sorriso bonito, gosto de curiosidade, cheiro de auto-estima, parece criança feliz, descobrindo o mundo com uns olhões arregalados. Nunca transamos, mas adoro acordar com ela ao meu lado. Sentir seu corpo inteiro junto ao meu, todo branco, cheio de pontas vermelhas. Ela beija minha boca com gosto, diz que é boa porque babada.

Ana gosta de meninas e gosta um pouco de mim. Já gostou mais, mas ainda somos amigos. Nunca cheguei nem perto da sua virgindade. Ela só dorme com mulheres, diz que casa virgem. Pelo menos, de homens. Beijo cada dedo do seu pé e ela fica louca, se contorce. Depois pratica com a namorada, diz que a iniciei nos “prazeres do pé”.

Completa em sua ingenuidade.

Às vezes, ficamos horas na cama, nus, beijando corpos, átomos, células e futuros cadáveres. Todo mundo é um necrófilo por antecipação.

Um dia beijou o professor de literatura, agora têm um caso. “E a gente, Ana, o que nós temos??”
Não sei se te amo, se vou te amar ou se te amei. Sei que gosto muito de ficar com você. Um abraço seu cura minha carência, meu medo da vida, meu medo da morte. Nos teus braços, sou imortal por um instante. No teu abraço, uma eternidade supérflua.

Ela ainda fica comigo, porque sou o único que não me apaixono por seus cabelos cor de fogo. Todos, homens e mulheres estão aos seus pés. Eu também estaria se não fosse cego e louco. Um perdido na vida, não faço por mal. Ela sabe disso e se diverte. Deixa que eu beije seu piercing no mamilo, puxo com os dentes, coloco a mão no meio da suas pernas. O telefone toca. Uma “EX”. Primeiro minha, e depois a dela.

A minha quando acorda é verde, tem cheiro de braveza, mas gosto de desafio. Sonhei que um dia as duas se beijavam. Não importa, a Ana sai voando pela sala e volta no dia seguinte, até que eu enjoe das preliminares e ela enjoe de barba. Então cada um de nós vai procurar dormir com uma mulher diferente. E a história acaba assim.

***

Quando acordo sozinho a vida parece cinza, tem gosto de vazio e cheiro de solidão. Abraço forte o travesseiro e fico acordando com falta de ar. Sozinho, de cueca, o mesmo pesadelo de sempre, sinto como se fosse morrer e me cago de medo. Sou mais um perdido numa noite suja. Só. As mulheres com seus sorrisos preenchem meu eu. Sou viciado em seus hormônios e, sem seus encantos, só brEU.
Só.
EU

“De perto nem os anjos têm asas.”

Sexus, Henry Miller

Sexus, Henry Miller – Editora CEA(Edição Econômica, 1975. Tradução de Roberto Muggiati.

Infelizmente não achei uma imagem da capa da edição que li..

por Fred Di Giacomo

A montagem tosca cheia de mulheres nuas sobre o papel vagabundo engana. O título chamativo em vermelho – estampando a palavra “Sexus” – também. Henry Miller não é um mero escritor erótico, apesar de fazer o sangue e a libido alheia ferverem com suas descrições sexuais. Ele é um escritor da vida. “A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto(…)”, escreveu Norman Mailer. George Orwell o definiu como “(…)o único excelente escritor de prosa imaginativa que apareceu na língua inglesa nos últimos anos”. Com essas credenciais, podemos nos desligar da imagem de Miller “o libertino” e começar a viajar na instigante jornada de Miller, o escritor.

“Devia ser uma noite de quinta-feira quando a conheci – no salão de danças”. Se era ou não uma quinta-feira, a Miller pouco importa. O que importa é que foi no salão de danças que ele conheceu Mona(na vida real, June), a paixão de sua vida e tema principal de “Sexus”. Miller é casado e trabalha na companhia de telégrafos (ou Corporação Chupadora Cosmodemoníaca, como ele prefere). Odeia seu emprego, tem uma filha e uma mulher (com as quais pouco se envolve emocionalmente) , mora em Nova York e sonha em ser escritor. “Um fracasso em todo sentido da palavra”, como se define. Já pensou em se matar, conta-nos seu amigo Kronski, mas agora quer viver. Intensamente. Está empolgado com a existência. E a sensual Mona será a cereja deste saboroso bolo, esta nova percepção de vida.

“Sexus”(1949) faz parte da trilogia “Crucificação Encarnada” – ao lado de “Plexus”(1953) e “Nexus”(1960) – que consagrou Miller como um dos grandes do século XX, depois de seu começo conturbado com o censurado“Trópico de Câncer”. O livro narra os últimos anos de Miller nos Estados Unidos, antes de largar tudo e ir vagabundear na Europa – onde se revelou como escritor.(Período brilhantemente mostrado no filme “Henry & June”). O autor explica que está se aproximando de seu trigésimo terceiro aniversário – a idade de Cristo crucificado – e uma nova vida se estende para ele. Mas este é o único motivo pelo qual a trilogia deve se chamar “Crucificação”? O leitor atento pode observar: que são os discursos verborrágicos de Henry sobre a vida, o sexo, o trabalho e a sociedade que não sermões, muitas vezes em parábolas? Assim como Cristo, nosso autor/personagem prega um novo mundo, um paraíso – desta vez na Terra – que pode ser atingido através de sua doutrina. Ele converte amigos e mulheres com sua fala inflamada, realiza milagres através de orgasmos e multiplica comida e dinheiro – que consegue pedindo aos camaradas. E qual é sua punição? A crucificação simbolizada pelo casamento, o trabalho, as contas pra pagar e a rotina humana. Muito dessa filosofia não é novidade, algo foi tomado de Nietzsche(assim com de Céline vêm as descrições cruas e de Dostoiéviski os diálogos realistas.) Mas ao contrário de Nietzsche, Miller trepa.

A obra é dividida em 5 livros. O primeiro é mais morno, com o começo do romance entre Miller e a misteriosa Mona e a apresentação de seu círculo de amigos. A coisa vai engrenando no livro 2, que narra o fim do casamento de Henry com sua primeira esposa, Maude, e explode nos 3 seguintes, com a intensidade narrativa cada vez mais quente.

-Leia contos libertários e libertinos

-Mais resenhas de grandes livros

O Miller de “Sexus” é um escritor sem livros. Todos os amigos gostam de sua companhia, lhe emprestam dinheiro e perguntam por que ele não escreve nada. “Você deveria escrever como fala”, alguém aconselha. Clic! Um estalo dispara uma fagulha no narrador. “O mundo só começaria a tirar de mim algo de valor a partir do momento em que eu deixasse de ser um membro sério da sociedade e me tornasse – eu mesmo”.

Não é a toa que Miller tenha influenciado tantos beats e hippies. Ele quer tacar fogo em toda superficialidade da vida cotidiana e ir direto ao âmago da existência. Odeia o comum. Quer criar um novo mundo. “Se existe algo da qualidade de Deus em Deus é isto. Ele ousou tudo imaginar”. Se por um lado é libertário, por outro é egoísta, deixando filha e mulher de lado para viver sua grande aventura pessoal. Afirma que não se importa com a miséria do mundo. “Para mudar o mundo devemos primeiro mudar nós mesmos”, dizia um dos lemas da contracultura. Como um São Francisco ninfomaníaco, o escritor quer se livrar do peso morto para alçar vôo: “Nas poucas leituras que eu fizera, tinha observado que os homens que eram mais na vida, que estavam amoldando a vida, que eram a própria vida, comiam pouco, dormiam pouco, possuíam pouco ou quase nada”.

-Conheça “O Uivo”, de Allen Ginsberg


O ritmo do texto ganha a virulência dos discursos inebriados de Miller. Ele cospe Blake, Céline e Buda numa velocidade assustadora, mesclados às sensuais descrições de suas aventuras eróticas com amantes, Mona e a ex-esposa. Novamente há aqui um movimento contraditório. É o narrador um ativista da libertação sexual ou um machista só preocupado com seu próprio falo? Ele parece realmente apaixonado por Mona, apesar de conviver bem com as traições de ambos os lados.

Cada capítulo de “Sexus” traz novos personagens e citações. Se há algum enredo que conduz a história, este pode ser resumido em “livro que narra o primeiro divórcio de Miller, o começo da relação com Mona e o processo de transformação que levaria o autor a largar tudo e virar escritor”. Com a aceleração do ritmo passamos por sonhos, devaneios e descrições surrealistas. Miller, o gangster espiritual, adianta “O Almoço Nu” de Borroughs em alguns anos pra terminar em sua própria “Metamorfose” surrealista.

“Somos todos culpados do crime, o grande crime de não vivermos uma vida completa”. É essa a maior busca do escritor/personagem: desfrutar de uma vida completa.

-Leia resenha de “Trópico de Câncer”
-Pedro Juan Gutiérrez, o Henry Miller cubano

Mona(June) e Anais Nin, no filme “Henry & June”