A Torre

“O Rei está falido e bipolar”,
Disse o bispo deprimido
à rainha em pânico.
“Pelo menos temos a Torre”,
suspirou o último dos peões,
“a Torre é nosso pilar.”

O reino negro está
coberto pela teia prateada
E a viúva ceifadeira segue
espalhando paralisia pelas casas brancas.
“Pelo menos temos a Torre”, recitou o cavalo hidrófobo,
“a Torre é nosso pilar”.

Por toda muralha já se vê o mofo melancólico
enroscando o reino adversário
“Que amarga vitória”, lamentou-se o envelhecido rei alquebrado,
“Nossos adversários eram nosso espelho,
nossa âncora e nossa cultura.
Pelo menos temos a Torre
e a Torre é nosso pilar.”

***
“Mas que diabos é essa sujeira no tabuleiro?
Esses destroços e esses ossos?
Limpem essa porcaria, pra que a Torre possa se equilibrar”
Mas nenhuma das figuras daquele tablado
– Nem mesmo o Valete descartado –
Ousaram revelar:
aquilo era o resto da Torre
esmigalhada ao luar.

Sobre a importância da “classe média dos artistas”, por Bruno Tolentino

Muitas teorias sobre cultura rezam que os gênios só surgem em ambientes criativos; em uma cena que os estimula, os sustenta e eleva seu nível. Por isso alguns momentos e locais da história seriam celeiros de grandes criadores, onde tudo acontece “ao mesmo tempo agora”. A Paria da década de 20, a Nova York dos anos 70 ou a Viena do final do século XIX são alguns exemplos. Abaixo o polêmico poeta e crítico Bruno Tolentino dá sua visão sobre a importância de uma “classe média intelectual” que permite o surgimento dos grandes gênios. (e a falta que essa “média” faz  no Brasil). É um trecho do prólogo de “Os sapos de ontem”.

“É que toda agitação artificial e estéril confunde, dispersa ou paralisa um elemento indispensável a qualquer sedimentação cultural: o bom escritor de segundo escalão, de porte mediano, fruto da excelência do esforço, da dedicação ao estudo, do suor do talento e não do gênio. É ele que, paradoxalmente, sustém as
altitudes do gênio de uma raça, embasa-as à maneira da cordilheira erguendo, sustentando seus cumes. A solidão destes últimos não pode ser, não tem porque ser total, ela é tática apenas. Sem a variedade de seus pares, o lobo solitário é pouco mais que um desgarrado, por grande e pungente que seja seu uivo, seu protesto precisamente contra esse isolamento, sempre anti-natural e, enquanto dure, uma perda para todos. Com efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho. Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola, quem à proa e quem à popa – e ao leme, aos cordames, aos remos. A invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é condição indispensável ao bom destino da empresa, da aventura.”, Bruno Tolentino

Escritor multimídia Fred Di Giacomo lança “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”

Capa do livro "Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI", de Fred Di Giacomo

Capa do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, de Fred Di Giacomo

Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” é uma tentativa poética de construir pontes literárias entre mundos distantes, numa época em que o ódio ergue muros e nos isola. São poemas caipira punk que revezam lirismo com pancadaria, Mano Brown com Walt Whitman, Penápolis com Pinheiros, Konstantinos Kaváfis com Beyoncé – delicadas fotos do interior (do Estado e do poeta) com coquetéis molotov que explodem “na cabeça do século”.

Fred Di Giacomo procura transformar a sensação desconfortável de solidão e não pertencimento em um santuário de versos e samplers de rimas, que emulam a mítica casa da Tia Ciata, onde escritores modernistas, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, ouviam a música revolucionária de Ismael Silva, Pixinguinha e Donga com impacto transformador para nossa antropofágica cultura.

Se interessou pelo livro? Adquira o seu aqui! 😀

Caipira punk de Penápolis, cidade do sertão paulista; o escritor e artista multimídia Fred Di Giacomo já foi chamado de “polymath” (algo como “renascentista”) pela Vice americana e elogiado por fazer ” um free-jazz que junta o repertório de vasta leitura com a velocidade fragmentada da sua geração (…) rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat” pelo jornalista Xico Sá (que assina a orelha do seu primeiro livro). Fred usa plataformas como livros, games, poemas, sites, músicas e infográficos para contar histórias, se comunicar com os leitores e produzir arte.

 

Entrevista sobre o livro:

“o pássaro azul”, poema de Charles Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

(Tradução: Pedro Gonzaga)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

Inspire-se: 10 pessoas que desenvolveram projetos legais em 2014

juliana-de-faria-think-olga

Lá no Glück Project, fizemos uma listinha com 10 pessoas que desenvolveram projetos em 2014 e nos serviram como inspiração. Tem feministas, professores de escolas públicas, jornalistas independentes, editores de livros de ficção e mais uma penca de pessoas inspiradoras. Se estiver precisando de um soprinho de ânimo na sua vida, dá um clique aí!

Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

Insônia

– Mais rabiscos poéticos
insonia-poesia
Enquanto dormem depressivos e pouco amados
Nós – os neuróticos – ficamos acordados
Sem conseguir cerrar as pálpebras
Contando carnerinhos que atravessam as molduras dos sonhos
Rumo ao terreno onírico dos pensamentos medonhos

“Ela me ama de verdade?”
“Deus de nós tem piedade?”
“Serei eu feliz na vida?”
“Sou um bufão ou suicida?”
“Qual é a origem dessas dúvidas?”
“São lágrimas a desbotar minha íris úmida?”

Uma ida ao banheiro
Uma oração
Vontade de comer
Mudar de posição

E a madrugadora aurora devora a escuridão
Antes que Morpheu cumpra sua missão.

Fred Di Giacomo odeia ter insônia, mas dorme tarde por livre e espontânea vontade todos os dias, porque é o único jeito de ter tempo para escrever.

“Free Jazz com palavras” – Jademir Rocha & Fred Di Giacomo

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

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Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo – há anos – de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

 Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Fred Di Giacomo pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado “Bebop Beat”, composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:

Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência

O resto é pop.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.
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Veja também:

– 6 discos para começar a escutar jazz
-“Odisséia”: o clássico que fundou a literatura ocidental

“Eu e outros poesias” (1912): Augusto dos Anjos transforma a morte em poesia

Eu e outros poesias

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Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro da tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Eu e outras poesias
Eu” é o único livro publicado em vida pelo poeta paraibano Augusto dos Anjos. Mistura de técnica parnasiana com temas simbolistas e que acabou classificada na segunda metade do século XX como “pré-modernista”, sua poesia se tornou popular apenas após a morte do autor.

O livro foi publicado de forma independente no Rio de Janeiro, em 1912. Após a morte de Augusto, foi lançada uma nova versão da obra com poemas inéditos que ficou conhecida como “Eu e outras poesias”.

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Versos a um coveiro
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!

Augusto dos Anjos
Poeta queridinho de punks e góticos, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Dedicou-se ao magistério e chegou a ser diretor de uma escola. Morreu jovem, em decorrência de uma pneumonia. Uma das principais características de sua poesia é o uso de termos populares mesclados com expressões científicas/eruditas.

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!

Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…

Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

“Navio negreiro” – poema de Castro Alves

Navio negreiro” é um dos poemas mais conhecidos do baiano Castro Alves. Para ilustrar essa comovente crítica abolicionista, selecionei a única foto conhecida de um navio de escravos, tirada em 1882.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Navio Negreiro
Castro Alves
I

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu …
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! …

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
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