Como ficam a mídia e os jornalistas diante dos protestos no Brasil?

Dizia uma velha propaganda eleitoral: “eu tenho medo”. Eu também tenho medo: medo de perder o emprego. Isso mesmo, devo confessar minha covardia; toda vez que vejo explodirem protestos contra injustiças eu penso duas vezes para fazer comentários que possam comprometer meu emprego. Toda vez que a maior revista do Brasil escreve uma matéria distorcendo fatos, trocando notícias por opiniões e carregando em adjetivos preconceituosos eu me sinto amordaçado e não comento nada. Justo eu que sempre inventei fanzines, jornaizinhos e programas de rádio para dizer o que penso livremente. Mas, e agora, se eu falar o que penso poderei ser demitido?

Bom, nós temos “cumprido nosso dever” como jornalistas. Nossos chefes mandaram repórteres e fotógrafos para cobrir os protestos contra o aumento da passagem de ônibus. As notícias que me chegam são que um fotógrafo ficou cego e uma jornalista foi gravemente ferida pela truculência da Policia Militar (acostumada a espancar, matar e torturar rotineiramente nas periferias do estado). Um fotógrafo e uma jornalista que estavam TRABALHANDO. Cumprindo as ordens dos seus chefes. E o que nós recebemos em troca pelo sacrifício? Editoriais, colunas e blogs elogiando a violência sem sentido da PM que cega. E não podemos nem comentar em nossos Facebooks e Twitters pessoais por que temos medo de perder o emprego?

É engraçado porque, na faculdade, muitos dos meus colegas – de esquerda e de direita – escolheram a profissão porque achavam que podiam ajudar a mudar o Brasil. Podiam denunciar a corrupção, a violência e dar voz às grandes histórias que mereciam ser contadas. E a gente acusava os estudantes de engenharia de serem alienados. Mas agora os engenheiros constroem pontes e nós construímos o quê?

Então, no final, nós jornalistas somos como a PM? Cumprimos as ordens que servem para manter a ordem e voltamos para casa felizes por receber os nossos salários que nos permitem tomar uma cerveja importada, uma viagem pro exterior ou um iPhone novo? Somos a polícia militar do pensamento contando as mesmas histórias sempre sobre vândalos e bárbaros que querem destruir a ordem e o progresso? Bem, nós não concordamos com as próprias notícias que publicamos, claro, mas não temos direito de escrever as verdades que apuramos. Escrevemos o que nos pagam pra escrever? Afinal, temos que manter nossos empregos… No entanto, por mais dóceis que tenhamos sido (mais ponderados e obedientes ), nós estamos perdendo os empregos aos montes. Na Folha, no Estado, no Valor Econômico, na Abril, na Caros Amigos, na Trip… Quando a situação aperta jornalistas se tornam descartáveis. Um ponto a mais nas folhas de gastos como papel, luz ou aluguel. Agora não temos emprego nem dignidade dos tempos de faculdade.

E do outro lado?

Eles têm balas de borracha que nos cegam, gás de pimenta que nos sufocam, os maiores jornais e revistas do Brasil, todos reportando um só lado da história. Eu tenho essas simples e sinceras palavras. A dignidade que me resta me impede de continuar escondendo-as na garganta.

E você?

Como surgiram os newsgames do Núcleo Jovem – Editora Abril

post originalmente publicado em: http://super.abril.com.br/blogs/newsgames/como-surgiram-os-newsgames-no-nucleo-jovem/

Desde o ano passado, quando assumi a coordenação da Internet Núcleo Jovem, aqui na Editora Abril, muitos estudantes me procuraram para fazer entrevistas sobre os newsgames que temos produzido desde 2007. Como o material escrito sobre o tema é muito escasso,resolvi escrever esse pequeno texto pra registrar nossas primeiras experiências com games.

Quando cheguei para trabalhar na Editora Abril, em 2006, logo depois do Curso Abril, a empresa estava retomando alguns investimentos em internet que tinham esfriado desde o ” estoura da bolha”, em 2000. Fui contratado no Núcleo Jovem, na época gerido pelo Adriano Silva, que tinha adotado a estratégia de ter um Núcleo Digital responsável por todos os sites da área (Superinteressante, Mundo Estranho e Bizz), menos Capricho. Minha missão era redesenhar os sites de Bizz e Mundo Estranho com o inspirador briefing de “quero ver você voar, pode criar e inventar o que quiser”. Aceitei a missão com um sorriso no rosto, já que pedir pra um recém formado “voar” é a mesma coisa que levar o Mussum pra passear na fábrica da 51.

Empolgados, eu e o Felipe Van Deursen – responsável pelo site de Aventuras na História, que seria incorporada pela área porteriormente – começamos a fazer as primeiras experiências com infografia e vídeos em 2006 e alguns jogos em 2007. Nosso Núcleo tinha um vasto know how em infográficos na parte impressa e já acumulava dezenas de prêmios Malofiej (o Oscar da infografia). Aprendendo com Rodrigo Ratier, Luis Iria, Alessandra Kalko, Debora Bianchi e tantos outros feras da visualização de dados, fomos tendo os primeiros rudimentos do jornalismo visual e entendendo a importância da integração entre arte e texto. Em 2007, um infográfico animado da Mundo Estranho ganhou medalha de bronze no Malofiej. Alguns infográficos produzidos posteriormente sobre a coordenação de Fábio Volpe e Alessandra Kalko passaram a incluir pequenos puzzles e joguinhos, dentro de sua estrutura. O primeiro game mais elaborado desenvolvido no site da ME foi o “Stripquiz” – uma sacada do Bruno Xavier, nosso webmaster – que tinha como objetivo passar informações básicas sobre sexo, camisinha e prevenção de DSTs para adolescentes. A cada resposta correta, uma voluptosa modelo tirava a roupa. Já estava ali um dos princípios dos newsgames, que era aliar informação com diversão.

No mesmo ano, o Felipe desenvolveu, com a designer Renata Aguiar, o jogo “Sovietes: o quebra-cabeça vermelho”, sobre a antiga União Soviética, para a “Aventuras na História”. Eram ideias simples, mas que já apresentavam as características necessárias para enquadrá-las na categoria de newsgames.

Trabalhar no site da Mundo Estranho entre 2006 e 2008 foi uma experiência muito rica e criativa. Ao lado do designer Marco Moreira, de Bruno Xavier e da redação da revista nós testamos diversos formatos multimídia, produzindo um conteúdo dinâmico, jovem e livre do mal de “apenas reproduzir na web formatos clássicos da mídia impressa”. Testamos jogos, infográficos, podcasts, vídeos, revistas digitais, hotsites em flash, testes, emoticons… Sempre procurando descobrir o que as novas plataformas poderiam acrescentar à arte de contar histórias.


Stripquiz unia diversão e informação para adolescentes

Paralelo a isso, na redação da revista Superinteressante o jornalista Rafael Kenski estava escrevendo uma matéria sobre ARGs (Alternate Reality Games), uma espécie de evolução mais complexa dos RPG’s. Essa matéria terminava com uma pista para um ARG, um dos primeiros realizados no Brasil. Kenski acabou se tornando um dos maiores especialistas sobre esse tipo de jogos no Brasil, e o Núcleo Jovem chegou a ter uma equipe dedicada exclusivamente ao desenvolvimento de ARGs, responsável pela criação do Zona Incerta, jogo do Guaraná Antártica que levou políticos brasileiros a discursarem contra uma empresa americana fictícia que supostamente queria transformar a Amazônia em área internacional. Um vídeo dessa empresa “maligna” tornou-se viral, e eu cheguei a receber um email do meu próprio pai com este link e o título “Absurdo! Querem privatizar a Amazônia”.

Em 2008, eu estava fazendo hard news e experiências com infografia no Abril.com, e o Rafael Kenski assumiu a função de coordenar a internet do Núcleo Jovem. Uma de suas primeiras missões (além de desenvolver, ao lado de Alberto Cairo, Fabiane Zambon e Douglas Kawazu, um infográfico sobre sondas espaciais que ganhou o Malofiej) era criar um ARG para acompanhar a matéria de capa da Superinteressante sobre polícia forense, que navegava na onda da séria CSI. O problema é que os ARGs eram jogados por alguns poucos heavy users e a Super é uma revista que tem, em média, 2,3 milhões de leitores mensais. O jogo precisava atingir mais pessoas e ser mais simples. Decidiu-se, então, produzir o jogo CSI que seria todo resolvido num game online. Na época, Kenski achou que com aquela mistura de apuração criteriosa e mecânica de game de detetive, sua equipe estava criando um novo gênero: os “jogos jornalísticos”. CSI foi um grande sucesso de audiência e chamou a atenção, também, de alguns pesquisadores que começavam a estudar um formato de jornalismo recente, que estava sendo desenvolvido no exterior…


Mapa de Lost: fusão de infografia e jogo idealizada por Fabiane Zambon

“Newsgame? Então é isso que a gente faz?” Exagerando um pouco, essa foi a reação da nossa equipe no começo de 2009 quando, após lançarmos o Jogo da Máfia, lemos uma resenha do jornalista e pesquisador André Deak, dizendo que a Super era a marca que melhor produzia os “tais newsgames”. Ok, não iríamos ganhar os louros de criar uma nova vertente do jornalismo, mas estávamos antenados com nosso tempo e o que de mais moderno se produzia nas marcas que admirávamos. Tanto que, alguns meses depois, a revista americana Wired lançou “Cutthroat Capitalism” um jogo sobre os piratas somali com mecânica e layout muito parecidos com nosso Jogo da Máfia. Ambos tratavam do crime organizado internacional, ambos colocavam o jogador no lugar desses criminosos, ambos mostravam como o crime se tornava uma complexa ação de economia e ambos se apoderavam da linguagem da infografia para explicar os dados e informações para o jogador. E a gente tinha feito tudo isso antes, sem nenhum benchmark. Já era possível acreditar que realmente os Secos & Molhados tinham criado a maquiagem do Kiss.

Com essa experiência preliminar e sempre seguindo uma regrinha básica que o Kenski havia inventado, (“pra ser um newsgame o projeto tem que responder duas perguntas: Ele diverte? Ele informa? Se alguma das respostas for não, ou ele está muito news ou muito game.”) passamos a produzir jogos jornalísticos com freqüência. O Rafael saiu do Núcleo e eu assumi a coordenação. Fizemos jogos mais simples (Mortos de Lost, Jogo da Intuição), jogos educativos (Guia do Estudante das Galáxias), infográficos fundidos com jogos (Mapa de Lost), jogos para explicar eventos quentes (Corrida Eleitoral) e crossovers de testes com newsgames (BBB: Paredão da Personalidade).

Existe uma infinidade de possibilidades em aberto ainda: social news games, jogos longos para serem baixados/comprados, grandes reportagens multimídia em que o jogo seja apenas um dos itens que compõem o todo… Os caminhos para os jornalistas interessados em games e multimídia são diversos e fascinantes. Para os jovens que se aventuram nessa estrada, o conselho é escolher a direção menos percorrida e seguir em frente para descobrir o que encontraremos no final.

@freddigiacomo é jornalista multimídia, editor da Internet Núcleo Jovem (Superinteressante, Mundo Estranho, Guia do Estudante e Aventuras na História) desde 2009. Fez Curso Abril em 2006, tocou o site da revista Bizz e foi editor de Entretenimento no portal Abril.com.

Email: frrocha@abril.com.br

Veja também:
-Newsgame: Darfur is Dying
-Jogo mostra como era o cotidiano de um pracinha na Segunda Guerra Mundial

Darfur is Dying – Newsgames

Acompanhe toda quarta nossa série sobre jogos alternativos

O newsgame (jornalismo + jogo) “Darfur is Dying” foi lançado em Abril de 2006 pela Take Action Games, patrocinado pela Mtv. Sua criadora foi a universitária Susana Ruiz. O game é uma denúncia à situação de Darfur no Sudão, onde milícias têm praticado massacres e estupros em massa. O jogador encara duas fases de jogo: uma em que precisa pegar água num poço, esquivando das milícias e outra em que tem que administrar um campo de refugiados por 7 dias. A todo o momento o jogador tem um botão chamado “take a action” que o leva para uma séride de atitudes reais que ele pode tomar para protestar contra a situação do país africano.

O jogo também faz parte de uma onda de serious ou social games, que são jogos que pretendem conscientizar as pessoas de uma forma divertida.

Jogue Darfur is Dying!
-Encare um soldado brasileiro na Segunda Guerra Mundial

Medo e Delírio em Las Vegas – uma jornada selvagem ao coração do Sonho Americano

medo-delirio-vegas-thompson

Micro-resenha: *** */*
Essa resenha ia sair assim na revista Mundo Estranho, mas como não tinha espaço acabou sendo super-editada. Deixo aqui a idéia original

Hunter S. Thompson
Editora Conrad

Se a ME fosse seguir as regras na sua seção de livros ela não deveria destacar “Medo e Delírio em Las Vegas” na edição de novembro, já que o livro foi lançado em agosto. Mas quem se importa? Estamos falando de Hunter S. Thompson o careca doidão que inventou o jornalismo gonzo e nunca respeitava as regras. Deram-lhe a missão de cobrir uma corrida de motos em Las Vegas e ele fracassou. Uma nova matéria sobre a convenção da polícia sobre as drogas? Fracassou novamente, gastando todo dinheiro em drogas, álcool e cassinos. Diante dessa situação qualquer um de nós estaria desesperado com o fim de sua carreira, mas Hunter dá uma banana para o jornalismo convencional e escreve um clássico onde ele é o personagem principal, transformando o fracasso em estilo. É o triunfo do perdedor!

 

 

O jornalista Hunter S. Thompson autor de "Medo e Delírio em Las Vegas"

O jornalista Hunter S. Thompson autor de “Medo e Delírio em Las Vegas”


Assista ao trailer do filme “Medo e Delírio em Las Vegas”, inspirado no livro de Thompson e estrelado por Johnny Depp:

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