“Free Jazz com palavras” – Jademir Rocha & Fred Di Giacomo

Sim, quinta-feira é a ditadura da arte. Quem não gostar será fuzilado por um pelotão de aquarelas!

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Jademir Rocha ganha a vida cuidando de dentes e obturações, mas gosta mesmo – há anos – de pintar e tocar seu sax. Entre desenhos de jazz com grafite, aquarelas e pequenos artesanatos, ele vive em São Paulo em busca de novos discos para sua coleção.

 Inspirado pela série de desenhos de jazz de Jademir, Fred Di Giacomo pediu alguns para ilustrar seu livro ainda imaginário chamado “Bebop Beat”, composto de poemas feitos no calor do momento, seguindo seu fluxo de consciência ao som de Miles Davis e John Coltrane. O primeiro resultado da parceria está aí:

Free Jazz com palavras
Segura só esse solo, sussurrou Ulysses
E se pôs a tocar uma odisséia sonora
Minha mãezinha do céu, Homero é um maestro com as palavras!
Elas voam na estratosfera azul do Harlem, enquanto Têlemaco repete o riff
E Penélope costura notas num bordado de arpejos e beijos
O Cíclope pede um trago a detona o contrabaixo
Eu escuto João Donato, e Posídon é a pedra no meu sapato
Gosto das palavras assim, free jazz e meu fluxo de consciência

O resto é pop.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.
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Ron Carter homenageia Miles Davis no Sesc, ouça músicas do baixista


Ron Carter – baixista fodão que tocou com o gênio do jazz Miles Davis – toca no Sesc Pinheiros dias 21, 22 e 23 de outubro. As informações básicas vão abaixo. Também separei dois vídeos do cara mandando ver. Um, nos anos 60, com Davis e companhia e outro de 1994 fazendo hip hop ao lado do francês Mc Solaar no documentário Red Hot +. (Projeto musical bacana que rolava nos anos 90 e procurava alertar o mundo sobre os riscos do HIV).

 

 

O quê?
Ron Carter
SESC Pinheiros
Dia(s) 21/10, 22/10, 23/10
Sexta e sábado, às 21h; Domingo, às 18h.

Com Miles Davis

Fazendo hip hop

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6 discos para começar a ouvir jazz

Essa lista não pretende ser um top 6 melhores discos de jazz.

Eu não sou “entendido” em jazz.

Fui um adolescente punk e ,em geral, gosto de música redonda, feliz e cantarolável. Na verdade, quando era moleque eu odiava jazz. Era o som que meu pai colocava de manhã quando acordávamos para ir à escola. Eram os discos que ele deixava sempre rodando no carro. Não tinham distorção, refrões e muitas vezes nem vocal.

Mas quando vim pra São Paulo, o amigo Gabriel Gianordoli me apresentou alguns clássicos do jazz que me fizeram gostar da coisa. “Love Supreme”, “Kind of Blue”, “Time Out” e “She was to good to me” entram nessa conta. “Porgy and Bess” é um disco cantarolável e reúne dois gigantes que quem quer começar a se aventurar no estilo deve conhecer. Bom, era pra ser um top 5, mas resolvi incluir o primeiro solo do Jaco aqui. Deste eu gostei quando ainda era “roqueiro”. O cara é pro baixo o que o Hendrix é pra guitarra, então pode agradar quem tem resistência a pianos e raízes blues.

Espero que ajude quem quer conhecer este estilo considerado “chato” e “difícil”. Você também pode usar os nomes de discos para parecer cool numa conversa. You choose.

“A Love Supreme” – John Coltrane(1965)


A Love Supreme” conseguiu ser o único disco de jazz a se tornar meu álbum favorito por um certo tempo. A viagem espiritual do saxofonista Coltrane com seu quarteto genial se resume a 4 faixas: “Acknowledgement“(com uma linha de baixo hipnótica e o coro repetindo “a love supreme” no final), “Resolution”, “Pursuance” e “Psalm”, essa última uma versão musicada de uma oração registrada por Coltrane no encarte do álbum. Acho que é o som mais espiritual que fizeram, desde a invenção do mantra “om”.

Kind Of Blue” – Miles Davis(1959)


Miles Davis é o maior adversário de Louis Amstrong na briga pelo trono de rei do jazz. O trompetista passeou por diversos estilos, lançou meia dúzia de discos essenciais e se tornou unanimidade com “Kind of Blue”, álbum que tem até um livro inteiro dedicado só pra ele. Disco de platina quádrupla, sempre liderando listas de melhores do jazz, a bolacha ficou em 12º lugar na lista pop de “500 melhores álbuns da história” da revista Rolling Stone . A influência da bolachinha modal escapa dos terrenos do jazz e se espalha por rock e música clássica.

“She Was To Good To Me” – Chet Baker(1974)

Um trompete tocando a nota certa a cada segundo, compondo melodias assobiáveis mesmo nos improvisos. Algumas canções orquestradas, algumas cantadas numa voz bossanovista. Um dos caras mais cool do jazz no comando do som. Ouça só o começo com “Autumn Leaves” e “She Was to Good to Me” e tente não se apaixonar.

 

Time OutThe Dave Brubeck Quartet(1959)

Um dos álbums de jazz mais vendidos da história, “Times Out” quebra o ritmo do jazz brincando com ritmos turcos, valsas e swing. Bruebeck era da turma do jazz branco da costa oeste – assim como Chet Baker – e sua composições eram mais aceitas que o bebop ácido da costa leste. “Take Five”(que era pra ser só um solo de bateria de Joe Morello) entrou nas paradas da Billboard e é citado como influência até de bandas de rock como “Os Mutantes”.


“Porgy and Bess”
– Louis Amstrong e Ella Fitzgerald(1957)

“Porgy and Bess” é a versão jazz mais famosa da ópera de Geroge Gershwin e reúne dois dos maiores nomes do estilo: o carismático e genial Louis Amstrong e a diva Ella Fitzgerald. É um bom começo para quem não tem saco para som instrumental e ainda incluí o clássico “Summertime”.

Mesmo que não consiga a unanimidade de outros figurões dessa listinha, o primeiro disco solo de Jaco Pastorius é bem popular entre os fãs de jazz e seu som costuma agradar quem está mais acostumado com rock ‘n’ roll. Contando com Herbie Hancock nos teclados e Wayne Shorter no sax soprano, as 9 faixas incluem sons mais funks, uma faixa com vocais e a genialidade que levaria Jaco ao posto de maior baixista da história.

-Compre o primeiro disco de Jaco Pastorious

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Ulysses fugiu da Grécia atrás das garotas negras de Coltrane

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Espeto a vitrola que gemendo espirra música carola
Injeta em meu cérebro o jazz espiritual de Coltrane
Já achei calmo, bonito e triste – incrível,
Como um punhado de notas matémáticas pode ter
Múltiplos significados estéticos
As garotas negras vão dançando com ritmo, no swing do sax – tem peitos empinados as garotas
Lou Reed também gosta de garotas de cor porque elas cantam tchu ru ru
Um whiskey por favor, e mais um solo de Coltrane no céu
Leio Allen Ginsberg, um poemo louco e alado como um deus
Leio Chester Himes um romance de dourados mistérios como a madrugadora
Aurora, aquela das belas tranças
Transei Odisséias, mas não tracei Ulysses
Joyce é um chato careca quatro olhos, escrevendo suas linhas tortas
Gosto de torta na cara, como nos “Três Patetas”, mas também gosto da bengala bêbada do bepop de Betty Boop
Betty Page tem peitos, quem tem bengala é Charles Chaplin
Mas hoje não estou mais cego, posso enxergar a vida tão real quando um filme
Definição em tela plana, a vida me parece bem mais simples que uma equação.
Me parece um solinho punk daqueles bem alegres, que você assobia feito um doido na rua.
Os pássaros cantam, e as bichas e as mulheres aladas, e meu peido é melodioso quando como feijão com Chet Baker
Ontem devorei um filme do Polanski, acho que era sobre sexo.

REPULSA ao sexo

Eu também já senti peso católico na consciência Cristã de minhas costas curvas
Sabe, sexo seduz sempre sentindo o ser. Serei sereno e sincero
Num orgasmo cósmico criarei o universo que morrerá comigo
Meu mundo é um milhão de idéias que não consigo ecrever, de bytes, de cores, de sons e cheiros
Os filmes que eu vi, as músicas que eu ouvi, as dores que eu senti, clichês que escrevi.
As lágrimas que você quis que eu vertesse ao vivo e a cores, seu cheiro forte depois do sexo.
Tudo isso vai acabar comigo numa hecatombe onírica, no meu aniversário de 100 anos.
E ai ficarão para a história os beijos, os peidos, os livros de Bukowski, a Sessão da Tarde
As cervejas e brigadeiros, o gelo dos EUA e o calor do Mato Grosso.
Meu deus que gostoso é viver assim, com a vitrola rodando, o fumo queimando e você me amando – Fim.

“Sentir é mais importante que pensar”, decreta o Ciclope – eu calo – com o cérebro no falo

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Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

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-Resenha da “Odisséia”, de Homero


-Poemas beat de Lawrence Ferlinghetti

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