“Zabriskie Point” (1970) de Michelangelo Antonioni retrata os sonhos dos jovens hippies em belas imagens.

publicado originalmente em 17/11/09

Cartaz do filme "Zabriskie Point"

Cartaz do filme “Zabriskie Point”

A trilha sonora instigante pontua os rostos que vão sendo exibidos em closes. Retratos de uma juventude que podiam ter sido tirados em uma convenção estudantil em Porto Alegre, na França ou na Tchecoslováquia. Sim, eram os anos 60. O mundo era um imenso coquetel molotov pronto para explodir. No cinema acontecia uma revolução por minuto (Hey, nem pensem na banda de Paulo Ricardo!). Dezenas de diretores inovavam no texto, no corte, na fotografia. Seus filmes eram as imagens vivas de um mundo que se transformava velozmente.  O italiano Antonioni tinha contrato assinado para rodar 3 películas em inglês. A primeira foi “Blow Up”, vencedora da Palma de Ouro em Cannes. A terceira, “Profissão Repórter”, com Jack Nicholson. A segunda, “Zabriskie Point”(1970), um retrato da contracultura americana, ficou um pouco desvalorizada entre os dois.


Trailer do filme “Zabriskie Point”

As imagens que se revelam lentamente na câmera de Antonioni parecem quadros que se movimentam. O céu azul, as areias da Califórnia, o sangue no rosto dos estudantes. Cada take de suas lentes é uma obra de arte que poderia ser estudada separadamente. Juntos, fazem de “Zabriskie” uma experiência visual saborosa.

Mark (vivido por Mark Frechette) é o protagonista da história ao lado de Daria(Daria Halprin). Uma espécie de James Dean hippie, ele está de saco cheio do blá blá blá das reuniões estudantis. Quer pegar em armas. Quer ação. Está pronto pra “morrer antes dos 30” como gritava o The Who em “My Generation”. Durante a greve de alunos, ele acaba sendo o principal suspeito de ter matado um policial. Já a jovem Daria é secretária. Ela tem que atravessar o deserto até Phoenix para encontrar seu chefe, um empresário do ramo imobiliário que está construindo um mega condomínio na Califórnia. No meio do caminho, os dois jovens se encontram.

A cena de amor na areia é uma das coisas hippies mais legais já feitas até hoje. Parece ter sido extraída de uma versão mais selvagem do musical Hair, com as curvas da bela Daria salpicadas de pó, o casal se enlaçando nas dunas de Zabrieskie Point ao som da trilha psicodélica e o ato da criação multiplicando-se na pele de milhares de jovens que surgem como uma alucinação. A trilha, inclusive, é outro banquete sinestésico reunindo nomes importantes do flower power como Rolling Stones, Pink Floyd e Greateful Dead.

zabriskie_point

Vale destacar que muito antes de “Cidade de Deus” sonhar em existir, Zabriskie foi quase todo rodado com atores amadores, alguns sem qualquer outra experiência na frente das câmeras. Mark na vida real era um radical que morava em uma comunidade hippie. Depois de atuar em mais dois filmes italianos (“Many Wars Ago” e “La Grande Scrofa Nera”), acabou sendo preso por assalto a banco e morreu na cadeia num estranho acidente com um halteres. Harrison Ford também dá as caras em um minúsculo papel, fazendo parte da manifestação de alunos no posto policial.

O momento em que Daria imagina a explosão do condomínio e de todo o american way of life é um grande orgasmo revolucionário. O sonho de todo jovem daquela geração era que o frango, as casonas e os televisores fossem implodidos junto com os velhos, para que a juventude pudesse fazer amor livre no deserto, voar em aviões multicoloridos e começar a História (com h maiúsculo) toda de novo.

Foram-se os sonhos, mas ficaram os belos filmes.

Flashbacks: Surfando no Caos, Timothy Leary



Meu primeiro flashback sobre Timothy Leary vem de uma capa de fanzine que meu pai trouxe para casa. O sulfite xerocado falava sobre a morte do psicólogo e sua importância para a contracultura e divulgação do LSD nos anos 60.

Exatos 10 anos depois, ganhei de amigo-secreto a autobiografia do “guru do LSD”. O livro, que tem uma capa roxa péssima, começa mesclando lembranças de sua infância influenciada pelos livros de Mark Twain, intercaladas com a sua descoberta das drogas psicodélicas aos 40 anos, logo depois do suicídio de sua esposa. Leary começou suas pesquisas quando era um respeitado professor de psicologia em Harvard, pai de dois filhos, e logo passou a receber visitas de escritores como Aldous Huxley, Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Ele via na Psilocibina(versão sintetizada dos cogumelos psicodélicos) e depois no LSD(apresentado a ele por Michael Hollingshead) uma forma de tratar doenças psicológicas e melhorar a capacidade do cérebro. “Tim” enxergava em suas pesquisas uma ligação que remontava a séculos de experiências com drogas psicodélicas, uma linha de estudiosos místicos que ia dos antigos astecas, aos alquimistas, passando pelos poetas ingleses como Lord Byron.

Suas pesquisas passaram a atrair a fúria do governo americano e de suas forças policiais(FBI e CIA). Timothy, então, tentou levar seu projeto para o México, mas acabou sendo expulso, e fundou uma comunidade num rancho nos Estados Unidos(Milbrook) onde foi visitado por Ken Kesey(autor de “Um Estranho no Ninho” e lider de outra comunidade psicodélica os “Merry Pranksters”. Esse encontro é retratado no filme “Across the Universe”, com Bono Vox num papel inspirado em Ken Kesey). Tim viajou para o Oriente com sua bela esposa loira, conheceu mestres iogues e passou um tempo na Índia. Na volta, Milbrook sofreu uma batida policial e Leary passou a ser perseguido até que foi preso na fronteira com o México com uma quantidade ínfima de maconha. Enfrentou diversos julgamentos e quando ia ser candidato a governador da Califórnia(Tendo como jingle a música “Come Together”, antes dela ser um hit dos Beatles) acabou preso. Fugiu para França e depois Argélia onde virou refugiado com a mulher, Rosemary e fez contatos com grupos oposicionistas do mundo todo, inclusive brasileiros. De lá para Suíça, onde foi preso e deportado. Nos Estados Unidos passou anos em diversas prisões.

No livro, percebe-se que Leary está muito além da visão que se tem do “papa do LSD” ou do “velho hippie doidão”. Timothy foi um psicólogo, filósofo e cientista, grande entusiasta da computação, física quântica e drogas como forma de desenvolvimento do cérebro. Suas pesquisas realmente incomodaram o governo americano e envolveram tramas na Casa Branca que chegavam até a John Kennedy. Quando faleceu, Tim congelou sua cabeça num tanque criogênico, com esperança de que isso pudesse ajudar em pesquisas futuras. Tudo bem vai, um pouco louco ele era… 🙂

Livro: Flahsbacks – Surfando no Caos
Autor:Timothy Leary
Editora: Beca Produções Culturais
Ano: 1999

Como operar seu cérebro? Tio Leary explica, e com legendas em português:


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