Das possibilidades abortadas

Eu poderia ser mais generoso,
Mais gentil
Mais descritivo
Mais reto

Mais correto

Poderia ser mais educado
Mais refinado
Mamãe ia gostar um bocado

Ser mais fraco
Ter mais asco
Mas decidi ser só

                        um chute no saco

 

Chute_nas_Bolas_by_MaKaM

-Mais poesias

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele insiste em escrever poesia há anos. Esse pequeno atentado aos testículos alheios faz parte do livro inédito “Poemas para quem não gosta de poesia”.

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A terapeuta pergunta quem sou eu

freud-terapeuta

Um babaca olhando para um espelho quebrado.
Uma farsa procurando no âmago aquele moleque
Aquele fiapo de gente, sem dinheiro, sem chances
Mas com sonhos e dignidade.
Aquele pivete ainda está aqui, em algum lugar deste
Saco de ossos e pelos, nesses poros encharcados de desejo

Acordei decidido a ser eu mesmo. Mesmo que otário
Mesmo que fadado ao fracasso.
Parece uma decisão boba, não?
Mas ser você mesmo, nessa vida que se faz teatro
É um bocado arriscado.
A polícia psíquica quer te apagar
Te transformar no ser humano número 43.463.208-9
Brasileiro, branco, trabalhando todo dia para comprar sua felicidade na farmácia de satisfação e devaneios.
Mas que porra! Você não pode nem mesmo escrever o que pensa!
Pra ser feliz inventaram que você precisa de muita coisa.
Um carro novo, uma televisão de 69 polegadas, uma loira siliconada
Um bom emprego, viagens pro litoral, a pior cerveja da Bélgica importada
Dvds, cds, muitos livros, uma parede pintada de azul petróleo,
uma promoção a cada ano para não se sentir parado – fracassado.
Os melhores restaurantes com os piores preços
Um bom bairro para ser seu endereço

“Isso é papo de esquerdinha, seu merdinha”
É?
To pouco me fodendo pro Stálin, pro Fidel e até pro Karl – Marx.
Eu estou falando de felicidade, não de teoria.
Eu fui simples e satisfeito um dia.
Pode ser a simples sensação do trabalho feito.
Do dever cumprido.
O ponto final num poema. O fim do dia passado em uma coisa em que se acredita.
uma tarde de conversa com seus melhores amigos.
Deixo a parte que me cabe nesse latifúndio para vocês.
Me paguem em poesia.
Tudo que Henry queria era “um punhado de sonhos, um punhado de vulvas e um punhado de livros”.
Tenho todos os volumes que preciso estocados em bibliotecas desertas e em bytes na rede.
Não preciso mais de um punhado de vulvas, mas preciso um punhado da minha vulva dela
E os sonhos… Ah, eles continuam explodindo nas minhas noites insones.
Fazendo uma fila gigantesca na minha porta que dobra as esquinas das sinas
Aguardando ansiosos, só pelo prazer de por um minuto, só pela chance, só

Para serem vividos.

Poesia Punk – Fred Di Giacomo

– Te gustas el punk rock?
poesia-punk

Arrotada na sarjeta pelo velho punk que parece um hippie
A poesia punk é popular e undeground, feita com pressa como uma trepada mal feita
Escrita com os culhões como um livro do Bukowski
Com o improviso do cinema do terceiro mundo
Afiada como as unhas compridas do Zé do Caixão
Afinada como a guitarra distorcida dos Ratos de Porão
A poesia punk, coitada, é xerocada e vendida nos semáforos por moedas
É recitada em imundos saraus regados a vinho e marijuana
É implorada por putas tristes e carentes de carinho e lirismo
A poesia punk é preto e branca como as páginas de um zine xerocado
É barata como uma dose ácida de rabo de galo
Sangrenta como um filme de terror barato
E recheada de furos como a sola do meu sapato

-Contos por mim cuspidos com carinho
-Afro-Punk: documentário retrata a participação dos negros no punk rock
-Entrevista com os Garotos Podres

Fred Di Giacomo é jornalista e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”. Ele toca, também, na Banda de Bolso.

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