Assista “Tales of Rat Fink” – Documentário sobre “Big Daddy” Ed Roth

OTkey_art_tales_of_the_rat_fink
Pra você quem curte carros, cartuns ou contracultura (e entende inglês) o filme abaixo – “Tales of Rat Fink” – é um prato cheio. Em uma hora e catorze minutos mezzobizarros(grande parte das entrevistas foi feita com “carros falantes”), mezzo engraçados, você fica conhecendo a cutltura dos hot rods & kustom cars(carros exoticamente customizados) , algo que transformou nosso tradicionais “objetos de consumo poluentes” em arte – aliás, segundo o filme, a única arte genuinamente americana. Além de liquidar a massificação dos carangos, transformando-os em esculturas únicas, Ed Roth também foi responsável pela criação do anti-Mickey Mouse, Rat Fink, e de outros bichos escrotos que ganharam páginas de revistas, álbuns de figurinha e também camisetas e, claro, carros. Aliás, Ed foi um dos criadores das camisetas com mensagens e ilustrações que todo mundo usa. É que até Ed botar seus monstros nelas, essas peças serviam mais como roupa de baixo.

Movido pela trilha sonora surf music dos The Sadies, o documentário -narrado por John Goodman – aposta numa linguagem pouco tradicional, cheia de animações e que foge dos clichês do gênero.

– Leia mais sobre contracultura

Assista à primeira parte do documentário

Continua aqui ó

publicado originalmente em 2 DE JULHO DE 2010

“Zabriskie Point” (1970) de Michelangelo Antonioni retrata os sonhos dos jovens hippies em belas imagens.

publicado originalmente em 17/11/09

Cartaz do filme "Zabriskie Point"

Cartaz do filme “Zabriskie Point”

A trilha sonora instigante pontua os rostos que vão sendo exibidos em closes. Retratos de uma juventude que podiam ter sido tirados em uma convenção estudantil em Porto Alegre, na França ou na Tchecoslováquia. Sim, eram os anos 60. O mundo era um imenso coquetel molotov pronto para explodir. No cinema acontecia uma revolução por minuto (Hey, nem pensem na banda de Paulo Ricardo!). Dezenas de diretores inovavam no texto, no corte, na fotografia. Seus filmes eram as imagens vivas de um mundo que se transformava velozmente.  O italiano Antonioni tinha contrato assinado para rodar 3 películas em inglês. A primeira foi “Blow Up”, vencedora da Palma de Ouro em Cannes. A terceira, “Profissão Repórter”, com Jack Nicholson. A segunda, “Zabriskie Point”(1970), um retrato da contracultura americana, ficou um pouco desvalorizada entre os dois.


Trailer do filme “Zabriskie Point”

As imagens que se revelam lentamente na câmera de Antonioni parecem quadros que se movimentam. O céu azul, as areias da Califórnia, o sangue no rosto dos estudantes. Cada take de suas lentes é uma obra de arte que poderia ser estudada separadamente. Juntos, fazem de “Zabriskie” uma experiência visual saborosa.

Mark (vivido por Mark Frechette) é o protagonista da história ao lado de Daria(Daria Halprin). Uma espécie de James Dean hippie, ele está de saco cheio do blá blá blá das reuniões estudantis. Quer pegar em armas. Quer ação. Está pronto pra “morrer antes dos 30” como gritava o The Who em “My Generation”. Durante a greve de alunos, ele acaba sendo o principal suspeito de ter matado um policial. Já a jovem Daria é secretária. Ela tem que atravessar o deserto até Phoenix para encontrar seu chefe, um empresário do ramo imobiliário que está construindo um mega condomínio na Califórnia. No meio do caminho, os dois jovens se encontram.

A cena de amor na areia é uma das coisas hippies mais legais já feitas até hoje. Parece ter sido extraída de uma versão mais selvagem do musical Hair, com as curvas da bela Daria salpicadas de pó, o casal se enlaçando nas dunas de Zabrieskie Point ao som da trilha psicodélica e o ato da criação multiplicando-se na pele de milhares de jovens que surgem como uma alucinação. A trilha, inclusive, é outro banquete sinestésico reunindo nomes importantes do flower power como Rolling Stones, Pink Floyd e Greateful Dead.

zabriskie_point

Vale destacar que muito antes de “Cidade de Deus” sonhar em existir, Zabriskie foi quase todo rodado com atores amadores, alguns sem qualquer outra experiência na frente das câmeras. Mark na vida real era um radical que morava em uma comunidade hippie. Depois de atuar em mais dois filmes italianos (“Many Wars Ago” e “La Grande Scrofa Nera”), acabou sendo preso por assalto a banco e morreu na cadeia num estranho acidente com um halteres. Harrison Ford também dá as caras em um minúsculo papel, fazendo parte da manifestação de alunos no posto policial.

O momento em que Daria imagina a explosão do condomínio e de todo o american way of life é um grande orgasmo revolucionário. O sonho de todo jovem daquela geração era que o frango, as casonas e os televisores fossem implodidos junto com os velhos, para que a juventude pudesse fazer amor livre no deserto, voar em aviões multicoloridos e começar a História (com h maiúsculo) toda de novo.

Foram-se os sonhos, mas ficaram os belos filmes.

Sinestesia sonora: “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” – Beatles, 1967.

Texto originalmente publicado no jornal laboratório da Unesp-Bauru, Contexto, em agosto/2004

A famosa capa do disco reunia diversas personalidades famosas


Sinestesia Sonora

Comprei um ácido com desenho de uma banda colorida, Karl Marx, Marilyn Monroe, Huxley e um monte de gente famosa. Espetei-o com a agulha e tudo se pôs a girar. Ouvi um ruído. Ecos rascantes e energia tomaram o meu corpo. Cheiro forte de pimenta e uma canção de amor cadenciada. Vermelho. Olhos de diamantes observam um céu de marmelada. A trip desacelera e os sentidos se embaralharam, está tudo melhor, azul e lento. Meu corpo sonolento dança seguindo o ritmo de uma orquestra psicodélica. Sinto-me triste pela garota que se vai, mas o clima muda. Pareço estar num show fantástico, com música de circo e sons mágicos vindos de uma caixinha de música.

A melodia pára. Quando a agulha espeta novamente, estamos na Índia e uma cítara adocicada me faz flutuar. Uma melodia antiga, pontuada por sinos e cheirando a cabarés esfumaçados, leva a pergunta: como vou estar com 64 anos? A energia volta verde. Gritos na minha cabeça e um flashback começa. De volta para os uniformes coloridos e cheiro de pimenta. O vermelho agora é rosa, me acalmo, alguns ruídos surgem espontâneos. Notícias no jornal. O ruído aumenta, tudo parece que vai explodir. Mas a viagem acaba. Apenas mais um dia na vida.

Leia também:
-Conheça a autobiografia do guru do LSD Timothy Leary
-Confira entrevista exclusiva com Arnaldo Baptista dos Mutantes 

Os Beatles em ensaio feito para o encarte do disco

Aline Komisky Crumb – Musas

-Fotos de mulheres bonitas e inteligentes

Aline e o marido Crumb

Aline Kominsky-Crumb nasceu em 1948 nos Estados Unidos filha de uma família judia envolvida com o crime organizada. Na juventude caiu de cabeça na contracultura, foi tiete de bandas underground, usou drogas e encheu a cara. Até conhecer Spain Rodriguez (da ZAP Comix) e Kim Deitch e decidir usar seus talentos artísticos para produzir quadrinhos. Participou do projeto coletivo Wimmen’s Comix, criou a revista Twisted Sisters com Diane Noomin, editou a Weirdo e publicou uma série de quadrinhos autobiográficos criados em parceria com o marido Robert Crumb chamada Dirty Loundry. No Brasil, a revista Piauí tem publicado as HQs de Aline com Crumb e a Conrad lançou a coletânea “Essa Bunch é um amor“.

Aline novinha tocando violão com as pernocas à mostra

Aline Kominsky casou com Crumb (seu segundo marido e gênio dos quadrinhos, diga-se de passagem) em 1978, época em que já havia se mudado para São Francisco e começado a produzir HQs underground. Quando ela e Crumb se auto-exilaram na França, Alina passou a se dedicar mais à pintura.

-Confira outras musas com cérebro
-Conheça a Zap Comix, clássico dos quadrinhos underground

-Confira resenha sobre o documentário “Crumb” no qual Aline dá diversos depoimentos

Aline no traço do genial maridão Robert Crumb

“Singin’ Alone”: Disco independente dá graça a tristeza profunda de Arnaldo Baptista

“Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”. Arnaldo Baptista.

Arnaldo Baptista estava numa pior quando gravou o disco “Sigin’ Alone” no final de 1981 e inaugurou as gravações indies no Brasil. Fazia um bom tempo desde que ele tinha lançando o genial “Loki?”, em 1974, mais dois discos com a Patrulha do Espaço no final dos anos 70.  A volta a ativa seria o show “Shining Alone”, organizado com a ajuda de Luis Calanca, da Baratos Afins, que criaria sua gravadora independente só pra lançar o trabalho de Baptista. Os Mutantes e Rita Lee já eram passado e Arnaldo tinha entrado fundo em drogas e depressão. O show deu origem ao disco “Singin’ Alone”, no qual Arnaldo gravou todos os instrumentos. (Como Paul McCartney fez em seus dois primeiros solos). Antes de lançar o disco, nosso anti-herói passou pela famosa (e triste) internação em um hospital psiquiátrico de onde saiu caindo de uma janela do terceiro andar e entrando em coma por três meses.

A obra foi lançada em vinil em 1982 e teve um reedição em cd  nos anos 90 – atualmente fora de catálogo. O disco é bem menos pop que o trabalho com os Mutantes, e segue o tom melancólico de outros solos do artista, em belas músicas como “O Sol” e “I Fell in Love One Day”. Arnaldo faz uso de todos seus trocadilhos geniais para dar graça a dor pulsante. Quer fotografia mais precisa de um gênio sem dinheiro que a frase que abre essa resenha: “Não sei se tenho o rei na barriga, mas um frango não faz mal”?

-Entrevista exclusiva com Arnaldo Baptista sobre “Lóki?” e a tristeza
-Leia resenha do disco publicado no “Mofo”.

Faixa a faixa:
Lado A
01. I Feel In Love One Day
02. O Sol
03. Bomba H Sobre São Paulo
04. Hoje de Manhã Eu Acordei
05. Jesus, Come Back To Earth
06. The Cowboy

Lado B
01. Sitting On The Road Side
02. Ciborg
03. Corta Jaca
04. Coming Through The Waves of Silence
05. Young Blood
06. Train

ZAP Comix – Robert Crumb, Gilbert Shelton e outros

Ele (Crumb falou com todo mundo , e teve culhões para fazer esse gibis. Reinventou o gibi. Ele tomou isso como outros de sua geração tomaram a música. Existem poucas pessoas que você pode dizer que literalmente se tornaram o ponto de partida para todo um mundo. Crumb teve a grande visão, a visão ardente”. Bill Griffith, colaborador da Zap Comix!

Capa da edição brasileira da Zap Comix

 

Os beats já eram homens maduros quando o Flower Power explodiu no final dos loucos anos 60. Os hippies ainda eram muito ingênuos pra escrever seus livros na mesma época. Enquanto Jimi Hendrix tacava fogo na guitarra, Timothy Leary pregava a expansão da mente através do LSD e Zé Celso revolucionava o teatro no Oficina, quem escrevia a literatura daquela geração desbundada? Os livros eram o registro em papel daqueles ecos lisérgicos?

Não. A literatura não era apenas a poesia dos velhos (e bons) beats. Ela era composta pelas resenhas musicais de caras como Lester Bangs e pelos rabiscos malucos de quadrinistas underground como o gênio Robert Crumb. Crumb era só um desenhista de cartões postais, vindo de uma família desajustada e com gosto por músicas e roupas antigas, quando começou a fazer seus primeiros quadrinhos. Não é o tipo de gente que você imagina que seria chamado para desenhar a clássica capa de “Cheap Thrills” da Janis e que depois se negaria a desenhar uma para os Stones. Mas lá vai nosso nerd, vindo de Cleveland para desenhar sozinho o número zero da Zap Comix. As ruas da Califórnias estavam prontas para aquele petardo? Bom, acontece que o cara que deveria imprimir a ZAP sumiu do mapa com os originais e lá foi Crumb desenhar a edição número 1 inteira, sozinho novamente, e revolucionar a indústria dos quadrinhos. Desde a Mad original não se via tamanha afronta. Sexo, drogas, nonsense, gírias. Tudo fazendo rir. Críticas sociais, morais, e culturais que vinham em formato de humor sacana e barato. Edições tiradas em impressoras off set baratas que estavam revolucionando a indústria. E distribuídas inicialmente no carrinho de bebê da mulher de Crumb.

Começo da polêmica e incestuosa HQ "Joe Blow"

E outros artistas foram se unindo a Crumb. Cada um representando uma subcultura. Spain Rodriguez (operário membro de uma gnague latina), Rick Griffin (surfista e ilustrador), Robertt Williams (marginalzinho e aspirante a artista), Victor Moscoso (espanhol que já tinha experiência na indústria de HQs), Gilbert Shelton (dividia o tempo entre uma gangue de motoqueiros e uma revista underground), Siclay Wilson (cursava Belas Artes e servia o exército a contragosto). Aos poucos aquela gangue de surfistas, hippies, latinos e freakies ia ligando suas histórias na tomada e eletrocutando os leitores. A Zap não tinha periodicidade fixa, mas vendia surpreendentemente bem. Dizia-se até que ela iria matar Super-Homem e Cia.

Crumb, o gênio tarado

A coletânea publicada no Brasil pela Conrad reúne 14 números publicados entre 1967 e 1998. É um delicioso aperitivo para quem quer se introduzir no mundo da ZAP. Conta ainda com uma primorosa introdução escrita por Rogério de Campos, o homem por trás da Conrad. E uma experiência inspiradora de produção independente que ajudou a subverter e transformar a indústria que a rodeava.

Zap foi o start. Mas a coisa teria acontecido mesmo sem o Crumb, porque todos os artistas underground estavam caminhando nessa direção – Griffin, Mouse, Kelley, eu no sul da Califórnia, Gilbert Shelton. Havia um grande ódio contra a autoridade e o governo, e os quadrinhos eram uma tremenda forma de expressão”, Robert Williams.

Leia também:
-Chiclete com Banana: Angeli cria um hit underground dos quadrinhos
-Ódio:  Versão HQ do grunge

Pedro Bell, o gênio da arte psicodélica negra e autor de várias capas do Funkadelic, está quebrado

Quinta-feira, novos artistas ou clássicos doidões têm seu espaço em nosso vernissage Punk Brega.
pedro-bell-funkadelic-arte
Pedro Bell está quebrado. O criador das marcantes capas de discos do “Parliament-Funkadelic” vive sem grana e quase cego, e pensa em vender suas obras originais para pagar as dívidas. Mas quem é Pedro Bell?

Pedro Bell é um genial artista e ilustrador afro-americano que teve seu auge entre os anos 70 e 80.

O responsável por levar a psicodelia para os guetos negros, misturando a arte lisérgica hippie com a cultura de rua e criando uma forte identidade visual para o combo funk liderado por George Clinton. Bell também escreveu vários dos textos presentes nos discos do “Parliamente-Funkadelic” e criou o “scartoon” “Larry Lazer” transmitido pela Mtv.

Este é Pedro Bell. E ele está sem um puto no mundo das Mp3.

pedro-bell-funkadelic

“Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas – Uma Investigação sobre valores”, Robert M Pirsig


-Leia outras resenhas de livros
-Compre o livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”

por Fred Di Giacomo
Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” não é só mais um romance hippie/beatinick que fez a cabeça de uma geração nos anos 70. Sim, ele tem motocicletas como o clássico filme “Easy Rider/Sem Destino”, ele trata de uma viagem como o livro “On The Road” e flerta com orientalismo como a contracultura o fez na música dos Beatles ou na adoção de Yoga, Meditação Transcendental e Vegetarianismo para seus princípios básicos. Mas “Zen” é muito mais um livro de filosofia do que um romance doidão. Ok, filosofia pop, mas filosofia. Enquanto cruza os EUA em sua motocicleta, o autor precisa explicar o pensamento de Kant ou dos filósofos gregos como Aristóteles e Sócrates para esclarecer sua própria teoria, a “Metafísica da Qualidade”, lembrando a didática de “O Mundo de Sofia”, passo inicial para muita gente no universo do pensamento.

Antes de virar um best-seller e vender 4 milhões de cópias, “Zen” entrou para o Guinness como o sucesso de vendas mais rejeitado da história. Simplesmente 121 editoras se negaram a publicá-lo. Seu autor, o escritor e filósofo Robert M. Pirsig, nasceu na cidade americana de Minneapolis, Minnesota, em 1928. Pirsig era uma criança superdotada, com um QI de 170. Ele estudou Bioquimíca e jornalismo e se formou em filosofia, mas sempre questionou o método científico e de ensino. Entre 1961-1963 sofreu um colapso mental e passou anos em hospitais psiquiátricos onde recebeu tratamento de eletrochoques. Depois disso, Pirsig dedicou-se a escrever manuais técnicos de computadores, até conseguir publicar seu livro em 1974.

O nome de “Zen” faz referência a “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, obra do filósofo alemão Eugen Herrigel, que introduziu esse pensamento oriental no ocidente. Como o autor avisa logo na nota introdutória, o “livro baseia-se em fatos reais.(…) No entanto, não deve ser associado ao vasto conjunto de informações relativas à prática ortodoxa do Zen-budismo. E a parte das motocicletas também não é lá muito ortodoxa”. Toda a história se passa em dezessete dias, no final dos anos 60. A primeira parte do livro é um relato da viagem de Robert com o filho Chris e um casal de amigos John e Sylvia. John, um baterista, tem um sério problema para lidar com tecnologia. Para ele, viajar de moto é uma fuga da “civilização moderna”. O autor, por outro lado, adora saber como cuidar da motocicleta, como a máquina funciona e faz os reparos, ele mesmo, em sua moto. Em cima de suas observações sobre o ódio de John contra tecnologia é que Pirsig começa a desenvolver suas primeiras divagações filosóficas. A princípio tímidas, essas divagações vão, ao longo do livro, tomando o papel principal, em detrimento dos relatos da viagem. E vão sendo organizadas no que o autor define como chautauquas, “séries de palestras que visavam edificar, divertir, aprimorar o raciocínio e fornecer cultura e informação ao espectador.” É através dessas chautauquas que os capítulos se estruturam cada um com um tema que abrange filosofia, educação, ciência, arte e manutenção de motocicletas. Mas esses pensamentos não são ideias soltas, são parte de uma teoria maior que ficamos sabendo não ser de autoria do autor, mas de um fantasma do passado, Fedro, cuja identidade só vai ser revelada quando já terminamos um terço do livro. Para explicar a postura de John e a sua própria, Pirsig divide o mundo entre “Românticos” e “Clássicos”. Emoção e Razão. Arte e Tecnologia. Unir essas duas visões de mundo e provar que “o Buda pode estar nos circuitos de um computador” será a sua missão.

O resumo – *A partir daqui a resenha contém spoilers.

A viagem pelas estradas dos Estados Unidos prossegue. Depois que sofreu os eletrochoques, o autor apagou muito de sua memória. Andando pelas vias secundárias, mais vazias e próximas da natureza, ele cruza o país e vai se embrenhando em suas recordações. Houve um tempo em que foi professor na Universidade de Montana e o governo conservador do estado decidiu que todos maiores de 18 anos, mesmo que não tivessem ensino médio, poderiam estudar na Universidade. E as reprovações de alunos seriam punidas com multa. Para defender a Universidade “de verdade”, Fedro, que nós descobrimos surpreendentemente ser o autor, antes do surto, cria a teoria da “Igreja da Razão”. Para explicar a teoria ele usa o exemplo de um prédio de igreja rural que tinha se tornado um bar para o horror do padre local. No entanto, aquela igreja não era mais uma igreja, era apenas uma estrutura criada para atender o objetivo de servir a Deus, que não mais funcionava para isso. Assim como, por mais que a comunidade criticasse um sermão do padre por ser chato, ele não deveria se abalar, pois não estava ali para servir a comunidade e sim a Deus. A Universidade também não estava lá apenas para servir a comunidade e sim para servir a razão. E se ela continuava com sua estrutura física e mudava sua função, seu compromisso com a razão, ela já não era mais uma Universidade. Com o tempo, Fedro foi perdendo a fé na razão pura. E para explicar isso, o autor faz um breve resumo das idéias de Kant e Hume. Fedro interessa-se, então, pelas filosofias orientais e vai para Índia estudar.

Sylvia, John e Chris
Na terceira parte do livro, Sylvia e John voltam para casa e a viagem passa a ser só de pai e filho, que vão aproveitando os longos dias para reconstruir o relacionamento, abalado desde o período de loucura paterna, sua internação e posterior divórcio. Chris também tem apresentado alguns problemas psicológicos, o que preocupa seu pai. No entanto, absorto em suas reflexões, o autor não consegue penetrar no escudo criado pelo filho, mantendo uma relação fria com o garoto. “Qualquer realização que vise à autoglorificação fatalmente termina em tragédia”, explica Pirsig, enquanto escala uma montanha com o filho. Não devemos escalar a montanha para provar que somos os maiores, o segredo está na escalada em si. Como a arte da manutenção da motocicleta que pode trazer a paz de espírito. O trabalho manual foi muitas vezes rejeitado pelos românticos como algo desprezível em comparação às grandes artes, mas não é ele também uma forma de arte? “Para melhorar o mundo, devemos começar pelo nosso coração, nossa cabeça e nossas mãos, e depois partir para o exterior. Os outros poderão imaginar maneiras de expandir o destino da humanidade. Eu só quero falar sobre o conserto de motocicletas. Acho que o que tenho a dizer tem valor mais duradouro”, explica Pirsig. Mais à frente ele crava: “O trabalho produz brio”.Em seus flahsbacks, vemos Fredo criar sua teoria da “qualidade” partindo de Kant passando pelo Tao e por Hegel e chegando a Poincaré. É interessante poder acompanhar o caminho do filósofo rumo à formação de sua teoria. Aos poucos, uma questão que começou com as aulas de redação de Fedro vai crescendo e tomando forma: “A Qualidade é o evento que torna possível a inter-relação sujeito objeto”. “A Qualidade é a reação de um organismo ao seu objeto”. A Qualidade é semelhante ao Tao, “a grande força central geradora de tudo”. Seria então a “Qualidade” o elo entre a ciência, as artes e a religião? “A arte é a Divindade revelada nas obras humanas”. “Conforme disse Poincaré precisa haver uma escolha subliminar dos fatos a serem observados”. À medida que o autor vai se embrenhando no raciocínio genial de Fredo, ele também se embrenha em sua loucura e começa a ter pesadelos e falar dormindo. Agora que conhecemos a “Metafísica da Qualidade”, o livro vai chegando ao fim e talvez a sanidade do autor também.No final do capítulo ele introduz o conceito de “Mu”, palavra japonesa que significa nenhum. Nenhuma classe: nem um, nem zero, nem sim, nem não. Significa exatamente “desfaça a pergunta”.

Agora esta viagem pelo mundo da filosofia e pelo interior do autor está em seus últimos quilômetros. Pirsig revê os últimos dias de Fredo, quando esse descobre a origem do pensamento racional do homem em Aristóteles e a ideia de “Qualidade” dos sofistas que foi enterrada por Sócrates e Platão. Para isso ele faz uma análise dos pais da filosofia grega e do próprio homem grego. Desenterra o conceito de aretê do homem grego, tradicionalmente traduzido como virtude, mas que o autor prefere definir como superioridade. Era o que impulsionava o homem grego a praticar atos de heroísmo, não o senso de dever que conhecemos, em relação aos outros, é um senso de dever em relação a si mesmo, termo irmão da palavra sânscrita dharma, que significa “dever para consigo mesmo”. O herói da Odisséia, de Homero, era um grande lutador, um orador decidido, sabe arar a terra e tosquiar um boi. Despreza a eficiência em um aspecto da vida, em detrimento da vida em si mesma. Despreza a especialização em uma coisa só. Fedro rompe então com a Universidade onde estudava para obter seu PHD e que insistia em glorificar o pensamento aristotélico. Depois disso viria a crise e a internação. O autor tem medo de sofrer outra crise e pensa em parar a viagem por ali e mandar o filho de volta para casa. Mas antes disso ele precisa resolver sua relação com o garoto, garantindo assim, sua própria sanidade.
Depois daquela viagem
Robert M Pirsig vive isolado do mundo exterior viajando de barco com sua mulher. Só lançou um segundo livro em 1991, chamado “Lila – uma Investigação Sobre a Moral”, no qual se propõe a definir melhor sua Metafísica da Qualidade. O livro não obteve o mesmo sucesso que “Zen”. Em 1979, Chris, o filho de Pirsig foi esfaqueado até a morte na saída do Centro Zen que freqüentava. É como se no final de “Zen”, quando o autor finalmente se reconcilia com o garoto, ele fosse profético: “Naturalmente os problemas jamais deixarão de existir. A infelicidade e o infortúnio fatalmente ocorrerão em nossas vidas, mas agora sinto algo que antes não sentia, que não se localiza apenas na superfície das coisas, mas as permeia até a medula: nós vencemos. Agora tudo vai melhorar. A gente pode até garantir”.

Veja também:
-Se interessou pela Grécia Antiga? Leia uma resenha sobre a “Odisséia”, de Homero

-Leia resenha sobre “Flashbacks”, livro do papa da contracultura, Timothy Leary

Flashbacks: Surfando no Caos, Timothy Leary



Meu primeiro flashback sobre Timothy Leary vem de uma capa de fanzine que meu pai trouxe para casa. O sulfite xerocado falava sobre a morte do psicólogo e sua importância para a contracultura e divulgação do LSD nos anos 60.

Exatos 10 anos depois, ganhei de amigo-secreto a autobiografia do “guru do LSD”. O livro, que tem uma capa roxa péssima, começa mesclando lembranças de sua infância influenciada pelos livros de Mark Twain, intercaladas com a sua descoberta das drogas psicodélicas aos 40 anos, logo depois do suicídio de sua esposa. Leary começou suas pesquisas quando era um respeitado professor de psicologia em Harvard, pai de dois filhos, e logo passou a receber visitas de escritores como Aldous Huxley, Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Ele via na Psilocibina(versão sintetizada dos cogumelos psicodélicos) e depois no LSD(apresentado a ele por Michael Hollingshead) uma forma de tratar doenças psicológicas e melhorar a capacidade do cérebro. “Tim” enxergava em suas pesquisas uma ligação que remontava a séculos de experiências com drogas psicodélicas, uma linha de estudiosos místicos que ia dos antigos astecas, aos alquimistas, passando pelos poetas ingleses como Lord Byron.

Suas pesquisas passaram a atrair a fúria do governo americano e de suas forças policiais(FBI e CIA). Timothy, então, tentou levar seu projeto para o México, mas acabou sendo expulso, e fundou uma comunidade num rancho nos Estados Unidos(Milbrook) onde foi visitado por Ken Kesey(autor de “Um Estranho no Ninho” e lider de outra comunidade psicodélica os “Merry Pranksters”. Esse encontro é retratado no filme “Across the Universe”, com Bono Vox num papel inspirado em Ken Kesey). Tim viajou para o Oriente com sua bela esposa loira, conheceu mestres iogues e passou um tempo na Índia. Na volta, Milbrook sofreu uma batida policial e Leary passou a ser perseguido até que foi preso na fronteira com o México com uma quantidade ínfima de maconha. Enfrentou diversos julgamentos e quando ia ser candidato a governador da Califórnia(Tendo como jingle a música “Come Together”, antes dela ser um hit dos Beatles) acabou preso. Fugiu para França e depois Argélia onde virou refugiado com a mulher, Rosemary e fez contatos com grupos oposicionistas do mundo todo, inclusive brasileiros. De lá para Suíça, onde foi preso e deportado. Nos Estados Unidos passou anos em diversas prisões.

No livro, percebe-se que Leary está muito além da visão que se tem do “papa do LSD” ou do “velho hippie doidão”. Timothy foi um psicólogo, filósofo e cientista, grande entusiasta da computação, física quântica e drogas como forma de desenvolvimento do cérebro. Suas pesquisas realmente incomodaram o governo americano e envolveram tramas na Casa Branca que chegavam até a John Kennedy. Quando faleceu, Tim congelou sua cabeça num tanque criogênico, com esperança de que isso pudesse ajudar em pesquisas futuras. Tudo bem vai, um pouco louco ele era… 🙂

Livro: Flahsbacks – Surfando no Caos
Autor:Timothy Leary
Editora: Beca Produções Culturais
Ano: 1999

Como operar seu cérebro? Tio Leary explica, e com legendas em português:


-Quer saber mais sobre Ken Kesey e viagens com LSD? Confira no blog do Lúcio!

-Mais sobre Allen Ginsberg e os Beats? Clica aqui!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...