Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

O homem que colecionava dedicatórias

IMG_0598

Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. Sempre fui fascinado pelas frases que as pessoas escrevem quando dão um livro de presente. Deve ser porque não conheci meu pai direito… Explico: o velho morreu quando eu tinha três anos. Deixou-me, no entanto, um exemplar de a Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, com uma dedicatória que dizia: “Para meu filho, Pietro, um livro que marcou minha infância. Um dia você será um homem e então desbravaremos os 7 mares juntos. Com amor, seu pai”.

Um ataque cardíaco o matou pouco depois e, obviamente, nunca desbravamos os sete mares. Na verdade, nunca saí do Brasil, apesar de ter viajado bastante pelo país rodando sebos e lojas de artigos usados atrás de dedicatórias interessantes para minha coleção. Detalhe tragicômico: tampouco aprendi a nadar, o que me impediria de desbravar qualquer riacho, quanto mais os sete mares.

Criei um modo peculiar de catalogar meus livros: separo-os por temas de dedicatórias. Dedicatórias de amor estão nas primeiras prateleiras; depois, vêm as de amizade, as de parentes e as de autores famosos. Geralmente as pessoas não entendem o que um volume de Paulo Coelho tem a ver com um do Mia Couto ou outro do John Fante; muitos até ficam bravos e chocados com o fato de eu ter, em minha coleção, obras tão ruins quanto Carta entre amigos, do Gabriel Chalita, e O primeiro terço – talvez o pior livro da geração beat, escrito pelo anti-herói Neal Cassady. (Cassady, na verdade, foi mais bem-sucedido como “muso” de seus contemporâneos, inspirando obras de Bukowski, Allen Ginsberg e Jack Kerouack). Mas a mim pouco importa se são livros geniais ou medíocres – são as dedicatórias que me deixam apaixonado. Vejam só: em um livro considerado por todos literariamente nulo como Homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, eu achei uma das dedicatórias mais interessantes que já vi:

“Querida Leitãozinho, comprei este livro para você com a esperança de que entenda como os homens são seres realmente desprezíveis e absolutamente diferentes de nós, mulheres. Espero que, lendo um livro bobo como este, você perceba que não há nada mais natural do que uma mulher se apaixonar por outra mulher. Não é pecado, mesmo que seus pais a façam pensar assim. Nosso amor é a coisa mais linda que existe; não há motivo para escondê-lo.
Beijos, meu leitãozinho rosa. Da sua pianista.”
15/03/2001.

Quem seriam essas mulheres? Teria a “Leitãozinho” (não riam, nenhum apelido romântico escapa do ridículo, vocês bem sabem) se convencido de que os homens são realmente os seres mais desprezíveis da face da Terra? Teria a “pianista” conseguido convencer a sua amante a desencanar dos mandamentos dos pais?

Essas dedicatórias sem nome deixavam-me ainda mais intrigado. Quando a dedicatória vinha com um nome completo, muitas vezes eu procurava pela pessoa numa busca pela internet ou na lista telefônica. Cheguei a ter uma coleção de mais de dez livros com dedicatórias de uma mesma família. E uma outra, quase tão grande, de um casal que vivera um romance entre os anos 60 e 80. Acompanhei pelos livros o namoro hippie construído com Eros e Civilização, do Marcusse. e A Erva do Diabo, de Castañeda. O casamento celebrado com uma bela edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em formato grande, capa dura e ilustrada. Separaram-se na época das eleições presidenciais de 1989; o marido aparentemente tinha “encaretado” e a mulher, fiel aos velhos ideais, se decepcionara com ele. O sujeito deu para a esposa um livro da fase parnasiana (e ruim) de Manuel Bandeira com uma dedicatória seca:“As mais belas poesias que um salário medíocre pode comprar. Beijo.”

E ela o presenteou com “El libro de los abrazos”, do Eduardo Galeano, precedido da dramática frase:
“Um livro para abraçar o menino que queria mudar o mundo e tentar despertá-lo dentro desse homem cinza que deixa a falta de dinheiro lhe tirar o sono e os sonhos. Abraços.”

Passei tanto tempo me debruçando sobre as dedicatórias que o óbvio aconteceu: me apaixonei por uma delas. Era, talvez, a coisa mais triste que já lera na vida. Uma dedicatória que uma garota escrevera para si mesma. Aquilo me pareceu a coisa mais solitária do mundo. Uma pessoa se autopresentear, num Natal fracassado, e escrever uma dedicatória tão…

“Não chore, menina – as coisas ainda vão melhorar.
Não desista, menina – você tem talento, um dia eles vão ver.
Não os ouça, menina – você pode escrever.
Não trabalhe tanto, menina – um dia a fábrica inteira vai saber que você não é só uma secretária.
Não odeie seu pai, menina – é difícil ele aceitar que o mano virou irmã.
Não sinta vergonha, menina – você não tem culpa de aquele nojento ter mexido com você; você fez tudo que pôde para ele não tocá-la, mas ele tinha uma arma.
Não pense que você é louca, menina – um dia um príncipe encantado vai aparecer.
Não se sinta ridícula – príncipes encantados existem. Pelo menos essa ideia enche nosso coração de esperança.

Feliz Natal, menina – sim, já é Natal. E este é o presente que você comprou para si mesma. Assim você não estará sozinha. Você vai estar acompanhada do maravilhoso Caio Fernando Abreu e deste Ovo Apunhalado.
Ana Paula dos Anjos, 25/12/05.”

Uma “autodedicatória”, num Natal solitário, parecia roteiro de um filme melodramático ou letra de tango. Era realmente muito triste, e meus olhos marejaram. Eu quis conhecer aquela menina, dizer-lhe que ela não estava sozinha. Que eu havia lido aquela dedicatória infinitamente triste e compreendia aquele sentimento. Que eu era o maior colecionador de dedicatórias do mundo e que nenhuma, nem mesmo a de Érico Veríssimo à Clarice Lispector, havia mexido tanto comigo. Aquilo fora escrito havia apenas dois anos; a menina devia estar viva ainda, provavelmente em São Paulo. Mas agora ela não tinha mais nem sua edição de O Ovo Apunhalado para acompanhá-la. Será que ela havia se tornando uma escritora? Procurei seu nome no Google e em sites sobre novos autores, mas não achei nenhuma Ana Paula dos Anjos. Será que ela continuava trabalhando como secretária numa fábrica? Mas havia tantas fábricas em São Paulo, e tantas secretárias, que seria impossível localizá-la só a partir dessa informação. Tornei-me obcecado por aquela dedicatória – decorei todas as linhas e ainda as anotei em diversos lugares diferentes para não correr o risco de esquecê– las. Era impressionante como poucas palavras podiam trazer tantas imagens fortes como aquelas. Havia um emprego ruim numa fábrica, um pai que não aceitava o filho homossexual, um estupro ou tentativa de estupro, e dois desejos clássicos: o reconhecimento como escritora e a descoberta de um grande amor. Era um roteiro maravilhoso para um livro. Eu que havia lido muito, graças ao meu hobby, sabia que aquela era uma boa história. Se eu tivesse mais talento poderia escrevê-la e publicá-la. Quando eu alcançasse sucesso, a menina, que tinha um interesse literário evidente, tomaria conhecimento e viria tirar satisfações:

— Como você teve coragem de se tornar um escritor usando a história da minha vida?
E eu explicaria que era apaixonado por ela, lhe cederia metade dos direitos autorais e financiaria seu livro com os lucros. Viveríamos felizes; ela escrevendo e eu colecionando dedicatórias em seus tomos.
***

Descobri aquele livro no final de 2006. Quase um ano se passou e Ana Paula dos Anjos ainda era um mistério para mim. Tinha rodado todos os sebos de São Paulo e mais as cidades do interior, Rio de Janeiro e Pernambuco atrás de alguma dedicatória que pudesse me dar uma pista. Enfim, resolvi que para me livrar daquela angústia precisaria de ajuda profissional. Pode soar ridículo, mas confesso que liguei o computador e procurei por um detetive particular. “Será que ainda existiam detetives particulares?”, pensava. Isso parecia coisa tão antiga, um clichê saído de filmes preto-e-branco e livros baratos… Fato era que não sabia mais o que fazer. Não poderia dar queixa na polícia sobre o desaparecimento de uma menina que eu nem conhecia. Nem sabia como era seu rosto, mas não me importava – eu a amaria mesmo que ela fosse horrível. Cheguei a pensar que a amaria mesmo que ela fosse um homem, mas me envergonhei desse pensamento. A pesquisa no Google revelou centenas de escritórios de detetives particulares. Sim, eles ainda existiam. Um deles me chamou a atenção pelo nome:
“Dos Anjos Detetives: Investigações conjugais, empresariais, flagrantes, localizações de pessoas, entre outras. Atuamos em São Paulo e região.”
Será que o próprio dono da agência era parente da Ana Paula? Bom, isso seria muita sorte! O sobrenome dos dois era o mesmo e aquela parecia ser uma empresa menor – e, consequentemente, mais barata – que as outras. Anotei o endereço num cartão de livraria e fui dormir. Naquela noite tive um sonho e me lembrei dele ao acordar. Isso é raro. Costumo não dar muita atenção para meus devaneios pouco criativos, que não passam muito de fantasias eróticas ou situações constrangedoras nas quais apareço pelado em público. Nada digno de nota ou que escape dos clichês. Tantos livros lidos, tantas ideias vazias. Mas nessa noite sonhei com dedicatórias. Em meio ao pó e fitas VHS, eu reencontrara o antigo tomo de A Ilha de Tesouro que meu pai me dera, perdido num sebo gigante, no centro de São Paulo. Aquele sebo possuía todos os livros do mundo, e cada livro continha – numa dedicatória – um momento memorável da vida de cada ser humano que habitou nosso planeta. Era uma bizarra babel de declarações de amor, ódio, separações, presentes de dia dos namorados e tardes de autógrafos. Aquilo, para mim, era como um imenso supermercado doando comida grátis. Autoajuda, romances policiais, biografias, histórias pornográficas – todos os volumes do mundo se acumulavam em estantes quilométricas que pareciam ter sido pinçadas de um conto de Borges. Mas o tempo era escasso. Batiam quinze para as seis da tarde e o sebo iria fechar em breve. Não poderia garimpar muito ali. Anos atrás, eu havia escrito uma dedicatória emocionada, respondendo as linhas do meu velho sobre navegar os sete mares, e doado a obra para uma escola. Resolvi folhear suas páginas novamente:

“Pietro… Quantos anos será que você tem hoje? Que história triste a sua… Um menino colecionando dedicatórias. Deixei a minha num livro de Caio Fernando Abreu. E a esqueci num sebo. Uma dedicatória que escrevi para mim mesma e achei que fosse a coisa mais triste do mundo. Mas você escreveu uma para um pai morto e passou a vida toda colecionando fragmentos da vida alheia. E isso me parece infinitamente desolador e triste. Gostaria de te encontrar algum dia e lhe dizer que entendo sua solidão. Quem sabe já não ficamos lado a lado em algum sebo da Augusta?
Carinho,
Ana Paula 25/12/2006”

Ilustração para o livro "Canções para ninar adultos" coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco "Secos e Molhados"

Ilustração para o livro “Canções para ninar adultos” coloca Saramago, Lewis Carrol, Borges e Kafka estrelando a capa do disco “Secos e Molhados”

Qual era a possibilidade de aquilo acontecer? Ela havia me encontrado! Naquele mar de mensagens esperançosas e juras de amor, Ana Paula tinha encontrado um pedaço de mim e tatuado nele suas impressões. Era gozado como eu me sentia menos só. Alguém captara a tristeza mesquinha que eu sentia por ter perdido o pai. Não me importava se eu nunca iria encontrá-la, se ela era casada ou se eu descobrisse que Ana Paula dos Anjos era a maior baranga do Brasil. Eu precisava encontrar aquela mulher e partilhar com ela minha dor. Deixei uma nova dedicatória no seu livro:

“Ana Paula, li suas dedicatórias, tanto no livro do Caio Fernando Abreu, quanto na Ilha do Tesouro. Gostaria de saber o que você faz da vida hoje, se saiu da fábrica, se conseguiu se tornar uma escritora. Seu pai aceitou seu irmão? Passei um ano inteiro atrás de você só pra descobrir que você estava atrás de mim. Se você encontrar esse Ovo Apunhalado novamente, e reconhecê-lo como seu companheiro naquele Natal triste de 2005, não hesite em me ligar. Mesmo que os anos já tenham passado, mesmo que você esteja casada e mãe de três filhos. Mesmo que você seja uma romancista rica e famosa. Deixo aqui meu endereço, telefone e e-mail. Já não coleciono dedicatórias. Apenas abro os livros, esperançoso de que neles haja uma mensagem sua, como uma garrafa solta no mar. Apenas um sinal que me faça continuar buscando”.
Com amor,
Pietro, 18/09/2007
***

Sonhos não mentem, achava eu. E, na manhã seguinte, acordei destinado a ir até a Consolação atrás dos detetives. Parecia que minha vida se tornaria uma aventura noir, como os livros de Chester Himes. Imaginava que as ruas da zona Sul se transformavam no Harlem dos anos 60 e eu estaria próximo de entrar no escritório decadente de dois detetives durões.

Nem três quarteirões andara, quando uma música muito triste martelou forte minha espinha. Ela era soprada duma casinha simples, mas bem-conservada, que devia estar de pé há pelo menos 60 anos. A voz do rádio era grave, dramática e fora de moda. Por trás daquele portão baixo, que revelava uma jardim meticulosamente cuidado, habitado por gordos girassóis e margaridas raras, emanava uma canção com cheiro da minha infância, uma canção que meu avô ouvia em sua potente vitrola, quando não assistia aos filmes de Bud Spencer e Terence Hill. Cessou o som mecânico e uma bela voz de mulher jovem me rasgou no meio. Como se a banda ainda tocasse, aquela voz enchia o bairro com sua melancolia, e atualizava, para os dias de hoje, uma música quase brega, sobre como uma cadeira vazia lembrava o pai morto. A menina parecia cantar sozinha, enquanto realizava alguma tarefa doméstica, mas era impossível enxergá-la por aquele ângulo. Apenas sua voz reinava no espaço.

Parado diante do portãozinho azul, o tempo correndo sem que notasse – eu não conseguia ficar triste. Só conseguia ouvi-la. Imóvel e dolorosamente apaixonado.

2008-2011

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

“Não existe racismo no Brasil”

_Não existe racismo no Brasil.
_Em que Brasil?
_No nosso Brasil, pô! Aqui nunca foi que nem nos Estados Unidos, que nem na Alemanha, essas porras todas, saca? Não foi um troço oficial.
_Sei lá, sempre convivi com racismo
_Mas você é branco, cara.
_Por isso mesmo. Sempre convivi com racistas, ué.
_Ih, lá vem papinho de comunista barbudo, ha, ha, ha.
_Lembra quando meu irmão ficou com uma menina negra na festa de RP, na faculdade?
_Não lembro não… Ficou, é? Seu irmão também é bem safadão, né?
_Eu lembro bem. Vocês disseram que ela parecia o Kanu.
_Kanu?!
_Aquele jogador da Nigéria…
_Falamos?!
_Sim, pô, não lembra?
_Ha, ha, ha, nóis é foda… Devia ser baranga também, né? Ah, fala sério, isso já é politicamente correto demais. Não pode falar quando uma mulher é feia? Se fosse branca a gente zoava também.
_Mas não foi só com essa. Quase todas mulheres negras da nossa faculdade tinha apelidos secretos lembra?
_Lembro não…
_Eu lembro bem. Um mais escroto que o outro: Predador, Macunaíma, Aquático…
_Pô, não é bem assim. Olha só, vou confessar uma coisa… Cê já comeu uma neguinha? Eu já. E gostei, viu, velho? Elas pegam fogo lá embaixo…
_ Olha aí, bem o que eu disse.
_Pô, mas tô falando que gostei da negra, porra!
_Cê tá começando com aquele papo de “eu não sou racista, até peguei uma negra…”
_Porra, cara, papinho chato. Daqui a pouco você vai defender cota.
_Sei lá, cara, eu acho que tem que existir cota pra compensar uma política oficial que permitiu que negros fossem escravos por 300 anos no Brasil. Eles não vieram pra cá por opção. E até hoje a vida dos caras é mais difícil. Posso dar um exemplo que vivi?
_Manda.
_Trabalhei como jornalista dez anos, né?
_Claro, puta orgulho, passou pelas maiores revistas do Brasil. Vários prêmios e tal.
_Pois é… E não podia ter negro na capa das revistas.
_Como assim?
_Falavam que não vendia, que o público não se identificava com o negro.
_Ah, duvido, isso é teoria da conspiração, vai.
_Aconteceu comigo, cara, tô falando. Comigo e com meus colegas.
_Pô, mas não é racismo, veja bem, você mesmo disse que o negro na capa não vende revista… O dono vai fazer o quê? Caridade?
_Porra, mas isso é segregação. Só uma raça tem direito de ser enxergada? Desse jeito você cria uma imagem de que só o branco é bonito, só ele é bem sucedido. Jornalismo não é só mais um negócio, como vender tomate ou parafuso. Jornalismo é um serviço que a gente presta pro público, cara. Temos que informar, mostrar a realidade. Selecionando quem pode ou não aparecer em capa de revista, você cria uma realidade paralela, um imagem de que o negro não existe fora das notícias policiais, saca?  E se você não colocar o negro na capa, como vai saber se a revista com ele vende ou não?
_Pode ser, sei lá, eu não manjo dessas coisas cabeça.
_Cara, e não é só uma questão de capa de revista. Fui produzir um ensaio com várias modelos praa um site. Ensaio sensual, saca?
_Ha, ha, ha, cê é safadão, igualzinho seu irmão, né?
_Pô, hoje em dia eu tenho vergonha desse trampo, meio machista…
_Ih…Tô falando que você tá comunista demais? Essa sua namorada feminista tá colocando muita merda na sua cabeça. A gente precisa pegar um puteirinho pra você renovar os ares.
_Porra, se concentra na minha história!
_Manda.
_O fotógrafo selecionou as seis modelos mais gatas da agência. Aí, ele me ligou e perguntou “Tem uma das meninas que é “morena”. Tem problema?” E eu falei “Como assim?” E ele: “Não me leve a mal, eu não sou racista, mas é que tive muito problema aí com modelo negra, sabe? O pessoal não gosta.”
_Por que não vende? Mas não é pra capa de revista…
_Ah, cara, tinha mil desculpas: achavam que era feio, que tinha cara de pobre, que não era sofisticado…
_E você?
_Mandei fotografar, claro. Não conseguiria ficar no trabalho se tivesse cortado alguém só por causa da cor. Aconteceu uma coisa parecida com uma amiga que trabalhava na maior revista do Brasil.
_Pô, é a única revista que eu leio. Essa eu assino e sou fã.
_Então, uma vez essa amiga estava precisando entrevistar e fotograr “populares” pra uma pauta, sabe?
_Sei, sei, pra mostrar o “brasilsão”, né?
_Isso, aí pediram pra ela  assim: “precisamos de um pedreiro pra matéria, mas não pega um preto, tá? Pega um mais clarinho”. Cê acredita nessa instrução? Nem o pedreiro da revista podia ser negro.
_Ah, mas isso deve ser exceção. Dois casos isolados.
_Pô, teve outra amiga minha que fez uma matéria de beleza na mesma revista.
_ E aí? Ela colocou foto de uma negra e ficaram putos?
_Ficaram putos e mandaram ela tirar. Disseram que o público não se identificava.
_Porra, cara, do jeito que você tá falando parece que é mais difícil um negro sair na capa de uma revista do que entrar numa universidade no Brasil.
_ Se bem que nossa faculdade era pública, mas tinha no máximo o quê? Dois negros pra cada 40 alunos?
_Mas era faculdade em São Paulo, né? É um estado mais branco. É uma questão de porcentagem.
_30% da população é negra em São Paulo. 30%, cara.  2 alunos por sala dá só 5%…. É a mesma coisa do meu bairro, lembra?
_Nossa, cara, eu lembro, sim.  Sua casa era da hora, mas o bairro era mó biqueira, dava medo de te visitar lá, ha, ha, ha.
_Então, eu era o único branco da área. E fui o único que fiz faculdade.
_Tá bom, tá bom, eu sei que você gosta de preto. Tua ex tinha até um pézinho na cozinha, né? Ka, Ka. Ka.
_A mãe dela era negra e o pai era branco. Ela nasceu mais clara e o irmão nasceu mais escuro. Por isso o irmão sofria preconceito no condomínio onde eles passavam o verão.
_Jura? Mesmo sendo da mesma família?
_Pois é, um dia eu e ela entramos no elevador do prédio, lá na Fradique Coutinho. Uma senhorinha simpática entrou junto, com os poodles na coleira e falou assim pra gente: “que casal jovem e sorridente. É bom ver gente bonita assim no prédio! Ali no 32 mora uma baianada que só por Deus, sabe? Tudo preto. E ainda acho que são bicha. Preto e bicha? Não dá sabe? Esse povo do norte não tem educação”.
_Pior que teu vô é baiano, né?
_E a família dela era negra.
_Ah, mano, sei lá. Não gosto de discutir coisa séria, manja? Tudo isso que você falou é verdade, mesmo? Por que você nunca falou disso antes? Por que você nunca postou no Face?
_Pô, cara eu bem queria que isso tudo fosse ficção, mas pensa bem, vou postar uma coisa dessas no Facebook? Depois nunca mais arrumo emprego nenhum, né?

-Mais contos

Instant Happiness – um conto sobre a felicidade

O conto Instant Happiness foi originalmente publicado no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos”, lançado pela Editora Patuá. Ele pode ser encomendado para todo Brasil pelo site da Patuá.

hipster-computer

 

Como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio.”
Caio Fernando Abreu, Caixinha de Música, in “Morangos Mofados”

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) Pri (mignon, tatuada, cabelo descolorido) parecia ser uma das respostas para o enigma. Colecionava gatos e projetos de vida. O perfume singelamente adocicado dos sulcos deixados no travesseiro era dela. As fotos coloridas que decoravam a parede eram dela também: o casal sorridente, uma ilustração moderninha, Toulouse-Lautrec, Matisse, gatos e 3 retratos feitas com uma Lomo. A alegria escorria fácil das mãos da menina. Por que as mulheres são assim? Os mesmos hormônios responsáveis por TPM e abstinência de chocolate eram os guias da tranquilidade feminina, mais palpável e espiritual que o materialismo macho?

O mundo apita urgente, surdo aos anseios de Kiko. Queria fazer samba e amor até mais tarde, mas escorrega da cama depois de apertar “soneca” 3 vezes no iPhone. Os olhos, que parecem colados com Super Bonder, enxergam mal o quartinho instalado pertinho da Avenida Paulista. Tinha que trabalhar. Questão de ordem: o trabalho é o imposto que se paga para ser feliz? Um enigma fundamental da humanidade, para ele, era a obrigatoriedade de se trabalhar. Essa questão filosófica ficava lado a lado com as menores “Deus existe?” e “qual o sentido da vida”? Se a gente voltasse a ser índio (peladão, numa mata tropical) ia, no mínimo, ter que plantar e caçar pra não morrer de fome. E ficar peladão numa mata tropical não lhe parecia o sinônimo de diversão garantida. A escapatória escapava de suas mãos finas.

No banheiro apertado, gotas quentes respingavam em seu corpo sem pelos e vapor abundante desentupia as narinas de fumante. O cheiro de sabonete molhado lembrava a infância. A memória gosta de nos trazer fotografias felizes do passado. O velho sempre parece mais pleno que o presente. “Será que dá pra arrumar um emprego que a gente realmente se amarre? Algo pra carregar como uma missão de vida? Meu pai acha que todo trabalho é um fardo. Se fosse bom, não pagavam a gente pra fazer, argumentava ele. Mas, porra, duvido que o Bono Vox tenha depressão todo dia que acorda pra fazer um mega show ou salvar criancinhas africanas.”

Intranquilo, engolia nacos amanteigados de pão umedecidos por leite com Toddy. Saudades do café da manhã turco: queijo feta, pepino, tomate, ovo cozido, azeitonas pretas e pão. “Viajar é a melhor coisa da vida”. Será que ele era incapaz de pensar algo que não soasse absolutamente clichê? “Porra! Nasci loiro de olhos azuis, tenho cidadania européia, sou homem. A felicidade veio tatuada nos meus genes.” Pri já tinha saído pra trabalhar e a faxineira estava atrasada. Sorriu para paisagem da janela. Às vezes tinha medo que um acesso de loucura o arremessasse prédio abaixo, como o Arnaldo Baptista dos Mutantes. (“Eu vou correndo buscar a glóriaaaaa”). Hoje não, hoje sentia-se esperançoso. Era o suficiente para marchar pelo exército de corpos nas ruas, abrir caminho pela carne flácida do mundo e entrar no metrô. O fone de ouvido toca o disco novo do Rapture. Bandas de rock parecem ser a solução instantânea para felicidade. Mas só duram 3 meses. 3 meses é o prazo de validade de um disco nos anos 2000. Isso se ele for bom! Depois disso, ai de nós, temos que garimpar algo novo, em meio a milhares de inutilidades estocadas em sites de download pirata. E, em semanas esplendorosas, somos recompensados por um disco como “In The Grace of Love”, do Rapture (“How deep is your love?”). Ou “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto. (“Tem sempre um lado que pesa e um lado que flutua”). E olha que ele nunca tinha gostado de Otto, nem de mangue beat. Mas aquele disco era a dor transformada em música e, como a vacina que converte vírus em remédio, música sobre dor é o antídoto perfeito para sofrimento e angústia juvenil. (“Não precisa falar, nem saber de mim. E até pra morrer, é preciso existir.”)

***

Aliás, caro leitor, você tem algum bom disco pra indicar?

***

h

Madrugada, instante messenger. MSN ou Gtalk.

(…)

Kiko1984:Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:…
Jef – Paranoid Android:Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

15/10/2010 – 15/11/2011

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

3 fábulas chinesas saídas das quebradas

1.

O Bola se achava o maioral da quebrada porque controlava a maior parte das biqueiras da Vila. Um dia ele se assustou ao ver o franzino Mãozinha com a morena mais linda do culto. “Como é que aquele cara tão desmilinguido (e sem uma mão!!!) podia andar com uma deusa daquelas?” Bola era mais forte, mais bonito, mais valente e melhor de futebol que o Mãozinha. Ele infernizava o rapaz desde pequeno – aquela afronta não podia ficar assim.

Bola decidiu que iria conquistar a morena mais bonita da quebrada pra ele. No primeiro dia, Bola levou flores pra morena, mas ela disse não. No segundo dia, Bola levou chocolates pra morena e ela disse não. No terceiro dia, Bola levou um pequeno colar pra morena e ela disse novamente não. Irritado, o rapaz não teve dúvida: forçou a pobre morena a satisfazer-lhe as vontades ali mesmo, na casa do Mãozinha.

Bola sentia-se seguro violentando a mulher do aleijão porque sabia ser mais forte e mais valente. Ele não sabia, no entanto, que o Mãozinha chegaria mais cedo naquele dia, nem que o maneta seria corajoso o suficiente para descarregar o trezoitão em sua cabeça gorda. Seus miolos espirraram na parede, no exato momento em que seu prazer espirrava de seu corpo suado.

Bola esqueceu que ele – apesar de valente, bonito, forte e bom de futebol – não tinha o peito de aço.

2.
Galeguinho gostava de fumar um do bom pra ficar chinesinho. Enquanto seu amigo Larica dizia que o mato lhe deixava louco, Galeguinho achava que ficava mais inteligente. “A fumaça na cuca é um anabolizante para os neurônios”, pensava ele.

Um dia, Larica tomou chá de cogumelo e contou pro Galeguinho que o efeito era cem vezes mais forte que o do causado pela maconha. Isso deixou o  jovem ambicioso muito animado: “Ficarei cem vezes mais esperto bebericando esse chá!”.

Depois da chuva vem sempre o cogumelo de Zebu, e Galeguinho se fartou do psicodélico chá. Em seu sonho maluco, Galeguinho sonhou que era uma borboleta voando pelos campos da China. Quando acordou, Galeguinho não sabia se era o Galeguinho que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Galeguinho. Talvez a borboleta fosse o Galeguinho! E talvez o Galeguinho fosse a borboleta!

O rapaz acabou no manicômio judiciário de Franco da Rocha.

3.
O cabo Du sempre pedia uma coxinha e um pastel na venda da Dona Isabel. Dona Isabel – que tinha 5 filhos e era viúva – explicava que não podia vender fiado, mas o policial prometia proteção em troca da boquinha grátis. Num dia ensolarado, 7 moleques da turma do Vandinho entraram na venda da Dona Isabel e levaram tudo. Desesperada, a pobre viúva foi pedir proteção para o cabo Du.

“Sinto muito, Dona Isabel, mas a turma do Vandinho tem as costas quentes. Não posso fazer nada. Na próxima, eu adianto o teu lado.”

Dona Isabel assentiu, humilde, com a cabeça preenchida por cabelos brancos. Na próxima vez que colou na vendinha, o cabo roliço devorou seu pastel de frango com goles gordos de guaraná Super Plá e deixou a coxinha pro final. O crocante surpresa da delícia salgada era caco de vidro moído que encheu a goela do cabo de sangue e rasgalhou-lhe as tripas, mandando-o embora de rabecão.

Na hora da agonia, o polícia rezava e implorava para que Deus o salvasse, mas nosso Senhor fingiu-se de besta porque aprendeu há anos que não se deve dar moral aos mentirosos e vacilões.

Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê – conto

um conto de Fred Di Giacomo, publicado no livro “Canções para ninar adultos” (Editora Patuá)

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era o que eu tinha que fazer.

***
IMG_1032

— Você foi feliz?
— Como assim, Alex? Pergunta estranha…
— Não, vô, queria saber se você foi feliz, de verdade. Se sua vida valeu a pena.

Meu avô era um self-made man. Eu era um bundão. Ela tinha saído do sertão do Ceará, trampado como porteiro, peão, engraxate, estudado engenharia, passado em concurso público, ganhado dinheiro, criado os filhos, comprado dois apartamentos (um na praia, claro) e uma dezena de carros e pagado as contas de todos os almoços da família. TO-DOS. Porque meu pai não tinha grana. Ele era formado em sociologia e trabalhava em ONG. E isso tinha sido a grande luta da família desde que eu me entendo por gente. Meu avô era um cabra ferrado na vida que ganhou dinheiro. Meu pai era um cara que perdeu dinheiro. Pra ser feliz. Mas agora estava decepcionado. Trabalhar com menor abandonado não é fácil. Eu sei, eu o vi chegar a vida toda esmagado em casa, fazendo dívidas, se atolando no cartão de crédito e, muitas vezes, ele fazia tudo isso para tentar ajudar quem não queria ser ajudado. As histórias eram tristes:

— Essa semana a Rota aprontou de novo.
— Rodrigo, precisa desses assuntos na mesa? – minha mãe achava que na hora de comer não devia se falar de fofoca, doença ou tragédia. Era uma mulher sábia.
— Foi uma execução sem motivo. Pegaram seis moleques, lá no centro. Os seis cheirando cola, benzina, alguma dessas químicas. Os policiais fizeram a molecada beber tudo. E depois ficaram esperando pra ver a pivetada estrebuchar. Teve um que demorou pra apagar. E aí eles botaram no carro e ficaram dando volta com ele, até morrer. Os comerciantes da área acharam certo. Na verdade, essa era a piada do dia.

***
De volta ao almoção de domingo na casa da minha avó. Macarrão, frango, Coca-Cola e doce-de-leite.

— A vida foi boa comigo, Alex. Eu comprei carro, casa, e, se não tivesse feito o que fiz, não tava podendo ajudar seu pai.
— Eu sei que o senhor foi bem sucedido, vô. Tô perguntando se o senhor foi feliz. O senhor fez o que queria da vida? Hum… Não “da vida”. Fez o que queria “pra vida”?
— Se a gente faz o que quer da vida, morre de fome, menino. Olha o seu pai… Eu falei pra ele cursar engenharia, sabia que ninguém vivia de fazer ciências sociais. Isso é hobby de rico. Mas ele não me escutou, agora tá aí…

Eu devia ter defendido meu pai? Sei lá, acho que isso quis dizer que o vô não era feliz. Eu não era feliz. Eu tinha momentos de felicidade. Li numa entrevista na revista Trip que a felicidade é uma distorção de humor, assim como a tristeza. Que o melhor é ser sereno. Eu acho bom ser sereno, tranquilo. Mas prefiro ser feliz. Tentar ser, pelo menos.

Todos meus amigos estavam tentando ser felizes. Mas o mais próximo disso que conseguíamos alcançar era ficar bêbado, mesmo. Por isso todo mundo – os manos e os hipsters – gostavam da música nova do Criolo. Ela dizia: “Os bares estão cheios de almas tão vazias”, e também dizia que não existia amor em SP. Eu tinha escrito antes num verso: “São Paulo, eu queria te abraçar”. Acho São Paulo a cidade mais incrível e mais triste do mundo. Parece uma musa banguela. Uma prostituta por quem o freguês se apaixona e insiste em querer tirar da vida. Eu sempre gostei de mulheres tristes. Tristes e loucas. Eu queria tomar conta delas e queria que elas tomassem conta de mim.

— Entendi, vô. Eu acho muito importante o que você fez. Sua história é bonita, mas… Eu tava pensando na minha vida…
— Não pensa não, filho. Pensar não enche barriga de ninguém.
— Alex, para de ficar tão preocupado e come mais. Nunca vi meu netinho tão magrinho… Você sabe que a vó te ama, né, filho?

Minha avó parecia feliz. Até que começaram a aparecer os primeiros sintomas do Alzheimer. Isso foi despertando o lado mais cruel dela. Uma raiva forte do meu avô, que nunca lhe deu muita atenção, nunca estava em casa, nunca tinha tempo para o filho. Mas teve tempo para arrumar amante, né? E ela ali, sempre tão fiel, sempre tão correta…

E meu pai? Foi feliz? Não sei, não tenho coragem de perguntar ao velho. O que sei é que ele foi um idealista, um exemplo, e agora chora porque teve que cortar seus canais de TV a cabo. Todo mundo vai querer comprar roupas boas quando ficar velho? Não faço ideia; hoje o buraco que carrego não é esse. Um colega de trabalho queria muito dirigir um filme, mas tem medo. A outra queria viajar por seis meses pelo mundo, mas tem medo também. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que vai conseguir. Eu sinto falta de fazer algo relevante. O que eu posso fazer para melhorar o mundo, sem virar um político feladaputa ou um pregador messiânico? Às vezes parece que a única opção para viver bem é fazer propaganda de sabonete e margarina.

Nessas propagandas, as pessoas sempre são felizes.

***

— Alex, isso é muito chato.
— Por quê, Sabrina?
— Porque é muito duro, muito sujo. Poesia é muito brega.
— Ha, ha, ha. É mesmo. Ninguém lê poesia.
— Lê o que então, Jeferson?
— Pô, conto. Sei lá, coisas mais bem-humoradas.
— É, Alex, o Jeferson falou uma coisa que é verdade. A arma da nossa geração é o humor. A revolução vai vir dos memes e dos tumblrs.
— Se você for ver, Alex, hoje em dia quem manda no mundo são os blogueiros. Não tem mais esse negócio de Globo, Abril….
— Porra, a internet mudou tudo.

(Mudou?)

— Sei lá, vocês devem estar certos. Acho que tô bêbado.

***

Um resumo nada empolgante da vida deste cronista até aqui: nasceu pobre. Bem, pobre não. Classe média baixa. Estudou muito. Fez uma boa faculdade. Começou a trabalhar. Ganhou dinheiro. Subiu alguns degraus na vida. Trabalha em algo que não faz sentido pra ele. Mas paga iPhone, viagem pra Europa, cerveja artesanal, balada descolada. Na Europa, viu um grafite no banheiro: “Capitalism is dead, sent from my iPhone”.

Sentiu-se, ele também, um rebelde de iPhone.

***

Não sei para onde vou, mas hoje pedi demissão do meu emprego. Minha chefe me chamou de imaturo, disse que a geração Y não aguenta o tranco. Que o que eu estava fazendo era coisa de riquinho mimado. Que desse jeito o Brasil nunca iria pra frente mesmo. Eu sorri para ela. Não sabia por quê, mas me sentia terrivelmente bem e leve.

Como não me sentia desde o dia em que fiz um crachá naquela multinacional.

***

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era que eu tinha que fazer.

Para ouvir ao som de:

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

Sexo virtual, pop e desencontros – extraído do livro “Canções para ninar adultos”

Esse conto foi originalmente divulgado no blog do escritor e jornalista Edward Pimenta.  Ele faz parte do meu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, disponível na livraria Cultura e no site da editora Patuá. O livro está sendo bem recebido com resenhas em revistas como Playboy, Vida Simples, Contigo! e sites da revista Gloss e Alfa, além de blogs independentes.

A sacanagem rolando solta no Chatroulette para alegria dos nerds…

Sexo virtual, pop e desencontros
Ela, pink, queria ir na “Post It”. Ele, preto, queria acordar cedo para conhecer o Mosteiro de São Bento.

— Os cantos gregorianos – sentenciava Alex, dedo no óculos, achando-se o maior intelectual do mundo – são uma das poucas heranças boas da igreja para a humanidade.

— Mas eu gosto de dançar, gatinho. E o único padre que dança é o Marcelo. Missa me lembra velório, gente velha e final de domingo…

— Olha, Amanda, não sei por que as pessoas decidiram que Britney Spears e Beyoncé sãocult. Todo indie agora é fã de Lady Gaga. Nos anos 90…

— Blá, blá, blá. Que papo de indie velho! Ninguém dança ouvindo Sonic Youth e Pavement.

— Escuta aqui, por que mulher acha tanta graça em dançar, hein?

— E por que homem só dança pra conseguir trepar?

— Era uma boa, né?

— O quê?

— A gente trepar, ué! Já faz uns dois dias…

— To meio machucadinha, Alex, te falei… Amanhã a gente faz, tá?

Ela vai dançar Mariah Carey. Ele entra fundo na pornografia. Fiquemos com ele: www.XVideos.com; velhos fetiches, closes ginecológicos entediantes. Será que tá rolando alguma coisa no Chatroulette? Só entrando pra descobrir quem está do outro lado da webcam:

1) Pica

2) Pica

3) Pica

4) Mina

Opa, uma mina!!!

Até Paris Hilton deu as caras no Chatroulette

 

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: Where are you from?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: Washington – DC

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: How old are you?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: 17

“Putz, dezessete? Mas que gostosinha… Ruiva de piercing no nariz e decote!”

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: I like your beard!

“Que significa beard mesmo? Beard, beard… Ah, é: barba”. A maçaneta range. “Cazzo!” Fecha o laptop correndo. O pau duríssimo.

— Nossa, amor, tá feliz assim de me ver?

— Vem cá, vem…

— Tô machucadinha, você sabe, Alex. E morrendo de sono…

— Tava legal, lá?

— Muito! Tocaram uns hits mega-antigos da Cher e da Christina Aguilera. Ninguém lembrava as letras, só eu.

— Que orgulho!

— Ah… Subi no palco.

— Porra, você não se segura, né? Tem que subir no palco só por que eu não tô junto?

— Ai, amor, no Vegas só tem gay.

— Pô, eu te conheci lá…

— Não surta, tá bom? Deixa de ser noiado, eu te amo muito! Vou tomar um banho agora… Depois tenho que comer alguma coisa, tô com uma master fome.

Por que para ela o amor era tão fácil? As coisas não eram tão eternas e seguras assim. Um dia ela poderia entrar no Vegas e se apaixonar por outro. Quem sabe se ela achasse um hetero que curtisse Barbra Streisand? Chega! Pensar em outra coisa para sufocar o ciúme… Queria começar a fumar charuto. Procura no Google: “charutos baratos”. Site de macumba. Vontade de ir num terreiro. Mas um pouco de medo. A americana era bem gostosinha. Queria fazer um pouco de sexo virtual. Masturbação já perdeu a graça. Só é legal quando tem algum vídeo bem escroto. No celular da Amanda, uma música da Rihanna. Só pode ser a mala da sogra ligando a essa hora da madrugada…

— Alô, a Amanda está?

— Quem gostaria?

— É o Chico, da festa “Post It”. Achei seu número na…

Desligou o celular gritando mentalmente. “Filha da puta! Quem era esse Chico ligando bêbado pra minha mulher? Mal o cadáver tinha esfriado e o desgraçado já estava testando o número da Amanda?”

Tudo bem, agora era a vez dele ir à forra. Bateu a porta amarela do apartamento, levando no bolso as chaves do carro dela, o cartão estourado, 50 pila em dinheiro e as piores intenções possíveis.

***

Quando, faminta, Amanda voltou ao quarto, a cama estava vazia. Só então percebeu que esquecera a carteira na balada.

Outros contos:
– Preto no Branco: um palhaço triste apaixonado pela mulher mais indecisa do mundo
– Minha cidade era pequena como minhas ambições
– Trailer do livro “Canções para ninar adultos”

Cartaz da festa Post It

Livro em formato de disco, “Canções para ninar adultos” será lançado dia 25/10 na Vila Madalena

“Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se naquele ponto cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção trata-se do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada, suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar nossa saga.” (Gênesis, Fred Di Giacomo)

Convite do lançamento

Será um livro, será um disco, será um amontoado de caôs?

Calma, querido leitor, é só meu primeiro livro saindo do forno. “Canções para ninar adultos” será lançado dia 25/10 às 19h no Bar Canto Madalena – Rua Medeiros de Albuquerque, 471 – São Paulo – SP. Já dá, inclusive, para encomendá-lo na pré-venda no site da Editora Patuá.

“Canções” reúne 22 contos divididos, como num disco de vinil, em lado A e lado B. No final do livro, eu recomendo uma listinha de músicas para acompanhar os contos.

A orelha foi soprada pelo escritor e jornalista Xico Sá. Vejam um trechinho:

“Todo cuidado é pouco, senhoras & senhoritas,“Canções para ninar adultos” é obra de um tarado. Um leitor-escritor tarado, capaz de trazer para o jogo da narrativa o jeito tranquilo do matador Chester Himes e a viagem sem fim de Céline. (…)

Um escritor-leitor taradíssimo, rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat que alcança o paraíso. Na literatura, só os tarados têm o direito de tocar os leitores. O resto é chatice com solenidade mofada.(…)

Legal, né? Espero vocês todos no lançamento!!!

-Notícias sobre “Canções para ninar adultos” no blog oficial

Ilustração do livro "Canções para ninar adultos" recria a capa do primeiro disco dos Ramones com os escritores malditos Poe, Ginsberg, Bukowski e Nélson Rodrigues no lugar dos pais do punk

“Houve um tempo em que havia uma esperança: a música tinha Bob Dylan e os Beatles estavam parando de cantar canções de menininhas para tentar mudar o mundo. O homem tinha chegado a Lua, os estudantes tomavam as ruas de Paris, o cinema estava se tornando arte.”
(“Amor nos Tempos de Aids, Fred Di Giacomo)

Em breve sai o primeiro livro deste blogueiro: “Canções para ninar adultos”

Algumas pessoas colecionam selos, lágrimas, tampas de garrafa, sonhos, maços de cigarro ou discos. Já conheci até quem colecionasse embalagens de pasta de dente. Eu coleciono livros. Ou melhor, dedicatórias em livros. (O Homem que colecionava dedicatórias, Fred Di Giacomo)

Versão 2 da capa, com ajuda do designer Thiago Lacaz

É isto mesmo amiguinhos, este blogueiro aqui acaba de fechar com a Editora Patuá o lançamento de seu primeiro livro: “Canções para ninar adultos”, reunindo 22 contos. O livro será no formato de compacto (como os velhos singles em vinil) e os contos serão divididos em Lado A (histórias com pitadas de fantástico) e lados B (contos mais realistas; feios, sujos e malvados). No final do livro, um cardápio irá indicar algumas canções para ouvir durante a leitura. (A seleção vai do rap dos Racionais à música clássica de Dvorák, passando por Rapture, Otto, Bob Dylan e Count Basie). A orelha deve ser escrita pelo jornalista e escritor Xico Sá. Deve sair em setembro, se os ventos do sul continuarem a soprar quentes.

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) (Instant Happiness, in “Canções para ninar adultos”)

Primeira versão da capa pro livro.

Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.  (Gênesis, in “Canções para ninar adultos”)

-Saiba mais sobre o livro no blog oficial

Pra abrir o apetite um miniconto que estará no Lado B do disco, digo, do livro:

Paulo Coelho
Pôde, enfim, dormir tranquilo
– o fatigado alquimista
Quando redigiu seu primeiro fracasso.

Instant Happiness – trecho do livro “Canções para ninar adultos”

Este trecho faz parte do conto Instant Happiness do livro “Canções para ninar adultos”. Compre o livro aqui!

-Outros contos

(…)

Kiko1984:
Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:
Jef – Paranoid Android:
Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

Foto + texto: @freddigiacomo

-Leia e dance

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...