Garoto Alado

asas

por Fred Di Giacomo

Suvenir City era uma cidade pequena, onde novidades voavam com velocidade da luz. Algumas novidades voavam com velocidade do som e outras preferiam voar de avião mesmo. A última grande notícia fora a do menino com asas. Ele era um daqueles tipos estranhos, sempre sozinho no recreio, ruim de bola e grudado em livros. Um dia levantou da cama com um sobretudo preto. Seus pais estranharam. Lembraram-se dos massacres de alunos ocorridos nas escolas americanas. A tal “máfia do casaco”: garotos excluídos pelos colegas vestiram-se com sobretudos negros e abriram fogo dentro da escola. Um horror. Ficaram com medo e o pai preocupado tratou de ter um diálogo franco com o filho:

_ Filho, você está se sentindo bem?
_ Sei lá, pai, estou meio diferente…
_Drogas?
_ Pai, eu nunca nem bebi.
_ Ah, não? Certo… Continua virgem?
_ Pai, eu nunca nem beijei uma menina…
_ Ah, certo. Bem… Você vai matar alguns coleguinhas hoje?
_ Não pai, eu não tenho nenhuma arma. E eu tremo demais. Se fosse matar alguns alunos provavelmente atiraria no meu pé…
_Correto, então acho que está tudo bem. Tome seu café, senão vamos nos atrasar, eu te dou uma carona.

Café com leite tinha gosto de café com leite. Para o menino com asas tinha gosto de angústia. Leite com chocolate tinha gosto de tristeza. E café preto tinha gosto de ódio. Naquela manhã, achou o café com leite muito bom e sentiu um gostinho de luz no fim do túnel bem aprazível para uma manhã nublada. Manhãs nubladas tinham cheiro de nostalgia e forma de velhas fotos preto-e-branco.

Menino alado saiu de casa com sobretudo piche e entrou no carro do pai. Menino alado tinha sentido um comichão nas costas algumas semanas atrás. Menino alado entrou na escola, subiu na caixa d’água e voou alto. Ninguém entendeu. Acharam que eram drogas ou que ele era veado. Chamaram a polícia e os bombeiros. Chamaram o padre e um psicólogo. Chamaram também uma pizza. Meia aliche, meia calabresa como o diretor do colégio gostava. Menino alado voou alto, por entre os prédios de Suvenir City. Via o mundo diferente lá de cima. Cantou What a wonderful world, flutuando sobre dEUS.


O diretor parecia desesperado e gritava para que o moleque descesse. Um promotor veio ver se o menino tinha alvará ou brevê. Multou-o em trezentos euros ou 900 reais. Multou a escola também. O diretor ficou desesperado e arrancou os fios de cabelo da careca. Depois, um juiz revogou a sentença, porque não existia brevê ou alvará para meninos alados. A escola até lucrou um pouco com a propaganda. Muitas crianças achavam que estudando lá iriam sair voando. Tudo isso foi depois, na hora, o diretor careca devorava a pizza meia aliche, meia calabresa, bufando e gritando para o moleque descer. Ele nem escutava, só queria agora a língua dos anjos.

O capitão da polícia ligou para o governador, que preferiu se abster, como sempre. Os políticos estão sempre em cima do muro em questões isentas de benefícios. Quando não se recebe por uma decisão é melhor abster-se. Passaram-se horas e o capitão sem saber o que fazer. Na dúvida, seguiu as ordens do diretor careca.
_Atire nesse moleque, ele é um terrorista, ele é um terrorista!_ Gritava com a boca cheia e as mãos engorduradas. Achava que era um atentado em Suvenir City, como o que vira na televisão: os árabes tinham derrubado duas torres com aviões tripulados, nos Estados Unidos. Quem sabe o menino não quisesse derrubar o coreto ou a fonte com suas asas? Atiraram: seis tiros de pistola, seis de trinta e oito e dois de escopeta. Erraram quase tudo. A polícia brasileira não tem o treinamento específico para acertar crianças com asas. Um tiro, no entanto, varou as asas do garoto… Ele foi caindo em direção ao horizonte, caindo e desapareceu fundido ao sol.

Ninguém sabe se está vivo ou não. Nunca voltou a cidade. E quem por ventura ganha asas as mantêm bem escondidas com jaquetas de couro e sobretudos pretos. Mesmo no verão, que em Suvenir City é bem quente.

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “Garoto Alado” faz parte do seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projeto Glück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

“Não existe racismo no Brasil”

_Não existe racismo no Brasil.
_Em que Brasil?
_No nosso Brasil, pô! Aqui nunca foi que nem nos Estados Unidos, que nem na Alemanha, essas porras todas, saca? Não foi um troço oficial.
_Sei lá, sempre convivi com racismo
_Mas você é branco, cara.
_Por isso mesmo. Sempre convivi com racistas, ué.
_Ih, lá vem papinho de comunista barbudo, ha, ha, ha.
_Lembra quando meu irmão ficou com uma menina negra na festa de RP, na faculdade?
_Não lembro não… Ficou, é? Seu irmão também é bem safadão, né?
_Eu lembro bem. Vocês disseram que ela parecia o Kanu.
_Kanu?!
_Aquele jogador da Nigéria…
_Falamos?!
_Sim, pô, não lembra?
_Ha, ha, ha, nóis é foda… Devia ser baranga também, né? Ah, fala sério, isso já é politicamente correto demais. Não pode falar quando uma mulher é feia? Se fosse branca a gente zoava também.
_Mas não foi só com essa. Quase todas mulheres negras da nossa faculdade tinha apelidos secretos lembra?
_Lembro não…
_Eu lembro bem. Um mais escroto que o outro: Predador, Macunaíma, Aquático…
_Pô, não é bem assim. Olha só, vou confessar uma coisa… Cê já comeu uma neguinha? Eu já. E gostei, viu, velho? Elas pegam fogo lá embaixo…
_ Olha aí, bem o que eu disse.
_Pô, mas tô falando que gostei da negra, porra!
_Cê tá começando com aquele papo de “eu não sou racista, até peguei uma negra…”
_Porra, cara, papinho chato. Daqui a pouco você vai defender cota.
_Sei lá, cara, eu acho que tem que existir cota pra compensar uma política oficial que permitiu que negros fossem escravos por 300 anos no Brasil. Eles não vieram pra cá por opção. E até hoje a vida dos caras é mais difícil. Posso dar um exemplo que vivi?
_Manda.
_Trabalhei como jornalista dez anos, né?
_Claro, puta orgulho, passou pelas maiores revistas do Brasil. Vários prêmios e tal.
_Pois é… E não podia ter negro na capa das revistas.
_Como assim?
_Falavam que não vendia, que o público não se identificava com o negro.
_Ah, duvido, isso é teoria da conspiração, vai.
_Aconteceu comigo, cara, tô falando. Comigo e com meus colegas.
_Pô, mas não é racismo, veja bem, você mesmo disse que o negro na capa não vende revista… O dono vai fazer o quê? Caridade?
_Porra, mas isso é segregação. Só uma raça tem direito de ser enxergada? Desse jeito você cria uma imagem de que só o branco é bonito, só ele é bem sucedido. Jornalismo não é só mais um negócio, como vender tomate ou parafuso. Jornalismo é um serviço que a gente presta pro público, cara. Temos que informar, mostrar a realidade. Selecionando quem pode ou não aparecer em capa de revista, você cria uma realidade paralela, um imagem de que o negro não existe fora das notícias policiais, saca?  E se você não colocar o negro na capa, como vai saber se a revista com ele vende ou não?
_Pode ser, sei lá, eu não manjo dessas coisas cabeça.
_Cara, e não é só uma questão de capa de revista. Fui produzir um ensaio com várias modelos praa um site. Ensaio sensual, saca?
_Ha, ha, ha, cê é safadão, igualzinho seu irmão, né?
_Pô, hoje em dia eu tenho vergonha desse trampo, meio machista…
_Ih…Tô falando que você tá comunista demais? Essa sua namorada feminista tá colocando muita merda na sua cabeça. A gente precisa pegar um puteirinho pra você renovar os ares.
_Porra, se concentra na minha história!
_Manda.
_O fotógrafo selecionou as seis modelos mais gatas da agência. Aí, ele me ligou e perguntou “Tem uma das meninas que é “morena”. Tem problema?” E eu falei “Como assim?” E ele: “Não me leve a mal, eu não sou racista, mas é que tive muito problema aí com modelo negra, sabe? O pessoal não gosta.”
_Por que não vende? Mas não é pra capa de revista…
_Ah, cara, tinha mil desculpas: achavam que era feio, que tinha cara de pobre, que não era sofisticado…
_E você?
_Mandei fotografar, claro. Não conseguiria ficar no trabalho se tivesse cortado alguém só por causa da cor. Aconteceu uma coisa parecida com uma amiga que trabalhava na maior revista do Brasil.
_Pô, é a única revista que eu leio. Essa eu assino e sou fã.
_Então, uma vez essa amiga estava precisando entrevistar e fotograr “populares” pra uma pauta, sabe?
_Sei, sei, pra mostrar o “brasilsão”, né?
_Isso, aí pediram pra ela  assim: “precisamos de um pedreiro pra matéria, mas não pega um preto, tá? Pega um mais clarinho”. Cê acredita nessa instrução? Nem o pedreiro da revista podia ser negro.
_Ah, mas isso deve ser exceção. Dois casos isolados.
_Pô, teve outra amiga minha que fez uma matéria de beleza na mesma revista.
_ E aí? Ela colocou foto de uma negra e ficaram putos?
_Ficaram putos e mandaram ela tirar. Disseram que o público não se identificava.
_Porra, cara, do jeito que você tá falando parece que é mais difícil um negro sair na capa de uma revista do que entrar numa universidade no Brasil.
_ Se bem que nossa faculdade era pública, mas tinha no máximo o quê? Dois negros pra cada 40 alunos?
_Mas era faculdade em São Paulo, né? É um estado mais branco. É uma questão de porcentagem.
_30% da população é negra em São Paulo. 30%, cara.  2 alunos por sala dá só 5%…. É a mesma coisa do meu bairro, lembra?
_Nossa, cara, eu lembro, sim.  Sua casa era da hora, mas o bairro era mó biqueira, dava medo de te visitar lá, ha, ha, ha.
_Então, eu era o único branco da área. E fui o único que fiz faculdade.
_Tá bom, tá bom, eu sei que você gosta de preto. Tua ex tinha até um pézinho na cozinha, né? Ka, Ka. Ka.
_A mãe dela era negra e o pai era branco. Ela nasceu mais clara e o irmão nasceu mais escuro. Por isso o irmão sofria preconceito no condomínio onde eles passavam o verão.
_Jura? Mesmo sendo da mesma família?
_Pois é, um dia eu e ela entramos no elevador do prédio, lá na Fradique Coutinho. Uma senhorinha simpática entrou junto, com os poodles na coleira e falou assim pra gente: “que casal jovem e sorridente. É bom ver gente bonita assim no prédio! Ali no 32 mora uma baianada que só por Deus, sabe? Tudo preto. E ainda acho que são bicha. Preto e bicha? Não dá sabe? Esse povo do norte não tem educação”.
_Pior que teu vô é baiano, né?
_E a família dela era negra.
_Ah, mano, sei lá. Não gosto de discutir coisa séria, manja? Tudo isso que você falou é verdade, mesmo? Por que você nunca falou disso antes? Por que você nunca postou no Face?
_Pô, cara eu bem queria que isso tudo fosse ficção, mas pensa bem, vou postar uma coisa dessas no Facebook? Depois nunca mais arrumo emprego nenhum, né?

-Mais contos

Instant Happiness – um conto sobre a felicidade

O conto Instant Happiness foi originalmente publicado no meu primeiro livro “Canções para ninar adultos”, lançado pela Editora Patuá. Ele pode ser encomendado para todo Brasil pelo site da Patuá.

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Como se estivesse com a cabeça inteira dentro d’água e alguém começasse a tocar realejo na beira do rio.”
Caio Fernando Abreu, Caixinha de Música, in “Morangos Mofados”

A cabeça resistia, afundada nos sulcos cheirosos que marcavam o travesseiro dela. A maciez da cama era o único refúgio para felicidade do mundo. Pensar no futuro o enchia de ansiedade, e ansiedade leva os fracos a trilhar os caminhos do medo. Kiko era fraco, feminino e fixado na ideia de que a a busca pela felicidade era a grande cruzada de sua vida. (Também gostava de Legião Urbana, o que negava veementemente.) Pri (mignon, tatuada, cabelo descolorido) parecia ser uma das respostas para o enigma. Colecionava gatos e projetos de vida. O perfume singelamente adocicado dos sulcos deixados no travesseiro era dela. As fotos coloridas que decoravam a parede eram dela também: o casal sorridente, uma ilustração moderninha, Toulouse-Lautrec, Matisse, gatos e 3 retratos feitas com uma Lomo. A alegria escorria fácil das mãos da menina. Por que as mulheres são assim? Os mesmos hormônios responsáveis por TPM e abstinência de chocolate eram os guias da tranquilidade feminina, mais palpável e espiritual que o materialismo macho?

O mundo apita urgente, surdo aos anseios de Kiko. Queria fazer samba e amor até mais tarde, mas escorrega da cama depois de apertar “soneca” 3 vezes no iPhone. Os olhos, que parecem colados com Super Bonder, enxergam mal o quartinho instalado pertinho da Avenida Paulista. Tinha que trabalhar. Questão de ordem: o trabalho é o imposto que se paga para ser feliz? Um enigma fundamental da humanidade, para ele, era a obrigatoriedade de se trabalhar. Essa questão filosófica ficava lado a lado com as menores “Deus existe?” e “qual o sentido da vida”? Se a gente voltasse a ser índio (peladão, numa mata tropical) ia, no mínimo, ter que plantar e caçar pra não morrer de fome. E ficar peladão numa mata tropical não lhe parecia o sinônimo de diversão garantida. A escapatória escapava de suas mãos finas.

No banheiro apertado, gotas quentes respingavam em seu corpo sem pelos e vapor abundante desentupia as narinas de fumante. O cheiro de sabonete molhado lembrava a infância. A memória gosta de nos trazer fotografias felizes do passado. O velho sempre parece mais pleno que o presente. “Será que dá pra arrumar um emprego que a gente realmente se amarre? Algo pra carregar como uma missão de vida? Meu pai acha que todo trabalho é um fardo. Se fosse bom, não pagavam a gente pra fazer, argumentava ele. Mas, porra, duvido que o Bono Vox tenha depressão todo dia que acorda pra fazer um mega show ou salvar criancinhas africanas.”

Intranquilo, engolia nacos amanteigados de pão umedecidos por leite com Toddy. Saudades do café da manhã turco: queijo feta, pepino, tomate, ovo cozido, azeitonas pretas e pão. “Viajar é a melhor coisa da vida”. Será que ele era incapaz de pensar algo que não soasse absolutamente clichê? “Porra! Nasci loiro de olhos azuis, tenho cidadania européia, sou homem. A felicidade veio tatuada nos meus genes.” Pri já tinha saído pra trabalhar e a faxineira estava atrasada. Sorriu para paisagem da janela. Às vezes tinha medo que um acesso de loucura o arremessasse prédio abaixo, como o Arnaldo Baptista dos Mutantes. (“Eu vou correndo buscar a glóriaaaaa”). Hoje não, hoje sentia-se esperançoso. Era o suficiente para marchar pelo exército de corpos nas ruas, abrir caminho pela carne flácida do mundo e entrar no metrô. O fone de ouvido toca o disco novo do Rapture. Bandas de rock parecem ser a solução instantânea para felicidade. Mas só duram 3 meses. 3 meses é o prazo de validade de um disco nos anos 2000. Isso se ele for bom! Depois disso, ai de nós, temos que garimpar algo novo, em meio a milhares de inutilidades estocadas em sites de download pirata. E, em semanas esplendorosas, somos recompensados por um disco como “In The Grace of Love”, do Rapture (“How deep is your love?”). Ou “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”, do Otto. (“Tem sempre um lado que pesa e um lado que flutua”). E olha que ele nunca tinha gostado de Otto, nem de mangue beat. Mas aquele disco era a dor transformada em música e, como a vacina que converte vírus em remédio, música sobre dor é o antídoto perfeito para sofrimento e angústia juvenil. (“Não precisa falar, nem saber de mim. E até pra morrer, é preciso existir.”)

***

Aliás, caro leitor, você tem algum bom disco pra indicar?

***

h

Madrugada, instante messenger. MSN ou Gtalk.

(…)

Kiko1984:Você acha que por baixo de todo esse néon – todo esse glitter – a gente vai encontrar a felicidade?
Jef – Paranoid Android:Encontrar o q?
Kiko1984:A felicidade.
Jef – Paranoid Android:Ser feliz na vida mesmo, ou tipo descolar cocaína? 😛
Kiko1984:Na vida. Alegria artificial, não. Eu digo, sei lá… To meio bêbado.
Jef – Paranoid Android:Hum… A Pri tá aí?
Kiko1984:Tá sim, tá dormindo atrás de mim. Acho ela mais bonita ainda dormindo… Parece uma foto, saca? Congelada no sono. Dá vontade de ser uma pessoa melhor por causa dela, hehehe.
Jef – Paranoid Android:Então, para de blablabla e liga a webcam…
Kiko1984:Pra q?
Jef – Paranoid Android:Um pouco de descontração: vou mostrar meu grande e belo pa…
Kiko1984:Para, Jef! Vai que a Pri acorda…
Jef – Paranoid Android:Ah, vc bem que curtiu ver esse monumento ao vivo, na loucura de Viena, hein, Kiko? 😉
Kiko1984:Foi só com vc, mano. Para, eu gosto de mulher, para com isso!!!!! Se a Pri acordar…
Jef – Paranoid Android:Acorda nada… Olha pra cá, olha.
Kiko1984:Vai se foder, mano! Vou te bloquear nessa porra. Desiste de me comer, Jef.

Jef – Paranoid Android:Tá bom, tá bom, não precisa ficar putinho, vou voltar a ser o amigo gay comportado.Fala aí da sua grande crise existencial.
Kiko1984:…
Jef – Paranoid Android:Ih, Kiko, você já foi mais leve, hein? Tá precisando voltar a fazer Pilates, querido, assistir um filme bom, bater punheta… Quer que eu peça perdão de joelhos? Olha só, ó: to ajoelhado. E minhas intenções são decentes. Confesso que pequei. Juro, por São Sebastião, nunca mais seduzir um pobre amigo hetero convicto. Serei apenas a bichinha sensível que ouve suas dores e….
Kiko1984:Hehehehe, para, seu tonto.
Jef – Paranoid Android:Ufa, achei que você ia virar um homofóbico enrustido e aparecer na minha casa com uma lâmpada na mão pra arrebentar minha pobre cabecinha genial. Se tomar tal atitude, please, publique o livro que está no meu computador na óbvia pasta “literatura”. O nome é “Instant Happiness” e fala – coincidência – sobre a busca pela felicidade.
Kiko1984:Não viaja, Jef. Pare de escrever merda e presta atenção. Tava pensando aqui. Será que a gente tem chance de ser feliz? Tem o direito à felicidade, mas só não sabe como? Será que a felicidade está passando na nossa frente que nem um patinho numa barraca de tiro ao alvo, só que a gente não consegue acertar? A gente fica viajando que nosso sonhos são muito improváveis e que só grandes coisas poderiam fazer a gente feliz – tipo morar um ano na Europa, fazer um mochilão pelo mundo…
Jef – Paranoid Android:Ou publicar um livro, dirigir um filme, montar um restaurante vegetariano. 🙂
Kiko1984:Isso, as coisas talvez sejam mais simples. Como uma musiquinha fofinha do Little Joy.
Jef – Paranoid Android:Música é vida! Tô com Mika na cabeça hoje. Também é música alegre, neam?
Kiko1984:Às vezes eu olho daqui, da janela do meu quarto, no vigésimo andar, e me dá uma vontade de pular. Tipo um imã puxando pra baixo, pro fim, eu acho…
Jef – Paranoid Android:Pára, Kiko!!! Assim você me deixa preocupado… Parou a terapia?
Kiko1984:Não, não é uma coisa racional. Porque, teoricamente, eu sou feliz. Teoricamente não tem nada errado na minha vida, saca?
Jef – Paranoid Android:Não tem mesmo. Escuta, gato, quem tem que ficar se perguntando se é feliz ou não – pensando em como alcançar a felicidade – é o porteiro do meu prédio. Ele rala. A gente vive num videoclipe, Kiko. A gente SÓ tem motivo pra ser feliz, neam?

Kiko1984:É, é sim…

(…)

Kiko1984:Então, por que a gente não consegue?

15/10/2010 – 15/11/2011

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.

“Gênesis” – conto do livro “Canções para ninar adultos”

Gênesis foi um dos contos do livro “Canções para ninar adultos” que mais me deu trabalho. Espécie de sessão de terapia transformada em fábula, ele fala sobre o tema universal do pai ameaçado pelo envelhecimento e o crescimento do filho que pode tomar seu lugar. Tem óbvias referências à Bíblia e à mitologia grega (Cronos e Urano…) e influência de José Saramago. Foi reescrito diversas vezes, e ainda não me convenci de ter encontrado as palavras certas para narrar a saga de Corisco.  Dá pra encomendar o livro “Canções para ninar adultos” aqui ó.

***

Gênesis
“E Ele disse: Pega agora o teu filho, o teu único, a quem amas, Isaac, e vai à terra de Moriá. E lá o oferece em holocausto em uma das montanhas que eu indicarei.”  (Gênesis, Capítulo 22, versículo 2)

Ninguém contará os anos desprendidos até ali. Não importa. Mirem-se naquele ponto cinza aproximando-se contra a luz. A figura que caminha em nossa direção é a do velho pai. A brancura de sua barba já não pode ser disfarçada; suas costas curvam-se sutilmente e os olhos traem a percepção. Ele não sabe, mas está prestes a iniciar a nossa saga.

No tempo que observamos agora, o senhor (vamos chamá-lo alegoricamente de Abraão1) tinha cinco filhos. Dois haviam saído de casa e habitavam o velho continente. Um terceiro, casado, era pastor na região das montanhas. Os mais novos acabavam de ser convocados, numa estrondosa explosão paterna, a adentrar, um de cada vez, a sala principal da ampla cabana. Naquele vagaroso dia de verão, a natureza ignorava a agitação humana. Cada folha despencando das árvores esperava uma eternidade para alcançar o solo. Os gritos desesperados do filho de dentro aterrorizavam o filho de fora. Com voz firme, Abraão chamou o segundo: — Vinde, semente minha, não hesites em obedecer-me.

Zeneu engoliu em seco e entrou. O cômodo escuro estava iluminado por aromáticas velas desgastadas que disfarçavam o cheiro de sangue fresco. Pitágoras, encolhido num canto empoeirado, chorava baixinho. Zeneu não percebera, mas, assim como sucederia com ele minutos depois, o pé de Pitágoras tinha sido esmigalhado.

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***

O canto ingênuo dos pássaros não combina com o choro pesado dessa mulher que vocês enxergam no interior da cabana. Ela acaba de descobrir a tragédia que tatuou suas crias. O nome com que os pais da matriarca batizaram-na foi Ariadne. Seus filhos estão aleijados e tentam adaptar-se à dolorosa condição. Abraão parece ter rejuvenescido anos. Sai sempre na frente da prole: para arar o campo, para ordenhar as vacas, para pastorear ovelhas e para caçar o tempo perdido. Zeneu e Pitágoras esforçam-se para acompanhá-lo. É-lhes indecifrável o súbito acesso de violência paterna. Por que Abraão emergira em crueldade naquele dia banal? Ainda nos é desconhecida a resposta. Por mais que o pai gritasse, ralhasse e humilhasse as crias, nunca mais encostaria as mãos em Zeneu ou Pitágoras. Suas próximas vítimas habitam dias futuros. Rejuvenescido, o patriarca procura Ariadne todas as noites para espalhar suas sementes. O desejo transborda do corpo e faz com que ele namore bananeiras, cabras e esposas maduras. Nunca mulheres virgens, nem jovens, nem solteiras. Não quer filhos de outros ventres, e do ventre de sua mulher só saem rebentos marcados. Ao acordarem para a vida, os pequenos têm o pé esquerdo estraçalhado. São já sete aleijados em idades diversas e, por mais branca que sua comprida barba fique, Abraão sente-se forte como nunca. Carrega toras de madeira nos ombros, cavalga alazões selvagens, enfrenta serpentes sorrateiras e faz-se temido por todos os pequenos deformados. Nunca foi violento com nenhum depois de tê-los “batizado”. Esse batismo ocorre assim: cada criança parida por Ariadne é arrancada, ainda aos berros, pelo pai, que esmaga o pequeno e rosado pé com um martelo dourado. Herança paterna assegurada, o cordão umbilical continua inteiriço, até que a mãe tenha forças para rompê-lo. O nome do descendente é dado antes da aplicação do castigo preventivo.

***

Dias correm sem que se faça importante descrevê-los. Por todo o inverno nenhum viajante se aproximou da casa. Depois de vasta solidão, a primeira conhecida a visitar a família foi a Tragédia. Era tempo de plantar sementes e germinava no ventre materno o pequenino Plutão. Plutão nascera anêmico, torto dos ossos e com membros atrofiados. Seu choro era um fiapo, um discreto miado que pouco se ouvia. Prevendo o pior, Ariadne, que tivera as forças sequestradas pelo parto, balbuciou misericórdia: — Por favor, meu marido, por favor, meu senhor… Este, não. O pequeno não vai aguentar. Seu corpo é tão carente… Um golpe do martelo vai levá-lo para sempre… Pelo nosso amor, eu lhe imploro…

Abraão contempla a triste figura profundamente. O pequenino não parece grande ameaça, mas quem conhece os caminhos que o futuro reserva para Plutão? E, se hesitasse, o que pensariam de sua fraqueza as demais crianças? Perceberiam-no débil? Reconheceriam-no senil? Não podia confiar no acaso. Firme, mas com coração pesaroso, esmigalha a perninha de Plutão. O enterro da criança se dá no mesmo dia.

A mágoa de Ariadne faz com que ela se negue a deitar-se novamente com o marido. Nem a privação de comida, nem as surras e castigos convencem a esposa a voltar para o leito do patriarca. Em um lampejo de violência, Abraão recorre à autoridade de seus músculos, mas desiste quando encontra, nos olhos da amada, o ódio amaldiçoador das mulheres seviciadas. O que Ariadne espera dele? Não pode mais abrir mão de seu ritual. Sem ele, perderia o segredo da sua juventude, e os pequenos diabinhos reinariam sobre o casal original, saltitando léguas a sua frente, tomando conta da casa e conhecendo terras e pessoas com as quais os dois jamais poderiam sonhar. Não, nada feito; o mundo não deve insistir em rodar.

Eu preciso da vida dos meus filhos, Abraão. Quero que eles tenham sua existência garantida, mesmo que aleijada. Não quero enterrar, nunca mais, um pedaço meu.

Nos primeiros suspiros da madrugadora aurora, Abraão sai em direção à pradaria, sozinho e pensativo. Lá, medita à base de ervas e água do orvalho. No sétimo dia, pode retornar a casa iluminado. Os filhos terão sete anos para ficar fortes e nutridos – e então se tornarão homens completos. Tirando o excesso de alegria dos olhos daqueles demônios, Abraão espera prepará-los para o fardo da vida real. E evita que andem por caminhos que suas pegadas não tenham marcado ainda.

***

O pai já cruzava a faixa dos 70 anos quando desposou Helena, jovem viúva de seu filho Menelau. Menelau era estéril e morrera sem deixar descendentes. Fazia parte da tradição tribal que o irmão mais velho desposasse a viúva e garantisse sucessores para o morto. Mas reparem em Helena; sintam o cheiro de mel vindo do seu corpo, percebam a pele sedosa feita de pêssego, os seios firmes como seu caráter e o verde do oceano represado em seus olhos. Helena brilhava, sim; brilhava e irradiava juventude. Isso era o suficiente para que Abraão a tomasse como mulher, alterando o código dos antigos. Agora o mais velho da família deveria desposar as viúvas, contanto que suas sementes ainda fossem férteis. Corria, pelas redondezas do vilarejo, o boato de que Abraão já não podia efetivar sua descendência. Ariadne não lhe dava filhos havia três anos. Fiel, a mulher havia gerado, em seus 60 anos de vida, 27 rebentos para Abraão – 22 aleijados, dois mortos e três, os mais velhos, exilados pelo medo do castigo paterno. As mágoas e os anos vividos faziam-na sentir o ventre endurecendo. Os sangramentos já não vinham visitá-la e o viço abandonara sua pele ao apetite faminto das rugas.

No céu escuro, a lua esconde-se, solidária ao sofrimento daquelas mulheres. Dentro da cabana, Abraão conduz Helena pelo braço. A jovem castanha tem os cachos enfeitados com uma coroa de flores brancas. Um vestido de linho fino toma emprestada a beleza de seu corpo, que treme de medo. Abraão ordenou a Ariadne que fosse dormir no quarto ao lado, com os filhos mais novos; poderia retomar seu lugar na segunda-feira. Agora os finais de semana ficam guardados para Helena. Acabado o domingo, a anciã deve trocar os lençóis manchados de amor e voltar ao posto de matriarca. Com os olhos umidamente salgados, a companheira de Abraão assente calada. Não pode olhar no rosto da antiga nora quando a vê passar em direção ao quarto. Sente um misto de humilhação, inveja e pena. Cerra a porta do quarto e não consegue dormir a noite toda, atormentada pelos gemidos regozijantes do velho tigre que reencontrara, no final da vida, o prazer pela caça.

São necessários três meses desse novo ritual para que Helena se encontre prenhe. De seu ventre, fecundado pela seiva do grande pai, floresce o descendente do morto Menelau. Chamam-no Corisco e sua chegada é anunciada por um estridente cantar de pássaros, aparentemente animados com o radiante céu que se firma ironicamente sobre a tragédia.

***
Corisco não foi criado como o restante da prole de Abraão. Seus privilégios brotam do ódio que Helena carrega por submeter seu filho às regras estabelecidas pelo ex-sogro. Casara-se com Menelau livre de tais obrigações. Agora angustia-se, procurando saídas para mudar o destino da criança. De seu charme e cheiro suave fez uso para convencer o amante de que Corisco seria um ano e meio mais novo. Assim pôde adiar a data do castigo. Tantos partos seguidos naquela casa e a idade avançada do ancião ajudaram na sustentação da farsa.

O caçula da tribo tem olhos azuis quase transparentes, cabelos loiros crespos e pele avermelhada. Más línguas dizem que o menino lembra um pequeno macaco albino. É, porém, extremamente astuto e aprende com rapidez. Cantando, ajudando nas tarefas domésticas e pedindo conselhos procura agradar o velho pai. Seus irmãos invejam-no, mas optam por não entregar a verdadeira idade de Corisco. Além da lealdade fraternal, sonham que ele liberte os demais da tirania instalada. Talvez repouse em suas pequenas mãos a salvação de toda aquela gente.

Num anoitecer qualquer, enquanto brinca no quarto, Corisco escuta Abraão sussurrando com Ariadne.

Feições de homem têm se fixado nas formas juvenis de Corisco. Não adianta a bela Helena insistir na ladainha de que o garoto vive os seis anos de idade. É tempo de apresentá-lo a meu martelo.

Abraão, meu marido, tens deixado a jovem ninfa assumir o controle de tuas ideias. De que adianta tu seres a cabeça, se ela é o pescoço que decide para onde vais olhar? Nenhum de nossos filhos teve os mimos dos quais esse mico branco goza.

Tuas palavras foram embebidas no ciúme, mulher. Não sejas tão áspera com Helena! Tu invejas sua beleza e os finais de semana que ela passa em nosso leito.

Compreendo que eu não possa mais ser o jardim onde florescem tuas sementes, mas não queria que tu te lambuzasses com ela em nossos lençóis…

Pares de resmungar, velha esposa. Poupa-me de tuas lamúrias e vá apanhar meu martelo!

Desesperado, o pequeno Corisco procura uma escapatória que modifique seu destino. Seus olhos ziguezagueiam, ligeiros, por todos os cantos da casa até estancarem na janela. É através dessa abertura rústica que ele avista o grande penhasco. Sua face ilumina-se.

Sorridente, o menino convoca o patriarca para correr com ele até o desfiladeiro. Carinhosamente trepa em suas costas largas e cobre a velha calva de beijos. Helena olha para os dois e sorri esperança, desejando que o carcomido coração de Abraão amoleça. Abraão inveja a velocidade com que Corisco pisa a relva verde. O pequeno risco vermelho dispara diante da íris cansada daquele homem velho que aleija os próprios filhos. Verde, vermelho. Verde, vermelho. Verde, vermelho. O corisco infantil rola na grama camuflando-se na pradaria. De repente, desaparece. Abraão estanca e coça a barba. Um gemido alto vindo lá de baixo faz com que corra até o limite do penhasco. Um frágil risco vermelho agoniza no solo.

Pai, tu que me deste a vida, acode-me, por favor. Não posso mais sentir as pernas.

cronos-goya-devorando

***

Os dias passam na cama para Corisco. De lá, ele vigia a janela, as ovelhas e o pai. Os irmãos solidários visitam-lhe o leito, mas alegram-se por dentro: “Corisco achava que escaparia do castigo; agora, no lugar de uma perna, perdeu as duas”. Helena culpa-se silenciosamente e morre em segredo. O destino havia perseguido sua pobre criança e a punido em dobro. Abraão sente-se aliviado. Prefere quando a natureza age como sua aliada.

Secretamente, Corisco planeja fuga. Havia simulado o acidente para ganhar tempo. Em raras madrugadas, testa os pés em corridas pelas pradarias escurecidas, mas prefere não arriscar-se. Teme que as estrelas o denunciem. Aproveita-se da situação de vítima: anda de cavalinho nas costas dos irmãos pernetas, rouba nacos de carne do prato do pai e inferniza a velha Ariadne com manhas e choradeiras. Só teme pela saúde da mãe. Sabe que ela suicida-se diariamente, angustiada pelo sofrimento do filho, e isso o impede de manter aquela farsa ad infinitum.

Numa noite sem lua, fugiu para parte alguma.

***

O que irritava Corisco é que seu corpo insistia em não crescer. Já rodava pelo nada havia um extenso tempo. Tinha trabalhado como pastor nas redondezas, atuado como anão albino num circo e procurado seus irmãos mais velhos no continente. Calculava que haviam corrido cinco aniversários seus. Devia ter, então, dezesseis anos. Nenhum pelo cobria suas partes ou sua face. Nenhum centímetro seu corpo esticara ao longo de toda a viagem. Temia que a dieta pobre e as privações o tivessem retardado, mas não fazia sentido. Lembrava que os irmãos aleijados também não haviam progredido muito. Os esmagados logo ao nascer pareciam, todos, velhos anões – pequenos e impotentes. Os castigados depois dos sete anos eram gordos e flácidos, com traços femininos e pouca fibra a modelar os músculos. Menelau fazia parte dessa leva e não conseguira implantar um filho sequer na jovem Helena. Apreensivo, Corisco pensou muito à beira de um rio, sozinho, em terras estrangeiras. Haveria de rodar incompleto por todo canto, caso não convencesse o centenário Abraão a libertar seus filhos. Sem muita convicção, seguiu mais de um ano em travessia que o levaria de volta para casa.


***

Era costume da gente de Abraão refletir olhando para o rio, mas o patriarca não fazia mais isso com medo de reconhecer sua velhice refletida nas águas. De volta à tribo, Corisco passou bom tempo observando a família a distância, até que tivesse uma oportunidade de convencer o pai de que os filhos precisavam andar completos.

Estamos agora numa tarde tristemente temperada. Pressinto que o final da saga que narro se aproxima. Abraão, observado por Corisco, lamenta-se de costas para o rio. Choraminga a morte de Helena, falecida há um ano de saudades do filho. As lamúrias de Abraão machucam as forças de Corisco. Achava que poderia viver próximo à mãe, mas descobre-se órfão. Entra nas águas e nada até o pai. O barulho do mergulho seco chama a atenção do velho carrasco que, distraidamente, olha para o rio. Alegra-se ao reconhecer seu rosto tão jovem no reflexo. “A boa Helena deve estar orando por mim no paraíso: veja como minha face mantém-se rija com o passar do tempo”. A imagem de Corisco sob as águas alimenta a vaidade patriarcal. Subitamente, o filho puxa a cabeça de Abraão em direção ao rio. Surpreendido, o homem deixa-se arrastar. Corisco queria apenas vingar a mãe e os irmãos, afogando o algoz ancestral, mas se choca ao perceber que, naquele momento, pela primeira vez em sua história, abraça o velho pai. Os dois corpos de homem se entrelaçam e, num paternal movimento, misturam as gerações.

Nunca poderemos saber se pai aninhava filho ou se filho aninhava pai. Choravam tanto que suas lágrimas abundantes poderiam fazer o rio transbordar-se em mar.

***

O dia se acabava num céu amplo e alaranjado que aos poucos se apagava – escuro. Das águas lodacentas da tristeza, levantou-se o primeiro homem inteiro a enxergar aqueles tempos novos.

29/11/2011 – 0/12/2011

1 Abraão, do hebraico Abhraham, que tem semelhança sonora com ‘Ab Hamôn, “Pai de Multidão”.

Fred Di Giacomo mora em Berlim e é autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais. Ele trabalhou por sete anos e meio na Editora Abril como editor-chefe dos sites do Núcleo Jovem e toca na Banda de Bolso.

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

3 fábulas chinesas saídas das quebradas

1.

O Bola se achava o maioral da quebrada porque controlava a maior parte das biqueiras da Vila. Um dia ele se assustou ao ver o franzino Mãozinha com a morena mais linda do culto. “Como é que aquele cara tão desmilinguido (e sem uma mão!!!) podia andar com uma deusa daquelas?” Bola era mais forte, mais bonito, mais valente e melhor de futebol que o Mãozinha. Ele infernizava o rapaz desde pequeno – aquela afronta não podia ficar assim.

Bola decidiu que iria conquistar a morena mais bonita da quebrada pra ele. No primeiro dia, Bola levou flores pra morena, mas ela disse não. No segundo dia, Bola levou chocolates pra morena e ela disse não. No terceiro dia, Bola levou um pequeno colar pra morena e ela disse novamente não. Irritado, o rapaz não teve dúvida: forçou a pobre morena a satisfazer-lhe as vontades ali mesmo, na casa do Mãozinha.

Bola sentia-se seguro violentando a mulher do aleijão porque sabia ser mais forte e mais valente. Ele não sabia, no entanto, que o Mãozinha chegaria mais cedo naquele dia, nem que o maneta seria corajoso o suficiente para descarregar o trezoitão em sua cabeça gorda. Seus miolos espirraram na parede, no exato momento em que seu prazer espirrava de seu corpo suado.

Bola esqueceu que ele – apesar de valente, bonito, forte e bom de futebol – não tinha o peito de aço.

2.
Galeguinho gostava de fumar um do bom pra ficar chinesinho. Enquanto seu amigo Larica dizia que o mato lhe deixava louco, Galeguinho achava que ficava mais inteligente. “A fumaça na cuca é um anabolizante para os neurônios”, pensava ele.

Um dia, Larica tomou chá de cogumelo e contou pro Galeguinho que o efeito era cem vezes mais forte que o do causado pela maconha. Isso deixou o  jovem ambicioso muito animado: “Ficarei cem vezes mais esperto bebericando esse chá!”.

Depois da chuva vem sempre o cogumelo de Zebu, e Galeguinho se fartou do psicodélico chá. Em seu sonho maluco, Galeguinho sonhou que era uma borboleta voando pelos campos da China. Quando acordou, Galeguinho não sabia se era o Galeguinho que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Galeguinho. Talvez a borboleta fosse o Galeguinho! E talvez o Galeguinho fosse a borboleta!

O rapaz acabou no manicômio judiciário de Franco da Rocha.

3.
O cabo Du sempre pedia uma coxinha e um pastel na venda da Dona Isabel. Dona Isabel – que tinha 5 filhos e era viúva – explicava que não podia vender fiado, mas o policial prometia proteção em troca da boquinha grátis. Num dia ensolarado, 7 moleques da turma do Vandinho entraram na venda da Dona Isabel e levaram tudo. Desesperada, a pobre viúva foi pedir proteção para o cabo Du.

“Sinto muito, Dona Isabel, mas a turma do Vandinho tem as costas quentes. Não posso fazer nada. Na próxima, eu adianto o teu lado.”

Dona Isabel assentiu, humilde, com a cabeça preenchida por cabelos brancos. Na próxima vez que colou na vendinha, o cabo roliço devorou seu pastel de frango com goles gordos de guaraná Super Plá e deixou a coxinha pro final. O crocante surpresa da delícia salgada era caco de vidro moído que encheu a goela do cabo de sangue e rasgalhou-lhe as tripas, mandando-o embora de rabecão.

Na hora da agonia, o polícia rezava e implorava para que Deus o salvasse, mas nosso Senhor fingiu-se de besta porque aprendeu há anos que não se deve dar moral aos mentirosos e vacilões.

Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie – conto

Essa versão atualizada de “Jazz: Vontade de matar ao som de Count Basie” foi publicada originalmente no livro de contos “Canções para ninar adultos“, de Fred Di Giacomo, lançado pela editora Patuá no final de  2012. A história faz parte do lado B do livro.

O gênio do jazz Countie Basie

“Sangue fresco tinha gosto de Bourbon”. Gostava de lamber o sangue depois de matar. Fazia-o lembrar de suas raízes animais. Depois poderia voltar a ser o “homem bom”. Depois poderia voltar a ser Humano. Irritava-o fingir no imenso teatro de mentiras que é a vida. Na peça da sua existência representava um cirurgião-dentista. Queria ser médico, mas o vestibular era muito difícil. Queria ser médico, gostava de sangue. Isso se via logo de cara. Lambuzava-se. Deixou vinte e cinco reais no quarto, beijou a boca da puta e foi embora.

As ruas de São Paulo eram imundas e cheias de gente feia. Pessoas com cara de cocô, pareciam montes de merda ambulante. Pelo menos estavam em paz com os animais internos. Corja de assassinos e ladrões arrastando-se pelas sarjetas. Queria estar em Porto Alegre… Uma loira fenomenal do outro lado da rua. Cara de safada. Óculos escuros, batom vermelho, salto alto. Vestidinho sacana demarcando a bunda. Pernas fabulosas e seios vulcânicos. Silicone. Brasileiras não têm peitos daqueles. Talvez seja gringa. Não, as gringas não têm uma bunda daquelas. Meu Deus, como rebolava!

Odiava silicone, tinha gosto de plástico. Gostava de rasgar a carne na boca e sentir as hemácias explodindo com o contato dos dentes. Era um sádico – tinha vontade de estuprar a loiraça ali mesmo, no meio da rua. Encostá-la na parede, rasgar sua calcinha e currá-la no meio da multidão com cara de cocô. Essa ideia passava pela cabeça de metade daqueles “homens bons”. A maioria deles estupraria uma dona daquelas se a sociedade não os jogasse atrás das grades por isso. A maioria rezava para que acontecesse uma guerra ou o fim do mundo para estuprar as mulheres que nunca iriam comer.

Nosso amigo: baixo, magro, brasileiro de nascença, óculos quadrados, aros negros. Nosso amigo: ser humano do sexo masculino, cirurgião-dentista. Nosso amigo: R.G. 43.466.247-9. Nosso amigo era um cidadão respeitável. Sua mulher chamava-o de “chuchu”. Sua filha dizia que ele era o “melhor pai do mundo”. A empregada dizia que ele era justo e respeitador. Mulata sacana! Transava com todos aqueles negros, pobres e nordestinos, tinha uma porção de filhos a parideira, uma bunda gigante e ele ali segurando os testículos para não enfiar-lhe por trás quando ela estivesse abrindo o forno ou esfregando o chão de quatro. Suava só de pensar. Teve uma ereção. A loira entrou num cabeleireiro chique. “A LOIRA” entrou num cabeleireiro chique. AQUELA LOIRA FENOMENAL, OBRA PRIMA DE DEUS, entrou num cabeleireiro chique. Devia ser ricaça, a vagabunda! Uma loira daquelas se casava com quem ela quisesse. Não precisava trabalhar nem se prostituir várias vezes. Bastava vender a alma para um velho brocha… E rico!

O nosso amigo tinha problemas de ereção. Com a mulher não conseguia nada há um ano; suspeitava que ela tivesse um amante. O eletricista ou o velho amigo de nosso amigo, Marcos. Não importava! Alguém estava comendo a Márcia e não era ele. Com as outras gozava rápido demais, tinha fimose. Queria ficar mais tempo para elas não irem embora tão rápido. Queria transar gostoso, para depois ganhar um abraço carinhoso e poder dormir de conchinha. Mas elas nunca gozavam, fingidas, mulher que não goza fica mal-humorada e arruma um amante. Eram as leis da vida. Por isso queria estar em Porto Alegre, tinha visitado a cidade apenas uma vez, mas lhe parecia um bom lugar. Agradável. Gostava de imaginá-la como Pasárgada. Sem negros com paus enormes comendo suas mulheres, só um negrinho que tocava piano e cantava jazz. Lá num barzinho gaúcho. Montes de bichas moderninhas, artistas intelectuais e ele, o último dos homens comuns. Homo sapiens sapiens heterossexual, espécie em extinção. Tomando Black Label pela primeira vez após trinta anos de trabalho fixo e carteira assinada. O negrinho até que tocava bem: Count Basie, Benny Goodman. Um baixista o acompanhava, tocaram uma do Mingus. Sim, Charles Mingus, seu moleque ignorante! O rei do contrabaixo! Aqueles moleques e veados não conheciam nada. Ouviam as notas para parecerem bem cool, mas não viam a hora de aquilo acabar para correrem para casa e escutarem um pouco de rock‘n’roll. Ou rap! Ou algum ritmo novo e sem alma. Ou qualquer merda que esses jovens enfiavam em nossos ouvidos achando que era arte. A arte morreu com o último romântico. Hoje só existiam barulho e velhos broxas, lentos demais para seu tempo.

Pegou um ônibus, depois o metrô. Nem os dentistas ganhavam bem naqueles tempos de crise nas infinitas terras. Aliás, alguns ganhavam, mas ele não, era o clássico exemplo de classe média em queda livre, que já tinha descido pra classe média baixa e continuava despencando. No ônibus tinha um cara enconchando uma morena de bunda enorme. Não parava de se esfregar na mulher, aproveitando-se da superlotação, do balanço do “busão” e da falta de cavalheirismo dos homens sentados. Às vezes o nosso amigo queria dar lugar para uma senhora, mas não sabia como fazê-lo, não tinha iniciativa. Ficava pensando no que falar e, quando se dava conta, já era seu ponto e tinha que se levantar de qualquer jeito. A morena desceu com uma mancha na calça jeans, e o tarado tinha um sorriso de satisfação na cara. Bastardo! No metrô um velho segurava a Bíblia sagrada e disparava a palavra de Deus como se fosse receita de bolo ou aula de ginástica em academia. A gente não deveria ficar velho, era cruel demais. Deveriam matar a gente antes… Tinha um negro lá no fundo. Com cara de suspeito. Nosso amigo passou a carteira pro bolso da frente e segurou firme. Era um cirurgião-dentista prevenido.

Enfim em casa. Cheiro de comida fresca e perfume barato da mulher. A menina brincava em frente à TV. Beijou a mulher. Comeu, tomou banho, mandou a menina ir para a cama. Assistiu ao telejornal. Pensou na vida. E pensou que a morte já não era tão má, àquela altura do campeonato. A mulher disse que ia se deitar. Gelou. Queria estar em Porto Alegre. Passou a mão no seu peito e perguntou se ele não iria com ela. Falou daquele jeito que só a “nossa mulher” sabe falar. Talvez ela não tivesse um amante. Ouviu um “naipe de metais” alto. Devia ser o Count Basie tocando pra ele. Ligou a vitrola, colocou um vinil do Nat King Cole. Fazia tempo que não dançavam. Apertou-a forte contra o peito. Ela riu, estava feliz. Bonita. Nem parecia que tinha quarenta e cinco. Como era linda! E tinha cheiro de felicidade. Foram para a cama, com vinte anos a menos de idade. Apagaram a luz, escovaram os dentes. Fizeram todas as preliminares, sem sacanagem. Só com amor.

Brochou. Como sempre.

Ela disse que não tinha problema. Quando nosso amigo fechou os olhos, ela começou a se tocar. Tinha um amante, com certeza. Ele queria estar em Porto Alegre.

Hoje, no começo do dia, tinha provado aquela xota cheia de sangue de menstruação. Um dia iria matar de verdade. Até lá, tinha que reconquistar sua mulher. Tocava jazz na sua cabeça. Uma big band liderada por Humphrey Bogart. Estaria sonhando? Casablanca. Fitava sua mulher e dizia: “Estou de olho em você, garota”. Sublime. Como diziam os Ramones: “Hoje seu amor, amanhã o mundo”.

20/02/05, ouvindo Count Basie.

Para ler ao som de: “One o’ Clock Jump”

Veja também:

-Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê

-Leia “A Ilha” conto do livro “Canções para ninar adultos”

-Assista entrevista com Fred Di Giacomo, autor de “Canções para ninar adultos”

Joguei meu iPhone nas águas sujas do Tietê – conto

um conto de Fred Di Giacomo, publicado no livro “Canções para ninar adultos” (Editora Patuá)

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era o que eu tinha que fazer.

***
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— Você foi feliz?
— Como assim, Alex? Pergunta estranha…
— Não, vô, queria saber se você foi feliz, de verdade. Se sua vida valeu a pena.

Meu avô era um self-made man. Eu era um bundão. Ela tinha saído do sertão do Ceará, trampado como porteiro, peão, engraxate, estudado engenharia, passado em concurso público, ganhado dinheiro, criado os filhos, comprado dois apartamentos (um na praia, claro) e uma dezena de carros e pagado as contas de todos os almoços da família. TO-DOS. Porque meu pai não tinha grana. Ele era formado em sociologia e trabalhava em ONG. E isso tinha sido a grande luta da família desde que eu me entendo por gente. Meu avô era um cabra ferrado na vida que ganhou dinheiro. Meu pai era um cara que perdeu dinheiro. Pra ser feliz. Mas agora estava decepcionado. Trabalhar com menor abandonado não é fácil. Eu sei, eu o vi chegar a vida toda esmagado em casa, fazendo dívidas, se atolando no cartão de crédito e, muitas vezes, ele fazia tudo isso para tentar ajudar quem não queria ser ajudado. As histórias eram tristes:

— Essa semana a Rota aprontou de novo.
— Rodrigo, precisa desses assuntos na mesa? – minha mãe achava que na hora de comer não devia se falar de fofoca, doença ou tragédia. Era uma mulher sábia.
— Foi uma execução sem motivo. Pegaram seis moleques, lá no centro. Os seis cheirando cola, benzina, alguma dessas químicas. Os policiais fizeram a molecada beber tudo. E depois ficaram esperando pra ver a pivetada estrebuchar. Teve um que demorou pra apagar. E aí eles botaram no carro e ficaram dando volta com ele, até morrer. Os comerciantes da área acharam certo. Na verdade, essa era a piada do dia.

***
De volta ao almoção de domingo na casa da minha avó. Macarrão, frango, Coca-Cola e doce-de-leite.

— A vida foi boa comigo, Alex. Eu comprei carro, casa, e, se não tivesse feito o que fiz, não tava podendo ajudar seu pai.
— Eu sei que o senhor foi bem sucedido, vô. Tô perguntando se o senhor foi feliz. O senhor fez o que queria da vida? Hum… Não “da vida”. Fez o que queria “pra vida”?
— Se a gente faz o que quer da vida, morre de fome, menino. Olha o seu pai… Eu falei pra ele cursar engenharia, sabia que ninguém vivia de fazer ciências sociais. Isso é hobby de rico. Mas ele não me escutou, agora tá aí…

Eu devia ter defendido meu pai? Sei lá, acho que isso quis dizer que o vô não era feliz. Eu não era feliz. Eu tinha momentos de felicidade. Li numa entrevista na revista Trip que a felicidade é uma distorção de humor, assim como a tristeza. Que o melhor é ser sereno. Eu acho bom ser sereno, tranquilo. Mas prefiro ser feliz. Tentar ser, pelo menos.

Todos meus amigos estavam tentando ser felizes. Mas o mais próximo disso que conseguíamos alcançar era ficar bêbado, mesmo. Por isso todo mundo – os manos e os hipsters – gostavam da música nova do Criolo. Ela dizia: “Os bares estão cheios de almas tão vazias”, e também dizia que não existia amor em SP. Eu tinha escrito antes num verso: “São Paulo, eu queria te abraçar”. Acho São Paulo a cidade mais incrível e mais triste do mundo. Parece uma musa banguela. Uma prostituta por quem o freguês se apaixona e insiste em querer tirar da vida. Eu sempre gostei de mulheres tristes. Tristes e loucas. Eu queria tomar conta delas e queria que elas tomassem conta de mim.

— Entendi, vô. Eu acho muito importante o que você fez. Sua história é bonita, mas… Eu tava pensando na minha vida…
— Não pensa não, filho. Pensar não enche barriga de ninguém.
— Alex, para de ficar tão preocupado e come mais. Nunca vi meu netinho tão magrinho… Você sabe que a vó te ama, né, filho?

Minha avó parecia feliz. Até que começaram a aparecer os primeiros sintomas do Alzheimer. Isso foi despertando o lado mais cruel dela. Uma raiva forte do meu avô, que nunca lhe deu muita atenção, nunca estava em casa, nunca tinha tempo para o filho. Mas teve tempo para arrumar amante, né? E ela ali, sempre tão fiel, sempre tão correta…

E meu pai? Foi feliz? Não sei, não tenho coragem de perguntar ao velho. O que sei é que ele foi um idealista, um exemplo, e agora chora porque teve que cortar seus canais de TV a cabo. Todo mundo vai querer comprar roupas boas quando ficar velho? Não faço ideia; hoje o buraco que carrego não é esse. Um colega de trabalho queria muito dirigir um filme, mas tem medo. A outra queria viajar por seis meses pelo mundo, mas tem medo também. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que vai conseguir. Eu sinto falta de fazer algo relevante. O que eu posso fazer para melhorar o mundo, sem virar um político feladaputa ou um pregador messiânico? Às vezes parece que a única opção para viver bem é fazer propaganda de sabonete e margarina.

Nessas propagandas, as pessoas sempre são felizes.

***

— Alex, isso é muito chato.
— Por quê, Sabrina?
— Porque é muito duro, muito sujo. Poesia é muito brega.
— Ha, ha, ha. É mesmo. Ninguém lê poesia.
— Lê o que então, Jeferson?
— Pô, conto. Sei lá, coisas mais bem-humoradas.
— É, Alex, o Jeferson falou uma coisa que é verdade. A arma da nossa geração é o humor. A revolução vai vir dos memes e dos tumblrs.
— Se você for ver, Alex, hoje em dia quem manda no mundo são os blogueiros. Não tem mais esse negócio de Globo, Abril….
— Porra, a internet mudou tudo.

(Mudou?)

— Sei lá, vocês devem estar certos. Acho que tô bêbado.

***

Um resumo nada empolgante da vida deste cronista até aqui: nasceu pobre. Bem, pobre não. Classe média baixa. Estudou muito. Fez uma boa faculdade. Começou a trabalhar. Ganhou dinheiro. Subiu alguns degraus na vida. Trabalha em algo que não faz sentido pra ele. Mas paga iPhone, viagem pra Europa, cerveja artesanal, balada descolada. Na Europa, viu um grafite no banheiro: “Capitalism is dead, sent from my iPhone”.

Sentiu-se, ele também, um rebelde de iPhone.

***

Não sei para onde vou, mas hoje pedi demissão do meu emprego. Minha chefe me chamou de imaturo, disse que a geração Y não aguenta o tranco. Que o que eu estava fazendo era coisa de riquinho mimado. Que desse jeito o Brasil nunca iria pra frente mesmo. Eu sorri para ela. Não sabia por quê, mas me sentia terrivelmente bem e leve.

Como não me sentia desde o dia em que fiz um crachá naquela multinacional.

***

Joguei meu iPhone no meio das águas sujas do Tietê. Era o que precisava ser feito. Era que eu tinha que fazer.

Para ouvir ao som de:

Leia também:
-Assista entrevista com o escritor Fred Di Giacomo falando sobre “Canções para ninar adultos”
– Leia o conto “Sexo virtual, pop e desencontros”
 -Leia o conto “Preto no Branco” sobre um palhaço triste e pobre e sua musa indecisa

“A Ilha” – um conto do livro “Canções para ninar adultos”, ilustrado por Sabrina Barrios e escrito por Fred Di Giacomo

por Fred Di Giacomo

Eu escrevi  “A Ilha” em 2005, quando estava na faculdade. Tive a ideia central pro conto deitado na cama, um pouco antes de pegar no sono. Originalmente ele faria parte de um livro que chamaria “Amor em Tempos de Aids” e acabou dando origem ao “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá. “A Ilha” é uma pequena fábula sobre amor, controle, desejo e utopia – influenciada pelo mestre Saramago – e é também um dos contos que acabou me dando a ideia pro título do livro, um dos que se encaixa no conceito de “conto de fadas para adultos”.

As ilustrações foram feitas pela minha amiga e artista plástica Sabrina Barrios, quando participávamos de um coletivo chamado Clube de Ideias.  Esse versão de “A Ilha” é um pouco diferente da que estava publicada neste blog. Ela passou por uma revisão do pessoal da Editora Patuá, que modificou alguns parágrafos e deixou o texto mais claro e menos truncado.

Se você curtir o conto, experimente a bela edição publicada pela Patuá, você pode comprar online aqui.

***

Desejo

Fazia muito tempo que estavam ali: o jovem e a menina. Tanto tempo que já nem sabiam mais o que tinha acontecido direito. Eram os únicos sobreviventes de um naufrágio, disso tinham certeza, do resto não lembravam muito: se eram parentes, se haviam se conhecido no acidente, se viajavam de barco ou avião. Nem do seu nome recordavam-se, perderam-se, assim, sem passado, sem memória e sem nomes, tendo de inventar novamente a vida. Às vezes, a menina sonhava com a mãe. Não lembrava direito, mas entendia o que era uma mãe; quando sonhava sentia o cheiro de proteção e o calor do afeto. Ela devia ter por volta de cinco anos e ele quinze. A diferença de idade os afastava. Não podia ser seu pai, e nem seu amante – estava no ápice das descobertas sexuais e sentia muita vontade de ter uma mulher. Decidiram que quando ela fizesse quinze anos poderiam casar; até lá, seriam como irmãos.

A menina inventou que o jovem se chamava Desejo e ele a chamou de Utopia. Viviam sozinhos, com as árvores e os peixes, alimentavam-se de cocos e frutas e andavam nus. Desejo era loiro de cabelos encaracolados e Utopia tinha cabelos negros curtos e uma pinta na bochecha. Desejo ensinava tudo que sabia a Utopia sobre o pouco que lembrava da vida antiga e sobre o que aprendia a cada dia na ilha. No início ele brincava com ela também, mas, quanto mais Desejo crescia, menos queria ser criança. Quando Desejo completou dezoito anos, começou a sonhar que Utopia era uma moça grande, com boca carnuda e seios fartos, e que os dois dormiam juntos e tinham uma porção de filhos. Às vezes, o rapaz  acordava excitado pelo sonho e sentia vergonha. Resolveu, então, que era melhor os dois dormirem separados e construiu uma divisória na cabana. A menina não entendeu direito por que Desejo tinha feito uma divisória e por que Desejo se cobria, agora, com uma folha. Foi por esses tempos que ela conheceu dois amigos imaginários: A Vergonha e o Pudor. Mas, logo, Utopia se encheu dos amigos; ela não gostava da Vergonha e achava o Pudor muito sério. Ficou mais alguns anos amiga de Ninguém, até que se irritou, porque Ninguém nunca estava lá quando ela precisava e Ninguém falava muito com ela. Ninguém sabia por que Desejo tinha coberto seu corpo e Ninguém contava para ela. Utopia achou que Desejo e Ninguém eram bobos e foi brincar com outros amigos.

A tristeza da menina se dava porque, naquela ilha, ela sem Ninguém só tinha o Desejo e o Mar, e então começou a ficar amiga do Mar. Às vezes ela queria que o Mar fosse seu pai, porque não se lembrava dele direito. Às vezes ela sonhava que era filha do Vento ou da Terra, e que sua mãe era uma virgem como Nossa Senhora, seja lá o que isso significasse… O Mar era seu amigo, e sempre a abraçava e lhe contava segredos; o Mar tinha segredos que não acabavam nunca, e quanto mais fundo ela ia com o Mar, mais ela aprendia. Desejo ignorava que Utopia tivesse tantos amigos. Na sua cabeça de quase adulto, ele via a menina brincando sozinha, e ficava com pena. Às vezes, construía algum brinquedo pra ela com madeira e bambu. Sempre que completava um ano do acidente eles comemoravam o aniversário dos dois. Desejo fazia uma festa e pescava um peixe; ficavam ele, Utopia e mais Ninguém na praia contando as estrelas. Quanto mais Utopia crescia, mais o moço se apaixonava por ela. Desejo sempre falava do tempo em que os dois se casariam – ele esperava por aquilo com muito afinco. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo começou a construir uma casa maior para os dois morarem juntos. E Desejo aprendeu a fazer uma rede pra poder amar Utopia. Utopia parecia não se empolgar muito com isso, mas o rapaz achava que era normal por causa da idade dela.

Utopia estava então com doze anos e começara a virar “mocinha”. Ficava muito curiosa com seu novo corpo: sangrava uma vez por mês, tinha alguns pelos ralos lá embaixo e sofria com dores nos peitos. Um dia acordou com uns biquinhos e, de uma hora pra outra, seus seios começaram a crescer. Sentiu-se mal porque estava ficando diferente de Desejo. Perguntou a ele e ele riu, dizendo que ela estava virando uma mocinha. Utopia não gostava de envelhecer e, quanto mais Desejo crescia, mais ela tinha medo dele. Queria ser criança pra sempre. O único que a entendia era o Mar; olhava pra ele e via seu reflexo, uma moça igual a ela, com seios e pelos lá embaixo. Desejo era tão diferente e incontrolável, enquanto o Mar era tão calmo e sábio… Um dia ela contou ao Mar que estava apaixonada, e que não ia se casar com Desejo. Iria fugir de Desejo o quanto fosse possível.

Utopia

Desejo já estava se tornando um homem. Faltava um ano para se casar – então ele contava vinte e quatro. Já aprendera a pescar, plantar e construir utensílios de madeira, nadava como um peixe e o Mar era seu amigo. Aprendera tudo o que sabia com a Natureza; a única coisa que faltava era poder amar uma mulher. O rapaz podia sentir o amor dentro dele, queimando-o como fogo, mas era só uma ideia vaga, não algo prático. Queria compartilhar aquele sentimento com alguém, mas parecia que Utopia nunca era grande o suficiente. Agora, a menina passava os dias nadando e sempre voltava com um caranguejo ou estrela marinha.  Dizia que eram presentes que o Mar lhe dava, e se enfeitava com pedrinhas e corais. Desejo sabia que o Mar era traiçoeiro e tinha medo de que um dia ele levasse Utopia. Quando Utopia menstruou pela primeira vez, Desejo fez uma roupa para ela. Seu objetivo era controlar Desejo, porque ele era um rapaz de palavra e só queria possuí-la depois que se casassem. Nesses tempos Utopia já estava apaixonada – o Mar a enchia de presentes e, em troca, ela passava horas dentro dele.

— Desejo vai ficar muito surpreso quando descobrir que eu não sou mais mocinha. Por mais que Desejo me tente, eu me entreguei, antes, para o Mar.

O Mar sabia que a moça era dele; ela havia fugido uma vez, mas devia voltar algum dia. Só Desejo poderia levar a moça para outro destino. Quando Utopia completou quinze anos, o Mar deu a ela uma pérola, que lhe serviu como um anel de noivado. A menina, agora moça, jurou ao Mar que só amaria ele e mais Ninguém. O Mar pediu que ela somente o amasse e ponto. E assim fez.

Desejo estava muito feliz porque aquele era o dia do aniversário dos dois. Ele havia preparado tudo muito bem: fizera o aguardente com as frutas da ilha e pescara siris, camarões e caranguejos. Construíra sua casa com um quarto grande e uma rede confortável, além de fazer uma coroa de flores para que Utopia ficasse ainda mais linda no dia de seu aniversário. Mas parecia que Utopia se perdia, quanto mais velha ficava. A moça já mal conversava com Desejo, e os dois nem pareciam irmãos. No dia de seu casamento, a menina ficou no Mar toda a manhã e só voltou para casa à noitinha.

— Onde você estava, Utopia? Eu preparei nosso casamento com tanto carinho, pesquei caranguejos, siris e camarões, teci uma rede e até lhe fiz uma coroa de flores…
— Eu estava com o Mar.
— Você deveria ter cuidado com o Mar, ele é traiçoeiro. Não esqueça que foi ele quem levou a nossa gente.
— Eles devem estar num lugar melhor do que essa ilha maldita. Não aguento mais ver sua cara todo dia; não aguento mais você, Desejo. Desejo me querendo, Desejo me tentando… Eu tenho nojo do Desejo! Eu quero sumir com o Mar!
— Não diga isso, Utopia! Eu te amo tanto… Como você pode falar assim comigo? Eu sempre te cultivei, Utopia, como uma flor, e você me despreza como se eu fosse o mais vil dos homens? Minha Utopia, onde eu errei? Quando eu te perdi?
— Eu não sou sua Utopia, eu não sou de Ninguém! Eu não tenho dono, eu não tenho destino traçado, foi tudo um acidente…
— Como um acidente? Você me traiu, Utopia!
— Um acidente, pois por acaso eu conheci o Mar, e com ele descobri o mundo. Me apaixonei pelo Mar e seus mistérios, o Mar e seus presentes. Eu preciso do Mar. Me identifico com ele, que também tem seu lado feminino, no qual vejo meu reflexo, a Mar. Não só “o Mar”, como a Mar é linda também.
— Minha Utopia, completamente perdida, minha Utopia está morta! Onde se escondeu aquele sonho? Onde se perdeu minha menina? Cuidei de você como o mais valioso dos tesouros, a pus numa redoma de vidro. Num mundo em que só existíamos você e eu, como evita me amar?
— Entenda, Desejo, que você é muito importante para mim, mas que eu quero o Mar. Entenda que nasci para Mar e dele sou parte, nele encontrarei minha família, meus pais… Não suporto mais morar nesta prisão!
— Impossível, eu não vou aceitar isso! Você tem que ser minha, eu esperei muito por esse momento!

E Desejo partiu para cima de Utopia, agarrou-a pelos cabelos, agora compridos, e beijou sua boca vermelha e carnuda. Sentiu seu peito contras os seios da menina, e um calor correu por seu corpo. Desejo enlouqueceu. Desejo estava cego, atirou a menina na areia e pulou sobre ela. Arrancou a folha que cobria os pelos, já não mais ralos, de Utopia e colocou a mão em sua parte de baixo: estava molhada, com água salgada.

Mar

— Mas como? Quem?
— O Mar! O Mar entrou em mim, Desejo. Ele me transformou em mulher, antes de você! Há tanto Mar dentro de mim que você nunca vai poder tirar… Por isto estou molhada: por causa do Mar. São dele as lágrimas que saem dos meus olhos, salgadas também. Eu sou do Mar, Desejo. Você pode me possuir agora, mas eu nunca vou te amar.

Desejo havia quebrado a Utopia, que estava deitada no chão chorando, encolhida. Abraçada aos joelhos em posição fetal, de seus olhos saíam pequenos pedaços de água do Mar. A pérola que havia ganhado reluzia, presa aos seus cabelos negros. Desejo perdeu, então, o controle – começou a chorar e notou que o Mar também o contaminara. Tentou conter as gotas salgadas que saíam de seus olhos. Odiava o Mar, pois ele lhe roubara tudo: seu passado, sua memória, seu amor, seu tempo. Fez-se amigo do Mar, mesmo sabendo que o Mar o destruiria. O Desejo estava dentro do Mar, e o Mar dentro do Desejo. Ficou louco de vez. Saiu correndo e gritando, vermelho, enquanto arrancava os tufos loiros da cabeça,
desesperado. Gritou muito alto e Ninguém ouviu. Aquele dia o Mar estava bravo, agitado. Desejo pulou no Mar com ódio, mas o Mar o abraçou e o estrangulou. As lágrimas de Desejo fundiram-se com o Mar, e o Mar entrou em Desejo pelos pulmões, sufocando-o. Desejo sumiu, então, no meio da noite e do Mar.

Utopia ficou perdida na Ilha, a noite toda, e vagou sozinha sem Ninguém. Estava apaixonada pelo Mar, mas sentia-se mal por ter perdido Desejo. No dia seguinte o Mar já estava calmo, e Utopia, solitária, resolveu que era hora de ficarem juntos para sempre. Entrou no Mar e ali se deixou, sentindo-o dentro do seu corpo, descobrindo o amor. As ondas levaram-na para longe – finalmente o Mar recuperara o que era dele.

Da ilha nada mais restou, nenhuma testemunha, Ninguém soube o que aconteceu. Ninguém ficou lá. Só.

Sexo virtual, pop e desencontros – extraído do livro “Canções para ninar adultos”

Esse conto foi originalmente divulgado no blog do escritor e jornalista Edward Pimenta.  Ele faz parte do meu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, disponível na livraria Cultura e no site da editora Patuá. O livro está sendo bem recebido com resenhas em revistas como Playboy, Vida Simples, Contigo! e sites da revista Gloss e Alfa, além de blogs independentes.

A sacanagem rolando solta no Chatroulette para alegria dos nerds…

Sexo virtual, pop e desencontros
Ela, pink, queria ir na “Post It”. Ele, preto, queria acordar cedo para conhecer o Mosteiro de São Bento.

— Os cantos gregorianos – sentenciava Alex, dedo no óculos, achando-se o maior intelectual do mundo – são uma das poucas heranças boas da igreja para a humanidade.

— Mas eu gosto de dançar, gatinho. E o único padre que dança é o Marcelo. Missa me lembra velório, gente velha e final de domingo…

— Olha, Amanda, não sei por que as pessoas decidiram que Britney Spears e Beyoncé sãocult. Todo indie agora é fã de Lady Gaga. Nos anos 90…

— Blá, blá, blá. Que papo de indie velho! Ninguém dança ouvindo Sonic Youth e Pavement.

— Escuta aqui, por que mulher acha tanta graça em dançar, hein?

— E por que homem só dança pra conseguir trepar?

— Era uma boa, né?

— O quê?

— A gente trepar, ué! Já faz uns dois dias…

— To meio machucadinha, Alex, te falei… Amanhã a gente faz, tá?

Ela vai dançar Mariah Carey. Ele entra fundo na pornografia. Fiquemos com ele: www.XVideos.com; velhos fetiches, closes ginecológicos entediantes. Será que tá rolando alguma coisa no Chatroulette? Só entrando pra descobrir quem está do outro lado da webcam:

1) Pica

2) Pica

3) Pica

4) Mina

Opa, uma mina!!!

Até Paris Hilton deu as caras no Chatroulette

 

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: Where are you from?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: Washington – DC

Macho moderninho se mordendo de ciúmes: How old are you?

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: 17

“Putz, dezessete? Mas que gostosinha… Ruiva de piercing no nariz e decote!”

Ninfeta americana atrás de aventuras virtuais: I like your beard!

“Que significa beard mesmo? Beard, beard… Ah, é: barba”. A maçaneta range. “Cazzo!” Fecha o laptop correndo. O pau duríssimo.

— Nossa, amor, tá feliz assim de me ver?

— Vem cá, vem…

— Tô machucadinha, você sabe, Alex. E morrendo de sono…

— Tava legal, lá?

— Muito! Tocaram uns hits mega-antigos da Cher e da Christina Aguilera. Ninguém lembrava as letras, só eu.

— Que orgulho!

— Ah… Subi no palco.

— Porra, você não se segura, né? Tem que subir no palco só por que eu não tô junto?

— Ai, amor, no Vegas só tem gay.

— Pô, eu te conheci lá…

— Não surta, tá bom? Deixa de ser noiado, eu te amo muito! Vou tomar um banho agora… Depois tenho que comer alguma coisa, tô com uma master fome.

Por que para ela o amor era tão fácil? As coisas não eram tão eternas e seguras assim. Um dia ela poderia entrar no Vegas e se apaixonar por outro. Quem sabe se ela achasse um hetero que curtisse Barbra Streisand? Chega! Pensar em outra coisa para sufocar o ciúme… Queria começar a fumar charuto. Procura no Google: “charutos baratos”. Site de macumba. Vontade de ir num terreiro. Mas um pouco de medo. A americana era bem gostosinha. Queria fazer um pouco de sexo virtual. Masturbação já perdeu a graça. Só é legal quando tem algum vídeo bem escroto. No celular da Amanda, uma música da Rihanna. Só pode ser a mala da sogra ligando a essa hora da madrugada…

— Alô, a Amanda está?

— Quem gostaria?

— É o Chico, da festa “Post It”. Achei seu número na…

Desligou o celular gritando mentalmente. “Filha da puta! Quem era esse Chico ligando bêbado pra minha mulher? Mal o cadáver tinha esfriado e o desgraçado já estava testando o número da Amanda?”

Tudo bem, agora era a vez dele ir à forra. Bateu a porta amarela do apartamento, levando no bolso as chaves do carro dela, o cartão estourado, 50 pila em dinheiro e as piores intenções possíveis.

***

Quando, faminta, Amanda voltou ao quarto, a cama estava vazia. Só então percebeu que esquecera a carteira na balada.

Outros contos:
– Preto no Branco: um palhaço triste apaixonado pela mulher mais indecisa do mundo
– Minha cidade era pequena como minhas ambições
– Trailer do livro “Canções para ninar adultos”

Cartaz da festa Post It

Mulheres – Anjas Tortas

-Tava procurando mulé pelada? Clica aqui, então!
pra minha amiga Lana (publicado originalmente aqui em 11 de Dezembro de 2007 )

Ilustrações: Gabriel Gianordoli

_Nossa, não tem coisa mais feia que um pau mole…
_Verdade, não tem coisa mais broxante, né?
_Pau mole de namorado a gente até tolera, mas se for um cara nada a ver, é duro…
_É mole!
_ He, he, he, aquele negócio, pequenininho, todo enrugado…
_ Parece a cabeça de um peru, sei lá!
Riram.
Eram duas, uma chamava Luísa, e a outra Luísa. Eram amigas, desde o colegial. Uma tinha cabelos compridos e castanhos e a outra, cabelos curtos e loiros. Uma tinha olhos negros grandes e a outra, olhos verdes e pequenos. Uma tinha um metro e oitenta e a outra um metro e sessenta e quatro. Uma tinha namorado um cara chamado Alex, a outra namorava um cara chamado Alex. As duas sempre. Inseparáveis.
Luísa grande era poeta e Luísa pequena era jornalista. As duas tinham bebido alguns copos a mais de vinho e estavam muito felizes por se verem de novo. Moravam em cidades distintas. Desceram do carro de mãos dadas, estavam entrando em um bar. Vinham de um café onde a antiga turma tinha se encontrado.
_Você deu um selinho na Carol, lá no bar, né?
_Eu dei, por quê?
_Eu também quero, he he he. Você nunca me deu um selinho…
_Que, que tem, Luisa?
_Me da um agora?
_ Aqui, no meio do bar?
_É, eu quero um beijo, agora!
_Tá, bom.
Luísa pequena encostou os lábios na boca de Luísa grande, meio sem jeito, e deu um beijinho estalado. As duas riram embriagadas. Luísa pequena tinha conflitos e dúvidas sexuais. Luísa grande gostava de homens, mas já tinha transado com outras meninas.

Ana tinha cabelos vermelhos como fogo, pele branca coberta de sardas, bunda grande, coxas grossas. Vinha de São Paulo, universitária. Conheceu Alex num dia qualquer: Ele caçando mulheres de asas, com rede e chapéu de explorador, e ela voando pelo mundo livre. Um dia, ficou trancada pra fora da casa. Eram vizinhos. Tocou a campainha. Pediu pra ficar ali até que suas colegas chegassem. O moço era psicólogo, recém formado. Estava desesperado atrás de uma fada. Olhou Ana de cima a baixo, tinha um belo corpo e asas vermelhas com sardinhas. Talvez fosse uma fada disfarçada. Não podia saber. Conversaram a noite inteira.
Aquele ritual foi seguindo, noite após noite. Ana parecia ser uma menina inteligente que se interessava por música e poesia. Também gostava de ver revistas de mulheres peladas e ir a bares gays. Tinha um anel de virgindade, uma espécie de pacto com a mãe de que só transaria depois de casada. Dizia que era uma coisa na qual acreditava. Pertencia a uma igreja americana, mas tinha jeito de quem não tem religião alguma. A não ser pelo tal anel de virgindade, Ana transbordava sensualidade pelos poros, em uma contradição provocante. Gostava de abraçar, falava segurando a mão e olhando nos olhos. Comentava de sexo com desenvoltura. Contou que um dia passou por um trauma e perdeu a memória de um ano.

-Mais contos libertinos e libertários

A duas brigando pela última vez, lágrimas nos olhos da mais nova. “O homem que eu mais amei em minha vida foi ELA”. Tinham conhecido-se em uma noite tocando piano. X era técnica pura, Y improviso. As duas se revezavam a quatro mãos. X tinha namorado quatro garotas. Y beijava as amigas por diversão. As duas descarregavam toda a tensão sexual naquele piano. Bebiam vinho e conversavam sobre Chico Buarque e poesia.
Y levantou-se e foi até a cozinha pegar mais vinho. Seco, só tomava tinto seco. X foi atrás, cabelos esvoaçantes, corpo cheirando libido. Encontrou Y tomando seu vinho tranqüila, encostada na pia. Beijou-a. Y a afastou, olhou com uma cara de dúvida. X atacou-a de novo, agora com mais vontade. Os braços envolventes, as mãos explorando o corpo pequeno de Y. Tocou lhe na vagina, por baixo da saia. Molhada. Afastou a calcinha com os dedos e passou a estimular o ponto sobressalente. Gemidos abafados. Tinham medo que alguém ouvisse. Y estourou num orgasmo contido. X gozou só de vê-la daquele jeito. “Como nenhum homem jamais havia feito se sentirem antes!”
X e Y namoraram um ano. Y buscava X todos os dias na escola. X queria casar com um homem e ter filhos. Y transava com o melhor amigo de vez em quando. X sentia-se traída quando Y chegava em sua casa com cheiro de sexo no corpo. Cheiro de testosterona. Y sentia-se frustrada por X planejar um pacato futuro com um homem e crianças. Achava hipocrisia. Terminaram numa tarde ensolarada, em um passeio pelo museu de arte. Y partiu sem dizer nada. X engoliu as lágrimas e as transformou em câncer.


Alex olhou Ana nos olhos e beijou-a. Ela fechou a boca. Não queria, disse que ia magoá-lo. Ficaram nesse jogo por uma semana. Ele tentava e ela refutava. Dava beijo de novela, selinho, passava sua língua na dele. Era um jogo de sedução acirrado. Alex amava Luísa pequena, porque sabia que ela era uma fada. Só que não conseguia conversar com a moça. Sentia-se de novo no ginásio, cheio de espinhas e tímido. Quando desistiu de Luísa pequena, Ana entrou por sua porta pedindo pra ficar.
Um dia Ana cedeu e os dois passaram a viver juntos. Ela não saía de sua casa. Dormia lá e eles ficavam horas se esfregando. Ela gostava de lutar na cama. Ele tinha que domina-la e isso o excitava muito. Não passavam do ponto X por causa do anel de virgindade. Um dia Ana falou que tinha namorado várias garotas e só era virgem de homens. Ela dizia que Alex tinha cílios de uma mulher e um jeito feminino. Alex ficou perplexo e foi a uma festa com Ana. Luísa pequena estava lá. Tinha tomado um ecstasy. Ele largou Ana e foi atrás de Luísa. Os dois beijaram-se.

Já fazia tempo que Luísa pequena e Alex não transavam. Ela não conseguia gozar e não sentia vontade de fazer sexo. Gostava de visitar Luísa grande e as duas ficavam bem abraçadas uma com a outra. Conversavam sobre tudo e Luísa pequena sentia-se bem. Às vezes Luísa grande pedia-lhe um selinho e Luísa pequena dava. A mãe de Luísa pequena tinha medo que a filha fosse lésbica e ficava feliz quando a menina arrumava um namorado.

Ana só tinha amado um homem na vida. Era Alex. Alex só tinha amado uma mulher na vida. Era Luísa pequena. Luísa pequena achava que nunca tinha amado ninguém, mas gostava de Luísa grande. E gostava um pouco de Alex.

Naquela noite tentaram mais uma vez. Sem camisinha. Alex colocou dentro, e ela começou a se empolgar, ficou com vontade de gozar. Mas na hora, lembrou que estavam desprotegidos, teve medo e broxou. Pediu desculpas para o rapaz. Ele virou pro lado, acendeu um cigarro e desceu até a garagem para pensar na vida. Não entendia as mulheres. Nenhum homem entende as mulheres. A culpa do lesbianismo no mundo devia ser dos homens. “A gente nunca faz uma mulher gozar de verdade”. “A gente nunca faz uma mulher gozar de verdade”… Luísa pequena sentiu-se aliviada por Alex descer. Não gostava de ver um pau mole. Levantou-se e foi até a geladeira. Apanhou uma maçã e ficou comendo o fruto do pecado, completamente nua. Tinha um belo corpo. Era pequena, mas tinha seios e nádegas fartas, cintura marcada. Tinha um belo corpo de bailarina. Viu a porta entreabrir-se.

Naquela noite, Ana sentia-se só. Resolveu ir até o apartamento de Alex. Abriu a porta e viu Luísa, nua, comendo uma maçã. Conheciam-se de vista. Ana tinha ciúmes de Luísa, mas naquela hora não viu Luísa, viu Y. Olhou seu corpo de baixo pra cima. Partiu pra cima dela, com classe. Sabia dominar uma mulher. Usava sua língua como nenhum macho sonhava. A maçã rolou, vermelha, pelo chão. Luísa pequena fechou os olhos e deu um sorriso. Ali, Ana parecia Luísa grande. Eram duas mulheres lindas, rolando pela sala da casa. Ana dominava Luísa pequena. Esta tirava a roupa de Ana: camisa, jeans e calcinha preta. Ficou fascinada com seus pelos pubianos vermelhos. Quis tirar uma foto. Luísa pequena era jornalista e sempre andava com sua máquina fotográfica. Ana fez pose e depois beijou seu corpo inteiro, os dedos dos pés, as batatas das pernas, as coxas… Sua língua tateava o corpo da outra como se cada parte fosse a mais importante. A pele de Luísa pequena era macia como seda e a língua de Ana a fazia arrepiar. A parte interna das coxas e a vagina, até Luísa gozar. Depois passou para barriga, seios e quando chegou na boca as duas já se amavam. Deram um beijo forte e intenso que durou alguns minutos. Ai, Luísa pequena já sabia o que era amor e se libertou por completo. Partiu para cima de Ana e as duas ficaram lutando ali no chão por anos luz seguidos. “A camisinha e o tempo são invenções do Homem” pensou Luísa pequena. “A camisinha e o tempo são invenções do homem, com h minúsculo” corrigiu Ana. E as duas eram mulheres, ponto! Venceram preservativos e ampulheta. “Transar sem se preocupar com camisinha e tempo é bem melhor” concluiu Luísa pequena.

Pecado: a maçã ou a mulher?

Alex sentia-se um ignorante em relação às mulheres. Ana achava que ele tinha jeito de mulher. Mas ele tinha pau, e quando ficava mole era feio. Ele estava triste e tinha medo que todas mulheres que se envolvessem com ele virassem lésbicas. Tinha largado Ana por dois motivos: medo da responsabilidade de transformá-la hetero e amor por Luísa pequena, mas agora parecia que Luísa pequena estava seguindo o caminho inverso. Os dois nunca tinham tempo. Estavam sempre correndo contra o relógio e isso atrapalhava sua vida sexual. Alex tinha que resolver os problemas de seus pacientes e Luísa pequena tinha que tirar milhares de fotos para o seu jornal. Um analisava a vida e a outra retratava a vida, mas nenhum dos dois tinha tempo para viver a vida.

A porta da sala se abriu, mas as duas nem se importaram, pareciam um Ying Yang vermelho e amarelo, com uma cabeça de cada lado. Alex ficou estático: não sabia se chorava ou gozava. (29/06/05).

Leia também:

-Mais contos

-Sexo virtual, pop e desencontros

-Mulheres: Anjas Tortas


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