Uma imagem fala mais que mil segundas-feiras

Charles Bukowski, escritor.(1920-1994)
-Resenhas,frases e mais Bukowski aqui
Mais contracultura digital no nosso twitter: @punk_brega
Uma imagem fala mais que mil segundas-feiras

Charles Bukowski, escritor.(1920-1994)
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-Leia frases punks aqui!
Uma das palavras mais procuradas nesse brog é “frases”. Atendendo o desejo do internauta, copio aqui as melhores frases que eu e Thiago Montanari, tínhamos coletado pro zine Kaos. Ao longo do tempo vou atualizando com conteúdo novo.
“Quase todos os desejos do pobre são punidos com prisão.” Céline, Viagem ao fim da noite.
“Os bares estão cheios de almas tão vazias.” Criolo
“Não se lamente. Organize-se”. John Hill, militante anarquista – pouco antes de ser fuzilado
“Abraços são impotentes“. Daniel Galera, Mãos de Cavalo
“Qualquer homem vivo é melhor que qualquer homem morto”. William Faulkner, O Som e a Fúria
“O dinheiro é um bom servo, mas um péssimo senhor”. Francis Bacon
“(…) a força moral de um único homem que insiste em ser livre é maior do que a de uma multidão de escravos silenciosos.” George Woodcock.
” Os livros não precisam ser proibidos pela polícia: os preços já os proíbem.”, Eduardo Galeano.
“Os que fazem da objetividade uma religião, mentem. Eles não querem ser objetivos, mentira: querem ser objetos, para salvar-se da dor humana”. José Coronel Urtecho, citado por Eduardo Galeano em O Livro dos Abraços
“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas
“Não toque o que o público quer. Toque o que você quer e deixe o público chegar lá”. Thelonius Monk, músico de jazz.
“Ele, casualmente, conferiu-me a liberdade de quem não se sente só.” F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby
“Mais honra meu estilo quem aprende a destruir o mestre”. Walt Whitman, Folhas de Relva
“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria ao homem como é, infinito.” William Blake, Uma Visão Memorável
“Somente o tempo é capaz de mostrar um homem honesto, enquanto basta um dia para desmascarar um traidor”. Sófocles, em Édipo Rei
“É tão fácil ser poeta, e tão difícil ser um homem”.
Charles Bukowski.
“Tudo que peço da vida é um punhado de livros, um punhado de sonhos e um punhado de vulvas”.
Henry Miller, Trópico de Câncer.
“Até as piores pessoas praticam ao menos uma boa ação na vida. Hitler suicidou-se.”
Manuel Lachtermacher
“O pior inimigo do cinema é a indústria”
Jean Renoir.
“Quem não quer matar seu pai?”
Dostoiéviski, Os irmãos Karamazov.
“O cinema é o meio mais direto de entrar em competição com Deus.”
Federico Felline
“Se meus filmes não dão lucro, sei que estou fazendo a coisa certa.”
Woody Allen
“Um artista está sempre sozinho, se é artista”.
Henry Miller, Trópico de Câncer.
“As convicções são cárceres.”
F. Nietzsche, O Anti-Cristo.
“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.”
Mario Quintana
“Minha mãe não pariu nenhum punk, no entanto aqui estou eu”
Fred 04
“Música não é política, mas traz em si a idéia de liberdade”.
Lou Reed
“Sou um artista assalariado, obrigado a interpretar toda noite uma farsa intelectual sob seus estúpidos narizes”.
Henry Miller, Trópico de Câncer.
“Alguns nascem póstumos”.
F. Nietzsche, O Anti-Cristo.
“Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor.Que tem que ser vivido até a última gota.Sem nenhum medo. Não mata.”
Clarice Lispector
“E bom ter sempre dois advogados á disposição… um pra livrar a gente do outro.”
Alfred E. Neuman.
“Seria responsável somente perante a Deus, se Ele existisse”.
Henry Miller, Trópico de Câncer.
” Eu era como um lixo que atraía moscas, em vez de uma flor desejada por borboletas e abelhas.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.
“Nunca me ensinaram a arte da solidão, tive de aprendê-la sozinho. Ela se tornou tão necessária para mim quanto Beatles, tanto quanto beijos na nuca e carinho”.
Intimidade, de Hanif Kureishi
“Éramos uma piada, mas as pessoas tinha medo de rir na nossa frente”.
Charles Bukowski, Ham on Rye.
“Se uma nação crê que pode ser ignorante e livre, crê no que nunca foi e nunca será… O Povo não pode estar em segurança sem informação. Quando a Imprensa for livre e quando todos os homens souberem ler, tudo será seguro.”
Thomas Jefferson
“A história continua a mesma: quem mais reflete no Brasil, ainda é o espelho.”
Claúdio Parreira
“O que os presidentes não fazem com suas esposas acabam fazendo com o país.”
Mel Brooks.
“Eu sou completamente contra as drogas, por isso eu não
assisto nem ao SBT, Globo ou Record”
Marcelo Nova.
“Só ha dois fatos irreversíveis no mundo contemporâneo:
A morte e a mediocridade. Com a clonagem só restará a
mediocridade. ”
Marcelo Nova.
“De cem favoritos dos reis, 95 morrem enforcados.”
Napoleão Bonaparte.
“Minha visão política é a visão dos cronistas. Se ele estiverem errados, eu tô fodido.”
Mauro Rasi.
“Todos dançam ou ninguém dança.”
Slogan dos Tupamaros.
“O Capitalismo roubou minha virgindade.”
International Noise Conspiracy.
“Um instante de pânico converte mais gente que muitas horas de pregação.”
Marcelo Lopes.
“Só sei que nada sei.”
Sócrates
“Soltar bombas para tentar manter a paz é o mesmo que fazer sexo pra tentar manter a virgindade.”
Professora de Sociologia da UNESP.
“O mais rico é quem se contenta com o mínimo.”
Sócrates
“Nunca tive problemas com drogas. Só com a polícia.”
Keith Richards
- As melhores frases do Tim Maia
-Frases do Bukowski
-Frases do filme “Tropa de Elite”
“A Liberdade é um bem tão apreciado que cada qual quer ser dono até da alheia.”
Montesquieu
“Você faz suas escolhas e suas escolhas fazem você.”
Steve Beckman
“A doença grave do Brasil é social, não econômica.”
Celso Furtado, em entrevista a Revista Caros Amigos.
“O pobre que imita o rico pode ser cômico ou trágico. O rico que imita o pobre é puro humor negro.”
Roberto Pompeu de Toledo, em artigo na Veja.
“O Problema dos juros é que eles só caem quando a gente não consegue mais se levantar.”
José Carlos Aragão
“Poderia ser pior. Em vez de dupla, quarteto sertanejo.”
José Teles
“As mulheres jamais serão iguais aos homens. Serão sempre mais gostosas.”
José Teles
“Brasileiro pelado não é exibicionismo – é a situação.”
Syvio Abreu
“Se você acha que a educação custa caro, tente a ignorância.”
Berek Bok
Uma única ação é melhor que mil suspiros.
Rabino Shalom Dov Ber
“Fome e guerra não obedecem a qualquer lei natural – são criações humanas.”
Josué de Castro, médico e geógrafo, fundador da FAO.
“O Brasil está condenado a eleger José Serra ou a mergulhar no caos.”
George Soros, megaespeculador.
publicado originalmente em 30/04/2008
>Originalmente publicado no blog Clube de Ideias, um espaço para novos artistas cuspirem suas pretensões.
Um belo poema de Charles Bukowski transformado em animação por Jonathan Hodgson
Dica do Gabriel Gianordoli.
Não sabe quem é o Bukowski? Descubra aqui!

Bom gente, essas são as que eu tinha anotadas. Com o tempo vou atualizando isso aqui. Sugestões nos comentários são bem-vindas.
“Definição de um bom bairro: um lugar onde a gente não tem condições econômicas de morar”. Pulp
“Sempre fui de perna. Foi a primeira coisa que vi quando nasci. Mas então eu tentava sair. Desde então, tenho me virado no sentido contrário, e com um azar dos diabos.”
Pulp.
“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”, Ham on Rye.
“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas” Ham on Rye.
-Leia resenha do livro “Misto Quente”, de Charles Bukowski
“É tão fácil ser poeta, e tão difícil ser um homem”.
“Um bom poeta pode fazer uma alma despedaçada voar.”

Leia também:
-Resenha de “Pulp”, do velho Buk
-Frases punk
-Frases do Tim Maia
>
por Fred Di Giacomo
-(…). Eu sou boa.
-Em quê? Sabe estenografia?
-Não, mas faço coisas pequenas ficarem grandes
-Leia resenha de “Misto Quente”, de Bukowski
-Leia resenha de “Cartas da Rua”, de Bukowski
-Leia contos aqui
A história começa bem, com uma sensual “Dona Morte” encomendando um serviço surreal a Belane. Ela precisa encontrar Celine, o escritor francês maldito que influenciou toda uma geração de escritores marginais, em especial Bukowski, e morreu em 1961. “Celine está morto” tenta se convencer Belane, mas não adianta ele tentar colocar ordem no que vai acontecer em “Pulp”, cada vez mais seus casos vão ficando obscuros, incluindo alienígenas, uma deliciosa mulher que estaria traindo o marido e principalmente misterioso Pardal Vermelho – uma possível referência a editora de Buk, Black Sparrow, ou ao maior clássico dos livros de detetives modernos, o “Falcão Maltês”.
No entanto, o excesso de referências à subliteratura(a quem o autor dedica a obra) e a fantasia e filmes B, acaba tornando o meio do livro um pouco esquizofrênico, um excesso de sátira que impede que ele chegue ao nível dos melhores Bukowskis como “Misto Quente” ou “Fabulário Geral do Delírio Cotidiano”. É como o caso de Quentin Tarantino em “Kill Bill” ou “Grindhouse”. Tarantino também dedicou um filme (“Pulp Fiction”) ao gênero pulp – revistas feitas com papel de baixa qualidade (a “polpa”) a partir do início da década de 1920, que geralmente tratavam de ficção científica e fantasia. Seus dois primeiros filmes foram aclamados como obras-primas, mas apesar do sucesso de Kill Bill, há um excesso de referências ali que quase soterra o filme. Na ideia de homenagear um gênero menor, o autor acaba fazendo mais uma grande sopa de referências e piadas internas àquele gênero do que uma grande obra.
Bom, mas além de ser o livro mais “pretensioso artisticamente” de Buk, com bons momentos como o sonho maluco que Belane tem no capítulo 17, “Pulp” vale por ser o romance onde o autor se despede da vida. Por trás de todos os personagens frakies e diálogos divertidos, “Pulp” é um livro sobre a morte. Talvez por isso o autor tenha adotado a ficção desta vez. Ninguém pode contar o próprio fim sendo realista. Se em “Misto Quente” ele narra sua infância, em “Cartas na Rua” seu trabalho como carteiro e em “Hollywood” sua experiência como roteirista de cinema, aqui Bukowski nos fala sobre a velhice e o fim da vida(“Pulp” é o último romance dele e foi concluído alguns meses antes de sua morte em março de 1994.) Nisso, ele se assemelha ao livro póstumo, que conta com ilustrações de Crumb, “O Capitão saiu e os marinheiros tomaram conta do navio”, o mais filosófico de Bukowski. E é no final do livro que ele volta a crescer. O capítulo 39 é uma poderosa descrição de como o autor se sente em relação à vida. Começa com Belane entre suas duas clientes gostosas/misteriosas: “Ali estava eu, basicamente, sentado entre o Espaço e a Morte”. E depois “Porque eu não podia simplesmente ser um cara assistindo a um jogo de beisebol?(…) Por que eu não podia ser um galo num galinheiro, catando milho?” Buk nunca conseguiu ser um cara comum, “um galo no galinheiro”, sempre se sentiu um estrangeiro numa sociedade que não fazia o menor sentido pra ele. A vida funcionava como a relação entre Belane e os mendigos que lhe pediam dinheiro: “Às vezes eu dava e às vezes não”.
Como termina a contracapa citada no começo dessa resenha: “Tomara que a morte estivesse linda, gostosa e sexy – como está nesta história- quando encontrou o velho Buk poucos meses depois de ter posto o ponto final nesta pequena obra-prima”.

“Sempre fui de perna. Foi a primeira coisa que vi quando nasci. Mas então eu tentava sair. Desde então, tenho me virado no sentido contrário, e com um azar dos diabos.“
Charles Bukowski, Pulp.
Mas porque tanta preocupação com a vida do autor? Porque a escrita de Pedro Juan, assim como dos autores acima citados, é autobiográfica. O personagem principal de sua principal obra é um ex-jornalista careca, que vive de bicos próximo ao Malecon – calçadão barra-pesada de Cuba – traçando todas as mulheres que pode, enquanto tenta fugir das crises que se abatem sobre sua cabeça. Uma das crises é a econômica que varreu Cuba a partir dos anos 90 com o fim da URSS e o endurecimento do embargo norte-americano. Outra, a crise pessoal que fez o autor pensar diversas vezes no suicídio, como deixa claro em alguns trechos de sua obra e em entrevistas: Sempre sonhava em pular dali(do beiral do prédio) e sair voando e me sentir o cara mais livre do mundo.
“Trilogia Suja de Havana” são três livros – reunidos em um só volume – escritos dolorosamente entre 1994 e 1997. Todos são formados por pequenos contos e crônicas que se entrelaçam formando uma única narrativa, a história de Pedro Juan e seus vizinhos miseráveis, se virando para sobreviver na ilha. Alguns pontos são sempre reforçados pelo autor repetitivamente, como se para exorcizar um trauma, como se tivesse que afirmar diversas vezes aquela realidade até que ela se tornasse ficção. Algumas das frases que vão criando o clima de cotidiano na obra: No total vivem 50 pessoas (amontoados no cortiço). Subo os oito andares até o terraço. (O elevador está sempre quebrado). Não precisa muito: algum dinheiro, comida, um pouco de rum, charutos e uma mulher. Nessa filosofia de vida, Pedro Juan se assemelha muito a Henry Miller que dizia que só queria Um punhado de livros, um punhado de sonhos e um punhado de vulvas. Fazendo uma rápida análise subjetiva, o primeiro volume “Ancorado na Terra de Ninguém” é muito autobiográfico, trazendo um Pedro Juan que parece ter acabado de largar o jornalismo, com alguns amigos intelectuais, seu filho adolescente, sua busca pelo equilíbrio zen. “Nada para fazer”, escrito cerca de um ano depois, é mais depressivo. O alter-ego do autor está ainda mais mergulhado na miséria, mais marginal, cínico, transformado quase num cafetão egoísta. A terceira parte “Sabor a Mi” é a mais ficcional. Alguns de seus contos nem são narrados em primeira pessoa, os narradores se multiplicam em uma rica fauna caribenha que vai de traficantes de drogas, à uma mulher violentada por ladrões, passando por uma temporada de dois anos de Pedro Juan preso por se prostituir em Cuba. (Coisa que Gutiérrez afirma nunca ter feito na vida real, em entrevista dada a revista Playboy).
Em “Trilogia”, Pedro Juan é um jornalista desempregado, que abandonou o trabalho por não querer mais fazer matérias parciais, nas quais não pode mostrar a realidade do país. Por isso se dedica à literatura e seu “realismo sujo”. No entanto, o Pedro Gutiérrez de carne e osso trabalhou como jornalista até publicar seu livro em 1998. Formado em 1978 pela “Universida de La Habana” mediante um curso especial para trabalhadores, ele teve que ficar fora de Cuba três meses divulgando suas obras na Espanha. Quando retornou foi demitido da revista “Bohemia”, da qual era colaborador, por ter, supostamente, se ausentado sem permissão. Sobre a demissão Pedro Juan fala, sem criticar muito o governo, em entrevista para a Playboy: O governo até me convidou, no ano passado, para promover “A Melancolia dos Leões”(obra de realismo fantástico de Guitiérrez). Cuba não é uma ditadura policial, onde vão te dar um tiro se você criticar o governo. Mas podem tornar as coisas difíceis para você. Eu, por exemplo, fui banido da profissão de jornalista.
Em uma entrevista à revista Bravo!, na época do lançamento de “Trilogia Suja de Havna”, Gutiérrez diz que só conheceu Bukowski e Henry Miller pouco tempo antes de terminar o livro. Talvez sua proximidade com os dois esteja na resolução que tomou aos vinte anos para se tornar um bom escritor: Tengo que tener muchas mujeres, viajar todo lo que pueda y conocer todo tipo de gente. Sua primeira paixão platônica foi aos 8 anos por uma puta, e sua primeira vez aos 17 com uma bezerra. Sua pintura e sua escrita também tem influência dos quadrinhos norte-americanos, que leu às dezenas em sua infância, desde que se alfabetizou quando tinha entre 6 e 7 anos. De outra de suas influências, Ernest Hemingway, Gutiérrez leva a profissão de fé: “um escritor precisa manter o detector de merda funcionando.” Esse lema está presente em todo o conto “Eu, revirador de merda”, de “Ancorado na Terra de Ninguém”, como se pode perceber nos trechos:
A arte só serve para alguma coisa se for irreverente, atormentada, cheia de pesadelos e desespero.
Quem atinge o repouso em equilíbrio está perto demais de Deus para ser artista.
Mas, e afinal, descrevendo tanta miséria, e ainda assim amando Cuba, Pedro Juan e sua “Trilogia Suja de Havana” estão ao lado de Fidel ou de seus opositores, exilados em Miami? O autor evita entrar em discussões ideológicas ao máximo. Sua obra está no limite entre jornalismo e ficção. Na tênue linha que diz que Hunter S. Thompson é jornalista que e Burroughs é escritor. Não há grandes teorias ou elucubrações, seu texto retrata o submundo cubano como se fosse uma fotografia, uma reportagem que busca a utópica objetividade, que dá voz aos personagens reais, para que eles deixem nas páginas o registro de suas existências, sem fazer muito juízo de valor. Quando a revista Veja tenta tirar uma declaração mais política de Gutiérrez ele responde: É incrível o comentário que li no Miami Herald. Eles não falam de literatura, falam como se eu fosse um político. As leituras dos dois lados me dão raiva, porque diminuem o valor de meu trabalho literário e tentam me manipular. Por isso trato de me afastar o máximo possível da política. Façamos a vontade do autor e encerremos esta resenha com o fim do raio-x de sua literatura crua, sensual, sincera e desesperada. Os governos mudam, mas a natureza humana permanece igual.
>
Acordou com um corpo estranho ao seu lado, ao menos, o tal corpo respirava. O “seu”, enlaçado pelas mãos daquele homem. “Onde estou”? Às vezes, esquecia quem era, não tinha uma identidade completa, um milhão de fragmentos, caleidoscópio de mulher, átomos, células, sonhos… E ele ali. “Ta, é o Alex, transamos de novo, acho que ele vai se apaixonar”…
Tinha viagem marcada, levantou rápido, olhou o celular, atrasada, como sempre. Banheiro, banho, troca de células mortas, troca de pele, como uma serpente se enroscando na toalha, todas as curvas molhadas secando com o contato do pano. Seios e nádegas fartas, num corpo delicado e pequeno. Era Luisa, agora lembrava, 24 anos, formada há dois em comunicação social habilitação em salvação de almas, trabalhava numa ONG de educação popular, “Paulo Freire vai pro céu”. O corpo ao seu lado já fora seu namorado, melhor amigo, irmão, pai, amante, bufão, agora trabalhava 12 horas por dia numa revista de comportamento e tentava fazer cinema à noite. Agora, era um corpo amolecido, cansado, frustrado, transformado em proletário não pela catequização comunista, mas pela realidade da vida, que colocava ferramentas, porcas e argamassa nas mãos dos poetas e os mandava construir sonhos concretos. Sonhos que o dinheiro pudesse comprar ou que pudessem caber nas páginas dos jornais e revistas. Estava escrevendo seu grande roteiro que não terminava nunca. Era a história dos dois, numa visão hermafrodita, fluxo psicológico bissexual e outras conversas intelectualóides, sem fim, como aquelas noites, que se repetiam eternas, os dois depois de umas cervejas, conversas sem sentido, acabando juntos, um dentro do outro, ele falando sem parar, os olhos dela fechando, a moça dormia, sonhava e esquecia tudo. Voltava a ser uma menina e o corpo era só dela, e o amor era só uma figurinha num álbum de dois reais. Acordava sem nem lembrar, conversavam sem pressa, com a intimidade dos casais que comemoram as bodas de ouro e, então, ele partia pra mais 12 horas de jornalismo, sem direito a ventre livre ou lei dos sexagenários. Sem saber quando voltariam a se ver. E quando os dois já quase esqueciam quem eram, se encontravam numa noite pra mais cervejas e conversas sem sentido. Ad infintum, num eterno retorno…
Comeu pão integral com requeijão e café preto. Alex tomou só café e falou do seu roteiro. Era inteligente, o rapaz, já estava com cabelos brancos e ainda não tinha ganho dinheiro suficiente pra comprar sua câmera digital. Estava todo empolgado porque tinha entrevistado o cineasta e lenda Zé do Caixão.
_ Eu vi ele de pertinho, nega, ta velhinho e com bafo de fumo e cachaça, é um gênio, um gênio, quando eu fizer meu filme ele vai ter papel garantido!
Falava rápido e enrolado. Luisa torcia pra que um dia o tal filme saísse, ela também estava dirigindo seu documentário. Era sobre as crianças de rua, a ONG tinha conseguido um incentivo do governo pra rodar a película e cadastrar as crianças em instituições de caridade. Saiu, o moço, sem saber se um dia voltaria a vê-la ou não. Ficou, a moça, sem saber se voltaria a vê-lo ou não.
Limpou a lagriminha do rosto, deu adeus aos potes de aveia, fotos e pinturas na parede, entrou no carro, ligou o som e deu ignição. VRRUUMMM! Pessoas, cachorros, pedras, lojas cheias de logotipos, luminosos, cores, VRRRUMMM! Vento no cabelo num dia qualquer do começo do século. “Paulo Freire vai pro céu”, crianças negras, mulatas, brancas encardidas, narizes sujos, cabelos desgrenhados. “Tia! Tia! Vai ter comida?” Câmera filmando: FILMA, FILMA, FILMA, FILMA, POBRE, POBRE, POBRE, POBRE.
(Rápida interferência, a história do CINEMA MARGINAL, roteiro de Alex):
Cena 2.
Panorâmica de bairro de periferia.
Cineasta _ Esse bairro chama-se Novo Brasil, de novo tem apenas os eletrodomésticos comprados em milhões de prestações, é mais uma foto do subdesenvolvimento. Não há promessas, índices ou dados de campanha que nos convençam de que o país está melhorando quando se vê a desgraça na qual se encontra o Novo Brasil. Novo Brasil é um aborto da humanidade, um sonho que podia ser mais não foi. Fodido. Uma boca de drogas há um quarteirão, crianças fumam crack à noite. Bebês choram a trilha sonora do gueto, casais brigam, choro, carros velhos, choro, carroças, choro, cocô de cachorro, choro. As pessoas parecem pedaços de cocô ambulante. E são. E no sétimo dia, Deus descansou. E descansado cagou os pobres.
Cenas de bagunça
Cena 3.
Magrão(olhando pra câmera) _ Seu moço, seu moço o que o senhor ta fazendo ai?
Cineasta _ Isso se chama cinema!
Magrão _ Cinema é de comer seu moço?
Cineasta _ Não, mas mata a fome que nem televisão.
Magrão _ A sim, to compreendendo… Vai passar na televisão? Na Grobo? Posso mandar um alô pra rapaziada?
Cineasta _ Não vai passar na Globo, não. Isso aqui não é comercial.
Magrão _ A não vai não, é? Mas porque, ceis num gosta da Grobo, não, seu moço?
Cineasta _ Isso aqui é cinema marginal. Não passa na televisão.
Magrão _ Se não passa na tv, ninguém assiste, né mesmo? Lá no meu barraco, pelo menos, né? Cê sabe, eu moro num puxadinho, atrás dos meus pais. Porque ta duro de arrumar um trampo, então eu fico lá, né? Pensando na vida, assim, como se diz? Refletindo né? Refletindo,mesmo.E acho que tudo que nóis aprende hoje é pela televisão. Esses dias mesmo eu tava vendo aquela mini-série bonita na televisão,aquela que mostra como qui os português descobriram o Brasil, um negócio complicado, né seu moço? Sangrento, mesmo.
Cineasta _ Cinema marginal só mostra realidade, é o cinema do povo. Não dá pra passar num canal vendido como a Globo.
Magrão _ Mais que qui adianta fazer cinema do povo, se ninguém vê? Assim, só to refletindo comigo mesmo, né? Porque eu não sou muito do conhecimento, né? Não tive uns estudo assim, mas di vez em quando eu gosto di pensa, de vez em quando. E acontece que não to entendendo assim: a utilidade desse cinema marginal.
(Passa casal na rua.)
Brando _ Cuidado meu bem, tem um(a) bosta na rua.
Tarsila _(desviando de Magrão que vira pra câmera e olha para os dois bravo) Ai que nojo, quase que pisei!.
Cineasta _ O amigo, o amigo!
Magrão_ Eu?
Cineasta_ É você, você não sente falta de realidade na televisão? De povo na televisão, gente que nem você?
Magrão_ Ah, gente que nem eu? Sai fora! Quero ver gente feia? Quem gosta dessas coisa é intelectual, cumunista. Eu gosto de ver aquelas casona grande, Big Brother, mulher gostosa. Você gosta de vê trubufu? Trubufu a gente encara, né? Mais fica pensando nas moça da novela, assim de olhinho fechadinho.(fecha o olho e simula sexo).
Cineasta_ Meu amigo você está alienado, você está fora da realidade, a gente precisa colocar o povo na tela. A gente precisa ter um cinema brasileiro popular, marginal!.
Magrão_ Meu amigo, eu não sou marginal não,ta entendendo? Eu to me alinhando. Eu to me alinhando, pô!
Cineasta_ Então de um grito, vai! Mostra sua casa, onde você mora. Mostra pra gente o povo, pobre, feio, doente, banguela. Mostra pra gente seu José!
Magrão _(tomando a câmera da mão do outro)Ih, vacilão, que seu José o caralho, me dá essa câmera ai. Da essa câmera que agora eu vou fazer um filme. Vou mostrar o POVO pra você(fala última frase com sorriso maldoso na boca.)
***
Luisa tem sérias crises de consciência, por ser branca num país negro e rica num país pobre. As pessoas não escolhem como nascem, e provavelmente os pobres escolheriam nascer ricos.
Segunda série do ginásio, ALEX é branco, homem, portador de cultura e preceitos éticos. Seus colegas na escola pública FAUSTO DI GIACOMO não. Renan(branco) para Eduardo(negro)
_Aposto que seu maior sonho é ser branco, né? Quem nem o Michael Jackson, todo negro deve querer ser branco…
ALEX fica inconformado é claro.
Se os pequenos meninos de rua querem ser brancos ou não, poucos sabem, eles querem comer e são levados pelo representante da prefeitura para isso. Filinto leva todas as crianças numa KOMBI branca antiga até a escola pública onde elas terão direito a um prato de comida e um saquinho de leite de soja sabor morango. È o salário recebido em troca do uso de suas imagens no filme de Luísa.
Luisa está com dor nas costas, alonga o corpo, precisa voltar a fazer capoeira, ficou parada nos últimos seis meses por causa da fisioterapia. A equipe de produção se despede, ela fica fazendo algumas anotações, ouve um barulho… Será um rato? Embaixo da mesa. È quase isso, uma garotinha mulata, de uns sete anos escondida…
_O que você está fazendo ai, menina? Não quer comer? Não ta com fome?
_To sim…
_E porque você não foi na kombi com os meninos?
_…
_Vou ligar pro Filinto!
_Não! Não, não liga pra ele não! Ele levou meu irmão ontem e eles não voltaram mais! Eu acho que ele ta fazendo alguma coisa ruim com as crianças…
_Como assim?! O Filinto? Mas ele ta na prefeitura há anos, ganhou o prêmio Betinho de Ação Social, e a beatificação por ajudar o próximo!
_Tia, eu acho que ele ta fazendo coisa, fazendo coisa com as crianças!
_Impossível! Vamos até lá, que eu vou te mostrar que ele é um doce!
-Não, tia! Vai toma no cu! Vai cagá! Fia da puta! Eu num vou não!
Saiu correndo desesperada, chorando. Luisa pensa, a coisa pode ser séria, seu faro jornalístico dispara. Sexto sentido. “I see dead people”. Pega a câmera, o carro, as boas intenções, e a esperança num mundo melhor e VRUMMM! Segue pra escola estadual “Francisco de Assis França”, ouve um disco do Tom Zé, e pensa em Alex. “Será que eu to fazendo certo, e se ele for o cara da minha vida?” Casais, pedras, cachorros, gatos, lojas, e mendigos. Toda rua é igual numa grande cidade do século XXI.
Luzes apagadas na escola estadual. Não há mais aula, é uma hora da tarde. (Ou são uma hora da tarde, não há uma gramática ao meu lado que eu possa consultar.) Luisa sente cheiro de morte no ar. Arrepio correndo o corpo, sensação ruim no peito, medo. Pula o muro, alongando o corpo inteiro como uma gata. Cai no chão, pés empoeirados dentro da sandália, olha pros lados. Barulho vindo da cozinha, fogão industrial, merenda pra milhares de alunos, macarrão, arroz com coloral, tudo que a nutricionista elaborou era caro de mais pra ser comprado. “Vai filhinho, chupa, chupa”.
Abre a porta da cozinha, tudo vazio, só um pouco de carne cozinhando. “Vai, deixa eu colocar, só um pouquinho”. Sussurros, vindos de baixo. Corre os olhos pela cozinha, abre o armário de baixo, panelas e… tchan tchan tchan tchan um fundo falso. Desce até o final. “Isso, assim, ta vendo como é gostoso? Agora você vai sentir um geladinho…” Um adulto ri, uma criança chora, um adulto ri, uma criança chora. Há sempre um nenê chorando numa vizinhança pobre. Há sempre um grito de dor, e hoje um grito de morte. Corredor escuro, cheiro estranho, acende o isqueiro, MEU DEUS!
(RACHA PEITO.
Racha peito essa dor
Essa desilusão, desengano.
A morte, El Salvador
Seres humanos são seres insanos,
Com uma arma ou uma flor.
Aqui brincamos um ano,
Agora só um grito, uma cor.
Racha peito, explode a dor
Morte aqui, El Salvador.
O sofrimento humano
É o único sentimento universal.
(O resto é sexo).
Seres humanos são seres insanos
Racha peito, explode a dor
Com uma arma ou uma flor
Racha peito, explode a dor.
O sangue tem sempre a mesma cor.
Racha peito, esta dor
Essa desilusão, desengano.
A morte aqui ou El Salvador.
Seres humanos são sempre insanos
O Sofrimento humano
É a única verdade universal.
(O resto se releva.)
Como eu dizia, ou melhor, como gritava nossa heroína: MEU dEUS! Crianças mortas! Todas as crianças de rua, todo futuro abortado do Brasil, em freezers gigantes, congeladas, suas expressões de dor eternizadas! São sonhos. Eram pra ser, mas não foram. Um adulto ri, uma criança chora, ainda há tempo de impedir o bastardo, deitado numa sala, pequena, observado por mais dois garotinhos em choque, seu corpo treme sobre o corpo de um garoto. Toda civilização moderna pode ir pro inferno, todos os sonhos, tudo que pensou hoje de manhã é supérfluo, o mundo é horrível, não, é? O MUNDO É HORRÍVEL! A câmera registra tudo, um filme de horror, “Filinto gritou como um filha da puta!” E as crianças riram, riram, gostoso. “Mata ele tia, mata a bichinha” “Corta fora tia, corta o cuzão”. BUZZCOCKS gritando na caixa de som “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Suas últimas palavras.
“Querida, eles não são nada, ninguém se importa, eu estou pensando na ciência, você sabe quantas vidas um rim desses pode salvar? Você sabe quantas pessoas “de bem” morrem na fila de um transplante? Você não sabe nada, menina rica, você não sabe nada! Essas crianças não deviam ter nascido! Elas não existem! Não existe infância nos desertos de pedra das metrópoles do terceiro mundo! È tudo propaganda de refrigerante, é tudo propaganda de refrigerante”.
Existe alegria nas propagandas de margarina. Alex não consegue trabalhar em ONG’s durante uma vida por isso se prostitui numa revista de comportamento 12 horas por dia. É muito bukowiski e pouco guevara. Seus pais já passaram a vida fazendo isso e acabaram num bairro igual ao de todas as crianças mortas na geladeira da história. O garoto não consegue e nem se conforma, ele só chora e chora, letras, versos e um poema no final desse conto. Já Luisa…
Luisa morreu aquele dia, quem saiu daquela escola era uma mulher completamente nova, desconhecida, agora mãe de três garotos:um negro, um branco e um roxo. Vomitou um bocadinho. E andou até a linha do horizonte. N’algum lugar do mundo….
N’ algum lugar do mundo.
N’ algum lugar do mundo…
Há uma alma queimando,
Há um sonho murchando,
Há um feto chorando.
Em algum lugar do mundo,
Um ponto, sim um ponto,
Um ponto que poderia ser, mas não foi.
Um ponto pode ser muita coisa:
Uma flor, um coração, uma criança
Ou um alvo em potencial.
Naquele jardim de esperanças,
A última foi queimada,
A minha foi roubada. A história acabou.
31/12/06.
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“Éramos uma piada, mas as pessoas tinham medo de rir na nossa frente.”
Charles Bukowski, Ham on Rye.
Ok, o garotinho se chama Henry Chinaski, mas poderia se chamar Fred Di Giacomo, Eduardo Moraes, Charles Bukowski ou qualquer outro nome de garoto(a) que nunca foi o mais bonito(a) da classe, nunca foi o primeiro a ser escolhido no jogo de futebol ou já passou um recreio sozinho. Como todo mundo de carne e osso Henry também é um perdedor e a escola é seu purgatório pessoal. Seu pequeno inferno. Freud deve ter algum estudo sobre os efeitos devastadores da escola na personalidade e ego das pessoas. Humilhações, repressão e castigos são o que você suporta durante pelo menos dez malditos anos da sua vida, e nos Estados Unidos o negócio parece ser pior. Numa terra onde status é tudo, o universo escolar é dividido entre os perdedores (os losers) e os “caras legais”. Não há meio termo; ou você está com eles ou eles estão contra você. Tive uma conversa com meu primo Joe (que nasceu e mora nos EUA) sobre a “high school” e ele realmente tinha pavor, não é à toa que os americanos saem matando seus coleguinhas de classe. Não é à toa, que em sua música “School”, Kurt Cobain tenha se limitado a gritar “Vocês não vão acreditar, é a minha sina. Sem recreio. Você está na minha escola outra vez”.
Perdedor, Chinaski é um perdedor. No entanto, isso não faz dele um coitadinho. Ele sacaneia os outros assim como a vida o sacaneia. O alter-ego de Bukowski (como em quase todos os livros do “velho tarado”, essa é uma história autobiográfica) não teve muita sorte na vida. Sua família tem o alcoolismo no sangue, seu pai o espanca e sua mãe é uma estúpida histérica. O moleque não tem meias palavras: “eu devo ter sido adotado”. Seus pais o proíbem de brincar com os garotos da rua. (“Eles pensavam que nós éramos ricos”) A vizinhança é imunda, um bairro pobre de Los Angeles, para onde os Chinaski se mudaram logo depois que chegaram da Alemanha. Na escola não há muita esperança, Henry tem poucos amigos e é sempre o penúltimo a ser escolhido para o time de beisebol, sua principal preocupação é se segurar para não ir ao banheiro. ( “Eu chegava em casa e não tinha mais vontade de ir ao banheiro, o cocô já tinha endurecido dentro de mim”)
A linguagem é direta, seca. Socos no estômago do leitor são distribuídos a cada página, mas com um maldito humor negro e a tão comentada ironia. Isso diferencia “Misto Quente” de outros clássicos sobre a juventude americana. Ele é uma versão underground de Tom Sawyer, um primo distante de Huck Finn. Vive num terreno arrasado pela depressão como o de “Ratos e Homens” de Steinbeck. O livro chegou mesmo a ter sua importância comparada pros anos 80 com a de “O Apanhador no Campo de Centeio” pros anos 50. Sem seu humor, Bukowski teria estourado a cabeça antes de publicar qualquer coisa. Ele foi um autor que não se contentou com as “verdades” dos livros, leu como um desesperado, mas também viveu a vida desesperadamente. As salvações para o moleque são essas: A ironia e os livros…
Um dia Henry tem que ir ver o discurso do presidente para fazer uma redação da escola. Ele sabe que se não cortar a grama naquele sábado seu pai vai surra-lo como sempre. O fedelho decide, então, inventar um discurso, com toda a pompa e todos os detalhes. A professora lhe dá dez e pede que leia em voz alta. Ele descobre um talento (“(…) era isso que eles queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam. As pessoas eram idiotas, seria fácil pra mim.”) Aos poucos aquele moleque vai reunindo em torno de si outros desajustados, freakies, losers como ele. (“Eu era como um lixo que atraía moscas, ao invés de uma flor desejada por borboletas e abelhas”). Ele começa a ganhar algum destaque, mesmo em meio a todos os seus problemas, como define com uma passagem mais ou menos assim: “havia alguma coisa dentro de mim, eu sabia, podia ser todo aquele cocô endurecido…”. Chinaski vira um durão, era isso o que ele mais desejava. Podia não ter as garotas (e ele realmente se dá mal com elas, eternamente virgem e sempre desperdiçando as oportunidades que surgem), mas ganhou algum respeito. Aos poucos vai se embrenhando em uma vida marginal de vadiagem, álcool e brigas que contrapõe-se com seu talento florescente para a literatura. Ele estava sozinho, mas tinha os livros. Era mais um daqueles garotos que passavam horas se divertindo sozinho, brincando com seus amigos invisíveis, criando suas próprias histórias que aos poucos vão ganhando o papel.
Chinaski não tinha um pai? Certo, mas ele tinha Hemingway e Dostoievsky. Com o escritor russo ele aprendeu: “Quem não quer matar seu pai”? O complexo de Édipo rodeia Chinaski por toda a obra. “Ele” é o cara sacana, “Ele” é o responsável por seu sofrimento, “Ele merece” morrer. Esse ódio por seu pai (na realidade um alcoólatra violento) permeia toda a obra do velho “Buk”, e é outro dos sentimentos mais antigos da humanidade, estudado por Freud como uma das raízes dos principais tabus da nossa sociedade. Essa capacidade de transformar o dia a dia em poesia, de pegar as bebedeiras triviais, as angústias adolescentes e transformá-las em arte é a mágica de Bukowski. Sim sua linguagem é chula, ele fala de sexo o tempo todo e não finaliza com chave de ouro, mas isso não é o que importa. Aliás no mundo de “South Park” falar palavrão não assusta mais ninguém. Tire todas “bucetas” e “merda” do texto e você ainda terá um livro genial. O que importa é seu retrato do homem comum.. O resto é excesso.
Misto quente(Ham on Rye), publicado originalmente em 1982.
Fred Di Giacomo,
brincou tanto de criar histórias que acabou passando-as pro papel
26/05/04
-Leia a resenha do livro Cartas na Rua, de Charles Bukowski
-Frases do velho safado