“o pássaro azul”, poema de Charles Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

(Tradução: Pedro Gonzaga)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

“Navio negreiro” – poema de Castro Alves

Navio negreiro” é um dos poemas mais conhecidos do baiano Castro Alves. Para ilustrar essa comovente crítica abolicionista, selecionei a única foto conhecida de um navio de escravos, tirada em 1882.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Foto de um navio negreiro em 1882, feita por Marc Ferrez.

Navio Negreiro
Castro Alves
I

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu …
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! …

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! …

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! …

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
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– Leia mais poesias

”Uma temporada no inferno” – Artur Rimbaud

-Leia outras poesias

rimbaud-young

Delírios

II

Alquimia do Verbo

Para mim. A história de uma de minhas loucuras.

De há muito, eu me vangloriava de possuir todas as paisagens

possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia

modernas.

Extasiava-me diante de pinturas idiotas; portais, decorações. telas de

saltimbancos, desenhos, estampas populares; literatura fora de moda,

latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossos

avós, contos de fadas, livros infantis, velhas óperas, ditados tolos,

ritmos ingênuos.

Sonhava cruzadas, viagens de descobertas, das quais não existem

noticias, repúblicas sem história, guerras de religião sufocadas,

revolução de costumes, deslocamento de raças e continentes:

acreditava em tudo quanto era encantamento.

Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco, I vermelho, O azul,

U verde. – Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e me

vangloriei de inventar, com ritmos instintivos, um verbo poético

acessível, algum dia, a todos os sentidos. Eu me reservava a sua

tradução.

De início foi apenas um estudo. Escrevia os silêncios, as noites;

anotava o inexprimível. Fixava as vertigens.

***

Longe dos pássaros, dos rebanhos, dos camponeses,

Que bebia eu, joelhos em terra, naquela mata

Rodeada de ternos bosques de aveleiras,

Numa tênue e verde bruma, ao meio-dia?

Que podia beber neste jovem Oise,

— Olmos sem voz, relva sem flores, céu aberto! –

Que podia beber nessas amareladas cabaças, longe. de

[minha choupana

Querida? Um licor de ouro que faz transpirar?

Eu era como um torpe emblema de hospedaria.

— Uma tempestade desterrou o céu. Dentro da noite

A água dos bosques perdia-se entre as areias virgens,

O vento de Deus lançava pedras de gelo sobre os

[charcos;

Soluçando, eu contemplava ouro – e não pude beber.

***

Às quatro da manhã, no verão,

O amoroso cansaço dura ainda.

Sob os pequenos bosques se evola

O perfume da noite de festa.

Ao longe, na ampla oficina,

Ao sol das Hespérides,

Já se agitam – em mangas de camisa –

Os Carpinteiros.

Em seus Desertos de musgo, tranqüilos,

Trabalham preciosos lambris

Nos quais a cidade.

Pintará falsos céus.

Oh, por estes Obreiros, encantadores

Súditos de um rei da Babilônia,

Abandona um instante, ó Vênus,

Os Amantes de alma coroada!

Ó Rainha dos Pastores,

Leva aos trabalhadores a aguardente

Que lhes retempere as forças

***

A velha poesia tinha boa parte na minha alquimia do verbo.

Habituei-me à alucinação simples: via com toda a sinceridade uma

mesquita em lugar de uma fábrica, uma escola d tambores com anjos

por discípulos, caleches nas estradas do céu, um salão no fundo de

um lago; os monstros, os mistérios; um título de vaudeville

provocava terrores a meus olhos.

Depois expliquei os meus sofismas mágicos com a alucinação das

palavras!

Acabei considerando sagrada a desordem de meu espírito. Ocioso,

vítima de acabrunhante febre, invejava a felicidade dos animais – as

lagartas, que representam a inocência dos limbos, as toupeiras, o

sono da virgindade!

Meu caráter azedava-se. Despedia-me do mundo numa espécie de

romances: (…)

-A morbidez científica de Augusto dos Anjos

-Rambo lê Rimbaud

Arthur Rimbaud (1854 – 1891)

A vida de Rimbaud foi tão intensa e vibrante quanto seus poucos e precoces poemas. O poeta francês deixou apenas dois livros (“Iluminuras” e “Uma temporada no inferno”) escritos quando ainda era muito jovem. (Entre 15 e 18 anos).

Precursor do simbolismo, foi amante de Paul Vérlaine, contrabandista de armas na África e inspiração para o ensaio “A Hora dos Assassinos” de Henry Miller. Personificação do mito romântico do escritor que vive seus escritos, Rimbaud seria, segundo Paulo Leminski, um astro do rock se tivesse vivido nossos tempos.

Soneto da Separação – Vinícius de Morais

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

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