A Torre

“O Rei está falido e bipolar”,
Disse o bispo deprimido
à rainha em pânico.
“Pelo menos temos a Torre”,
suspirou o último dos peões,
“a Torre é nosso pilar.”

O reino negro está
coberto pela teia prateada
E a viúva ceifadeira segue
espalhando paralisia pelas casas brancas.
“Pelo menos temos a Torre”, recitou o cavalo hidrófobo,
“a Torre é nosso pilar”.

Por toda muralha já se vê o mofo melancólico
enroscando o reino adversário
“Que amarga vitória”, lamentou-se o envelhecido rei alquebrado,
“Nossos adversários eram nosso espelho,
nossa âncora e nossa cultura.
Pelo menos temos a Torre
e a Torre é nosso pilar.”

***
“Mas que diabos é essa sujeira no tabuleiro?
Esses destroços e esses ossos?
Limpem essa porcaria, pra que a Torre possa se equilibrar”
Mas nenhuma das figuras daquele tablado
– Nem mesmo o Valete descartado –
Ousaram revelar:
aquilo era o resto da Torre
esmigalhada ao luar.

Argonauta


Argonauta
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Um zé doidim, uma cigana;
simplicidade que o progresso esgana.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
fantástico realismo da terra seca
Flutua pela cidade plana
***

Hoje, acordei desesperado
Precisando de Penápolis no sangue
Hoje, acordei angustiado
Ansiando pelo azulhorizonte.

Na Rondon, destemidos postes
eletrificam o verdemar.
O marrom raro dos cupinzeiros
beatifica naivés crianças.
Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas,
Fundada sobre Coroados e colonos,
Argonautas deste seco oceano.
O calor, o caipira e a cana,
Muita saúva e pouca saúde
Os males do sertão são.

Aí, queria ter o sangue do poeta
De Granada e da revolução.
Minha bisa veio de España
Onde o sol também retorce as árvores
E agita o rojo sangre
Um matuto, um vira-lata,
A benzedeira e a pipa;
Este sangue, esta sede
Quanta cana, esta rede

(Vierde que te quiero vierde)

Cana, cana, cana, cana
Céu azul e nuvens brancas
Ayer abuelita en Montilla,
Hoy Penápolis; el sueño mañana.”

Um poema de Fred Di Giacomo em homenagem a Penápolis, Granda e Federico García Lorca de quem herdou o nome.

Bedibê lança vídeo de “Diálogo de dois amigos” pra encerrar 2016

Pra terminar seu ano produtivo (que teve o belo clipe de animação de “Esquina“, o disco “Envelhecer” e alguns bons shows por São Paulo), a Bedibê lançou um vídeo para “Diálogo de dois amigos” cheio de gravações caseiras que contam a história da banda de 2011 até o finalzinho de 2016, com direito a casamento e filhos surgindo pelo caminho, enquanto o refrão martela o mantra “É pra parar, a vida pede pra gente parar, pra sentir o mundo girar/ A vida pede pra gente parar e não ficar sempre no mesmo lugar”.

Sobre a importância da “classe média dos artistas”, por Bruno Tolentino

Muitas teorias sobre cultura rezam que os gênios só surgem em ambientes criativos; em uma cena que os estimula, os sustenta e eleva seu nível. Por isso alguns momentos e locais da história seriam celeiros de grandes criadores, onde tudo acontece “ao mesmo tempo agora”. A Paria da década de 20, a Nova York dos anos 70 ou a Viena do final do século XIX são alguns exemplos. Abaixo o polêmico poeta e crítico Bruno Tolentino dá sua visão sobre a importância de uma “classe média intelectual” que permite o surgimento dos grandes gênios. (e a falta que essa “média” faz  no Brasil). É um trecho do prólogo de “Os sapos de ontem”.

“É que toda agitação artificial e estéril confunde, dispersa ou paralisa um elemento indispensável a qualquer sedimentação cultural: o bom escritor de segundo escalão, de porte mediano, fruto da excelência do esforço, da dedicação ao estudo, do suor do talento e não do gênio. É ele que, paradoxalmente, sustém as
altitudes do gênio de uma raça, embasa-as à maneira da cordilheira erguendo, sustentando seus cumes. A solidão destes últimos não pode ser, não tem porque ser total, ela é tática apenas. Sem a variedade de seus pares, o lobo solitário é pouco mais que um desgarrado, por grande e pungente que seja seu uivo, seu protesto precisamente contra esse isolamento, sempre anti-natural e, enquanto dure, uma perda para todos. Com efeito, os momentos decisivos nas grandes culturas do Ocidente foram aqueles em que toda uma miríade de talentos menores superou a platitude da mediocridade, que é toda outra coisa, e circundou com naturalidade suas figuras de proa. A sólida nave de uma cultura é feita do lenho tosco, mas confiável, do que um povo tem de mais próximo, mais familiar, mais saudável. Os altos mastros não se erguem do nada, mas de um amplo convés do mesmo lenho. Navegar é preciso, mas é toda uma raça que o faz, quem à gávea, quem à bússola, quem à proa e quem à popa – e ao leme, aos cordames, aos remos. A invisibilidade da tripulação nunca é mais que aparente, sua presença miuda é condição indispensável ao bom destino da empresa, da aventura.”, Bruno Tolentino

Escritor multimídia Fred Di Giacomo lança “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”

Capa do livro "Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI", de Fred Di Giacomo

Capa do livro “Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI”, de Fred Di Giacomo

Guia poético e prático para sobreviver ao século XXI” é uma tentativa poética de construir pontes literárias entre mundos distantes, numa época em que o ódio ergue muros e nos isola. São poemas caipira punk que revezam lirismo com pancadaria, Mano Brown com Walt Whitman, Penápolis com Pinheiros, Konstantinos Kaváfis com Beyoncé – delicadas fotos do interior (do Estado e do poeta) com coquetéis molotov que explodem “na cabeça do século”.

Fred Di Giacomo procura transformar a sensação desconfortável de solidão e não pertencimento em um santuário de versos e samplers de rimas, que emulam a mítica casa da Tia Ciata, onde escritores modernistas, como Manuel Bandeira e Mario de Andrade, ouviam a música revolucionária de Ismael Silva, Pixinguinha e Donga com impacto transformador para nossa antropofágica cultura.

Se interessou pelo livro? Adquira o seu aqui! 😀

Caipira punk de Penápolis, cidade do sertão paulista; o escritor e artista multimídia Fred Di Giacomo já foi chamado de “polymath” (algo como “renascentista”) pela Vice americana e elogiado por fazer ” um free-jazz que junta o repertório de vasta leitura com a velocidade fragmentada da sua geração (…) rápido nos diálogos como um devasso de pornô-chat” pelo jornalista Xico Sá (que assina a orelha do seu primeiro livro). Fred usa plataformas como livros, games, poemas, sites, músicas e infográficos para contar histórias, se comunicar com os leitores e produzir arte.

 

Entrevista sobre o livro:

Com elogiado clipe em animação, “De Bolso” lança “Envelhecer”, seu primeiro disco.

A banda é nova,  clipe e disco acabaram de sair do forno, mas já vem ganhando elogios e divulgação em veículos como Play TV (onde o clipe de “Esquina” estreia nesse domingo, às 20:30h) Miojo Indie, PdH e Moozyca

A “De Bolso” é uma banda formada, em São Paulo, por Diego Bravo (percussão e vocais), Fred Rocha (baixo, voz e cavaco), Karin Hueck (voz e teclados) e Tiago Van Deursen (voz, violão e gaita)

Assista ao belo clipe de “Esquina”– uma animação do artista mineiro Alisson Lima:

O disco

“São oito composições que flutuam com delicadeza entre a MPB dos anos 1970 e o folk. Um material essencialmente delicado, preciso.”, Miojo Indie

Com influências variadas que vão dos uruguaios do Perota Chingó até Novos Baianos, passando pelo punk rock, mpb e samba clássico, o grupo ficou em estúdio por quase dois anos gravando com o produtor Gabriel Nascimbeni (do disco “Cidade dos Pescadores“), no Trampolim Estúdio. A mixagem foi feita por Fábio Barros e a masterização por Arthur Joly, do RecoHead Records. “Envelhecer” conta ainda com a participação da cantora Ericah Pereira, na suingada “Cantar de Pássaro“, e com os metais de Gustavo Vellutini em “Esquina”, “Gaiola” e “Quatro Horas“. A mistura de instrumentos (charango, cavaco, violão, baixo, gaita, trompete, tuba, teclados, cajon, bateria e muita percussão) dá uma ideia do clima do disco.

Encontros e desencontros
“Eu e o Tiago começamos a nos reunir no  apartamento onde eu morava, no Largo da Batata, pra fazer um som e tocar músicas que não eram nem samba o suficiente pra banda dele, nem rock o suficiente pra minha. Um dia, a Karin tava vendo a gente ensaiando e o Tiago chamou ela pra tocar um piano em uma música. E aí viramos um trio que tocava com cavaco, violão e um teclado de iniciante em um apartamento de um quarto. Por isso DeBolso”, conta Fred.

Pra completar a banda, ele convidou um colega da universidade Unesp-Bauru, Diego Bravo, que tocava numa banda de eletrônico, chamada Strange Music. “Ele entrou pra tocar percussão e aí começamos a compor pra caramba e fazer alguns shows entre 2011 e 2012”, afirma.

Entre alguns shows intimistas, a banda abriu show para o Marcelo Perdido e Hidrocor no Cafofo, em Pinheiros, e tocou em um evento do Zona Punk, no centro. Mas em 2013, Fred e Karin pediram demissão de seus empregos e foram morar em Berlim. “A Banda ficou meio parada, mas o Tiago continuou compondo. A música ‘Esquina’ é dessa época”, conta.

Gravação do disco "Envelhecer"

Gravação do disco “Envelhecer”

Ouça o disco “Envelhecer” completo:

– Spotify:
https://play.spotify.com/artist/1zLViYnVi3Own0KpwNgC8R?play=true&utm_source=open.spotify.com&utm_medium=open

– Soundcloud:
https://soundcloud.com/abandadebolso

“o pássaro azul”, poema de Charles Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

Tatuagem inspirada no poema de Bukowski

(Tradução: Pedro Gonzaga)

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

Navio Negreiro 2.0

morier

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

E batalhamos dinheiro!

Um trocado, dinheiro
Um programa, dinheiro
Uma vida, dinheiro
Uma laje, dinheiro
Uma aula, dinheiro
Uma chupeta, dinheiro
Batalhando, batalhando, batalhando
dinheiro.

O tempo inteiro!

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Olha lá quem vai passando
É Oxóssi que vão carregando
Olha lá Oxóssi cavalgando
Seu cavalo Fernando
Seu cavalo vai sangrando
Baledo, bambeando
Mais uma morte vou cantando
O sangue espumando
que polícia vai ‘rrancando

Era assim ontem, era, sim
Capitão do Mato, no interim
de ontem e hoje, tão ruim
De caçar, matar pra mim

Que sou branco, mas por favor
Sou branco, mas não senhor
Sou branco, mas tenho horror
Do navio negreiro com roda e motor
Que ronda a quebrada espalhando dor
Enquanto eu ouço um tambor,
No funk e no samba é só o amor.
Mas na calada, na quebrada, quanto horror.
Seu delegado você não é doutor
Seu delegado você é um feitor

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Fernando não era bandido
Isso que é o mais doído
Era um trabalhador sofrido

Que a polícia meteu bala de fuzil
Fernando morreu, sumiu
Mais um óbito no Brasil
“Se é preto foda-se, nunca existiu”
Aqui só gostam branco, amarelo cor de anil
O resto que vá pra puta que os pariu

Dona Ana não era puta
Por favor, seu policia, escuta
Criou 4 filhos com conduta
Nunca entrava em disputa
Dona Ana era astuta
Sem diploma ou batuta
Limpar chão era sua luta

Limpar chão, limpar chão
Limpar com sua mão
carvão
clarear o chão do patrão
clarear o chão do Capitão
Limpar chão, limpar chão
Que lamento que tensão
A molecada sem pai, sem atenção
Sem escola ou educação
Limpar chão, limpar chão

Chão sujo de sangue
Vontade de apoiar a gangue
Que mandava na rua do Mangue
Vontade também de tirar sangue
água com açúcar, suco Tang

Nada acalma
Nada sossega a alma
Na cara estala a palma
No âmago instala o trauma

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Tanto esforço
Tanto, sonho, seu moço
Agora fundo do poço
Chuparam a vida até o caroço
É tanto esforço
E eu que torço, torço
Pra que, seu moço?
Agora esse alvoroço
Dói até o osso
Até o osso

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Como era há 500 anos
Como era há 500 anos
Como era há 500 anos

(Em Órum, um canto
Um lamento de Fernando
Que já dura 500 anos)

“Em quinhentos anos nada mudou
Eu era um escravo e ainda sou
índios, negros e brancos pobres
são a base da imensa pirâmide que dorme
Imponente o gigante Brasil não levanta
O país do futuro suas dores canta
Com a alma dilacerada e a fé em Deus
Esperando na Terra o que Jesus prometeu

Nada mudou, mas vai mudar
Nada mudou, vamos mudar
Nada mudou, vamos mudar?”

Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Somos um povo guerreiro
Amontoado no navio negreiro

Somos um povo guerreiro
Somos um povo
Somos um.

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Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia; autor de “
Canções para ninar adultos” (Ed. Patuá) e “Haicais Animais” (Ed. Panda Books), criador do projeto Glück — uma investigação sobre a felicidade e roteirista de diversos jogos e newsgames. Ele também toca baixo na Banda de Bolso. Seus poemas estão espalhados aqui.

Inspire-se: 10 pessoas que desenvolveram projetos legais em 2014

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Lá no Glück Project, fizemos uma listinha com 10 pessoas que desenvolveram projetos em 2014 e nos serviram como inspiração. Tem feministas, professores de escolas públicas, jornalistas independentes, editores de livros de ficção e mais uma penca de pessoas inspiradoras. Se estiver precisando de um soprinho de ânimo na sua vida, dá um clique aí!

Eu odeio a minha geração

hipss

Tentei ser uma boa pessoa

Meditei
Refleti
Fiz análise
Tomei psicotrópicos
Desbundei
Fumei maconha
Viajei

Mas continuo um merda.

***
Eu odeio minha geração
Toda bundamolice, egoísmo, choradeira e egolatria
Eu canto minha geração e vomito na minha geração
Porque cada átomo que pertence a vocês
Pertence a mim
E isso me dá náusea.

Hoje arranquei os olhos da televisão
Queimei os campos de futebol
Flanei pelas farmácias espaciais que vendem alegria artificial
Ri das revistas que prometem corpos perfeitos para o verão
E das universidades que preparam moleques para vender seus sonhos no mercado de mentiras

Eu peguei todos meus sonhos, embrulhei num pacotinho reciclado
e troquei por uma plaqueta escrita “empreendedor”
um amigo que era DJ fez a trilha sonora ideal para que inscrevêssemos tudo isso num edital do governo
Perdemos o prazo porque um pequeno grupo de caraspintadas fez um protesto relâmpago que parou a rua

Protestavam contra a erupção do Vulcão
Protestavam contra o passar veloz do tempo
Protestavam contra as árvores que fazem striptease no outono violento
Protestavam contra os rios que se despedem sem dizer adeus

***
O mundo entorta os certos
e premia os cuzões

O mundo alimenta seu ego
E te faz crer que você é especial

Não acredite

Você é bosta
Adubo de plantas
Poeira cósmica
Carbono
água

acaso

O poema mais bonito
que Deus jamais escreveu

Fred Di Giacomo é escritor e jornalista multimídia. O conto “O homem que colecionava dedicatórias” abre seu primeiro livro “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela editora Patuá. “Canções” foi publicado  em um formato inspirado nos velhos compactos de vinil e é dividido entre Lado A (com contos fantástico) e lado B (com contos mais marginais). Fred também é autor do infantil “Haicais Animais“, criador do projetoGlück – uma investigação sobre a felicidade e autor do roteiro de diversos jogos e newsgames.

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