3 fábulas chinesas saídas das quebradas

1.

O Bola se achava o maioral da quebrada porque controlava a maior parte das biqueiras da Vila. Um dia ele se assustou ao ver o franzino Mãozinha com a morena mais linda do culto. “Como é que aquele cara tão desmilinguido (e sem uma mão!!!) podia andar com uma deusa daquelas?” Bola era mais forte, mais bonito, mais valente e melhor de futebol que o Mãozinha. Ele infernizava o rapaz desde pequeno – aquela afronta não podia ficar assim.

Bola decidiu que iria conquistar a morena mais bonita da quebrada pra ele. No primeiro dia, Bola levou flores pra morena, mas ela disse não. No segundo dia, Bola levou chocolates pra morena e ela disse não. No terceiro dia, Bola levou um pequeno colar pra morena e ela disse novamente não. Irritado, o rapaz não teve dúvida: forçou a pobre morena a satisfazer-lhe as vontades ali mesmo, na casa do Mãozinha.

Bola sentia-se seguro violentando a mulher do aleijão porque sabia ser mais forte e mais valente. Ele não sabia, no entanto, que o Mãozinha chegaria mais cedo naquele dia, nem que o maneta seria corajoso o suficiente para descarregar o trezoitão em sua cabeça gorda. Seus miolos espirraram na parede, no exato momento em que seu prazer espirrava de seu corpo suado.

Bola esqueceu que ele – apesar de valente, bonito, forte e bom de futebol – não tinha o peito de aço.

2.
Galeguinho gostava de fumar um do bom pra ficar chinesinho. Enquanto seu amigo Larica dizia que o mato lhe deixava louco, Galeguinho achava que ficava mais inteligente. “A fumaça na cuca é um anabolizante para os neurônios”, pensava ele.

Um dia, Larica tomou chá de cogumelo e contou pro Galeguinho que o efeito era cem vezes mais forte que o do causado pela maconha. Isso deixou o  jovem ambicioso muito animado: “Ficarei cem vezes mais esperto bebericando esse chá!”.

Depois da chuva vem sempre o cogumelo de Zebu, e Galeguinho se fartou do psicodélico chá. Em seu sonho maluco, Galeguinho sonhou que era uma borboleta voando pelos campos da China. Quando acordou, Galeguinho não sabia se era o Galeguinho que sonhara ser uma borboleta ou se era uma borboleta sonhando ser Galeguinho. Talvez a borboleta fosse o Galeguinho! E talvez o Galeguinho fosse a borboleta!

O rapaz acabou no manicômio judiciário de Franco da Rocha.

3.
O cabo Du sempre pedia uma coxinha e um pastel na venda da Dona Isabel. Dona Isabel – que tinha 5 filhos e era viúva – explicava que não podia vender fiado, mas o policial prometia proteção em troca da boquinha grátis. Num dia ensolarado, 7 moleques da turma do Vandinho entraram na venda da Dona Isabel e levaram tudo. Desesperada, a pobre viúva foi pedir proteção para o cabo Du.

“Sinto muito, Dona Isabel, mas a turma do Vandinho tem as costas quentes. Não posso fazer nada. Na próxima, eu adianto o teu lado.”

Dona Isabel assentiu, humilde, com a cabeça preenchida por cabelos brancos. Na próxima vez que colou na vendinha, o cabo roliço devorou seu pastel de frango com goles gordos de guaraná Super Plá e deixou a coxinha pro final. O crocante surpresa da delícia salgada era caco de vidro moído que encheu a goela do cabo de sangue e rasgalhou-lhe as tripas, mandando-o embora de rabecão.

Na hora da agonia, o polícia rezava e implorava para que Deus o salvasse, mas nosso Senhor fingiu-se de besta porque aprendeu há anos que não se deve dar moral aos mentirosos e vacilões.

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