Minha cidade era pequena como minhas ambições – Fred Di Giacomo

Minha cidade era pequena como minhas ambições. Havia um posto de gasolina, uma igreja luterana, dois prédios de 6 andares, três farmácias concorrentes. Houve uma vez um circo itinerante. No circo eles não tinham elefantes, equilibristas, nem mágicos. Eles tinham pequenas aberrações e uma câmara de pesadelos.

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Nunca levei meus sonhos muito a sério. Sonhos pra mim consistiam numa sessão noturna de cinema grátis proporcionada por meu cérebro. Minha cidade já não tinha cinema algum. Repetindo a sina de tantas outras salas, a que aqui existia virou igreja evangélica. Aliás, foi no extinto “Cine Kane” que um dia assisti “Batman: Returns”, do Tim Burton, antagonizado por um Pinguim realmente assustador, vivido por Danny DeVito. Aquela matinê foi minha primeira vez no cinema. Por 10 anos sonhei com a cena final do filme, na qual o vilão morto é carregado em direção às águas geladas de um rio por uma legião de enlutados pinguins.

Daí em diante, nunca mais sonhei.

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Um dos poucos retratos conhecidos da trupe do Circo D'Arca, sem data conhecida.


Não sonhar me deixou tremendamente excitado com a ideia da “Câmara de Pesadelos Ocultos” do “Circo Arkham”. Arkham era um nome muito difícil de pronunciar e os caipiras da minha cidade preferiam chamá-lo de “Circo d’ Arca”, em referência à “Câmara”. Além da Arca, as atrações deste distinto freak show incluíam um macaco de olhos injetados (que utilizava uma pequena asa delta para dar rasantes muito próximos às cabeças do público), um anão, uma mulher-barbada, um lutador de kung fu, um sonâmbulo que adivinhava o futuro e um suposto “Homem-Elefante”. Cético, papai garantia ser tudo armação:

_Efeitos especiais, garoto, o mundo são ilusões cuspidas por computadores.

Sobre o “macaco alado”, o que vocês já sabem: o animal tinha olhos injetados. Esqueçamos os olhos, concentremo-nos em suas cordas vocais: o pequeno símio gritava histericamente enquanto planava sobre nossas massas encefálicas. Seu grito era humano. Por causa dessa humanidade latente naquele serzinho – que se vestia como um antigo ascensorista de hotel, chapeuzinho vermelho caído de lado na cabeça e fardão combinando – julgávamos que ele pudesse ser filho do Anão. Sim, o pequeno Anão, líder daquela trupe, o pequeno Anão que berrava na entrada do circo:

_Bem-vindos, garotos, ao mundo do bizarro e do sobrenatural! Não tenham medo, bravos garotos do interior. Deixem que Cesare lhes leia o futuro nos olhos. Nosso sonâmbulo nunca erra… Nem nunca inventa verdades! Ou, então, se forem realmente corajosos, provem os delírios da “Câmara de Pesadelos Obscuros”.

O Anão não tinha barba, não tinha asa delta, não tinha força e não tinha nem um metro de altura. Ele e o macaco eram minhas atrações favoritas no circo. Compactas e intensas.

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Conseguiram manter nossa ansiedade encaixotada até que o primeiro adolescente experimentasse a “Arca”. Então, nos tornamos viciados em medo.

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Pense rápido: qual é seu pior pesadelo?

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O pior pesadelo de Pedro Plínio envolvia uma grande leitoa grávida. Sem anestesia, homens parecidos com médicos abriam a porca com um bisturi. A mamãe suína guinchava de dor. Um homem muito grande entrava no recinto segurando Pedro Plínio pelo pescoço e obrigava o rapaz a se enfiar na barriga da porca que estrebuchava. Espremido entre os porquinhos natimortos, ele se encolhia em posição fetal, enquanto a barriga materna era costurada. Afogado em vísceras, ele acordava com apinéia.

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Sem saber explicar exatamente por que, Pedro Plínio assistiu seu pior pesadelo repetir-se 12 vezes em um único dia. Quando o “Circo Arca” deixou a cidade, Pedro Plínio seguiu-o com os olhos esbugalhados, a barba rala, um canto de cuspe na boca e nenhum dinheiro no bolso. O parco orçamento como açougueiro queimou-se em sessões diárias de horror.

Assim como Pedro, os jovens da cidade tinha sede de novidades e emoções fortes. Todos vangloriavam-se por terem andado nas maiores montanhas-russas da região, por tirarem rachas de carro nas estradas e por comerem as virgens dos sítios no pêlo e sem medo de pais brabos. Não podiam resistir à tentação de experimentarem a câmara de pesadelos.

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As sessões eram individuais, duravam 15 minutos e deviam ser pagas com antecedência. Seus piores pesadelos ou seu dinheiro de volta. Pesadelos são uma alta descarga de adrenalina, uma sensação que nenhuma outra droga lhe dá. Eu sei. Eu experimentei. E depois tentei:

LSD- mescalina – maconha – álcool – barbitúricos – cocaína – peyote – daime – lança-perfume – doce – bala – ópio – televisão – sexo pago – internet.

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Nosso grande sonho era ter as 20 pratas necessárias para uma pequena sessão de terror naquela caixa obscura e apertada. Com o tempo, os preços foram inflacionando: 35, 40, 50… Até chegarem ao absurdo de 100 pratas POR SESSÃO. Três meses depois do início daquela febre, o Circo Arca deixou nossa pequena vila empobrecida. Levavam em seus trailers nossos salários, nossos modernos televisores, nossos porcos, galinhas e algumas de nossas mais belas crianças. Não que todos os pais tenham seguido o exemplo de Endrigo Borges, que trocou a delicada filha de 15 anos por 3 sessões extra de seu pesadelo favorito. Aparentemente, Endrigo sonhava estar em uma bela ilha grega, de frente para o azul tranquilo do mar Egeu, no interior de uma casinha branca encravada nas montanhas vulcânicas. Cercado por primaveras de folhas verdes e flores róseas, Endrigo Borges era seviciado por uma mulher gigante e farta que empalava-o com um salto agulha finíssimo. A dor, no entanto, era provocada por uma pequena formiga que lhe devorava o globo ocular.

Imaginar a pequena Margarida Borges nas mãos daquele Anão monstruoso me enche de tristeza. No entanto, a maioria das crianças deixou nossa tribo e seguiu o Circo por livre e espontânea vontade. Hipnotizadas, elas marcharam pelo interior do país em direção ao norte, atrás de seus piores pesadelos, tal qual a lenda do “Flautista de Hamelin”.

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Em casa, comentários sobre a Arca eram proibidos por papai. Não se falava no assunto, mas ele enchia o vazio de nossas conversas. O número de crimes, de internações, de histórias pervertidas que rondavam a cidade parecia aumentar, mesmo que ninguém tivesse dados ou estatísticas oficiais. Alguns defendiam a Arca como terapia holística e medicina alternativa, diziam que uma pessoa que desfrutava de suas sessões não tinha motivos para cometer qualquer perversão na vida real. As experiências vividas naquele pequeno espaço serviriam como a própria realidade.

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Estive lá algumas vezes, confesso. Reencontrei-me com o funeral de pinguins levando um homem morto para águas geladas. No entanto, o homem não era mais um vilão dos quadrinhos. Em despeito da ambientação gótica, das grandes torres, da névoa e do cheiro de frio, não estávamos em uma história do Batman. O homem que os pinguins carregavam era meu pai. Por semanas paguei pra ver meu velho ser enterrado. E eu sorria, enquanto as lágrimas escorriam de meus olhos. A dor era tão funda, a carne lacerada era tão cara a mim, que aquele raio de dissabor atravessava a realidade e era cuspido do outro lado como um prazer inalcançável. E esse prazer… Esse prazer era o inconfessável.

***

No dia em que a Arca me presenteou um pesadelo no qual eu e meu pai éramos esquartejados, enquanto uma tribo de hunos violentos violava minha mãe, minhas tias e minha pequena irmã, eu resolvi desistir do Circo. Instantes depois, fui tomado pelas crises de abstinência.

***

Um cheiro de açúcar no ar – chovera. Papai caminha em direção ao circo. Acha que em casa todos dormem.

Meus olhos evitam cerrar-se. Eu espreito o velho na noite. Com que direito? Quem sou eu para julgar o homem que eu enterrei em meus sonhos tantas vezes seguidas? A cada passo dado, cada passo cansado, as solas grandes de meu pai afundam quentes na lama fria. Seus ombros curvados levam – pesada – a culpa do mundo.

Quando papai passou a subtrair jantares de sua rotina, quando a barba tomou lugar em sua face como mato selvagem que cresce em terrenos baldios, quando gritos de terror passaram a serem ouvidos em nossa casa em plena madrugada; então eu soube que toda decência da cidade havia ser perdido.

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Envergonhado, com a cabeça baixa, o ex-homem bom dá suas notas amassadas para o Anão asqueroso. Aguardo alguns segundos. Um sorriso torpe do pequenino capataz assente que eu entre junto por uma quantia generosa. Preciso descobrir qual pesadelo pesa pro meu pai. Dentro da câmara escura, entre o cheiro de mofo e o gelo seco, meu velho se encolhe – retraído. Ali, no nada, suas retinas filmam seu devaneio favorito:

Por mais uma noite seguida, ele é vítima dos olhos decepcionados do seu filho, que o flagra na fraqueza do vício. Tão humano que dá nojo.

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