Cinema Marginal (Era pra ser uma história de amor)

Acordou com um corpo estranho ao seu lado, ao menos o tal corpo respirava. O “seu” enlaçado pelas mãos daquele homem. “Onde estou”? Às vezes, esquecia quem era, não tinha uma identidade completa, um milhão de fragmentos, caleidoscópio de mulher, átomos, células, sonhos… E ele ali. “Ta, é o Alex, transamos de novo, acho que ele vai se apaixonar”…

Tinha viagem marcada, levantou rápido, olhou o celular, atrasada, como sempre. Banheiro, banho, troca de células mortas, troca de pele, como uma serpente se enroscando na toalha, todas as curvas molhadas secando com o contato do pano. Seios e nádegas fartas, num corpo delicado e pequeno. Era Luisa, agora lembrava, 24 anos, formada há dois em comunicação social habilitação em salvação de almas, trabalhava numa ONG de educação popular, “Paulo Freire vai pro céu”. O corpo ao seu lado já fora seu namorado, melhor amigo, irmão, pai, amante, bufão, agora trabalhava 12 horas por dia numa revista de comportamento e tentava fazer cinema à noite. Agora, era um corpo amolecido, cansado, frustrado, transformado em proletário não pela catequização comunista, mas pela realidade da vida, que colocava ferramentas, porcas e argamassa nas mãos dos poetas e os mandava construir sonhos concretos. Sonhos que o dinheiro pudesse comprar ou que pudessem caber nas páginas dos jornais e revistas.Estava escrevendo seu grande roteiro que não terminava nunca. Era a história dos dois, numa visão hermafrodita, fluxo psicológico bissexual e outras conversas intelectualóides, sem fim, como aquelas noites, que se repetiam eternas, os dois depois de umas cervejas, conversas sem sentido, acabando juntos, um dentro do outro, ele falando sem parar, os olhos dela fechando… A moça dormia, sonhava e esquecia tudo. Voltava a ser uma menina e o corpo era só dela. E o amor era só uma figurinha num álbum de dois reais. Acordava sem nem lembrar, conversavam sem pressa, com a intimidade dos casais que comemoram as bodas de ouro e, então, ele partia pra mais 12 horas de jornalismo, sem direito a ventre livre ou lei dos sexagenários. Sem saber quando voltariam a se ver. E quando os dois já quase esqueciam quem eram, se encontravam numa noite pra mais cervejas e conversas sem sentido. Ad infintum, num eterno retorno…

Comeu pão integral com requeijão e café preto. Alex tomou só café e falou do seu roteiro. Era inteligente, o rapaz, já estava com cabelos brancos e ainda não tinha ganho dinheiro suficiente pra comprar sua câmera digital. Estava todo empolgado porque tinha entrevistado o cineasta e lenda Zé do Caixão.

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa "5 contra 1" da Mundo Estranho

O dia que entrevistei Zé do Caixão para o programa “5 contra 1” da Mundo Estranho

_ Eu vi ele de pertinho, nega, ta velhinho e com bafo de fumo e cachaça, é um gênio, um gênio, quando eu fizer meu filme ele vai ter papel garantido!

Falava rápido e enrolado. Luisa torcia pra que um dia o tal filme saísse, ela também estava dirigindo seu documentário. Era sobre as crianças de rua, a ONG tinha conseguido um incentivo do governo pra rodar a película e cadastrar as crianças em instituições de caridade. Saiu, o moço, sem saber se um dia voltaria a vê-la ou não. Ficou, a moça, sem saber se voltaria a vê-lo ou não.

Limpou a lagriminha do rosto, deu adeus aos potes de aveia, fotos e pinturas na parede, entrou no carro, ligou o som e deu ignição. VRRUUMMM! Pessoas, cachorros, pedras, lojas cheias de logotipos, luminosos, cores, VRRRUMMM! Vento no cabelo num dia qualquer do começo do século. “Paulo Freire vai pro céu”, crianças negras, mulatas, brancas encardidas, narizes sujos, cabelos desgrenhados. “Tia! Tia! Vai ter comida?”

Câmera filmando: FILMA, FILMA, FILMA, FILMA, POBRE, POBRE, POBRE, POBRE.

(Rápida interferência, a história do CINEMA MARGINAL, roteiro de Alex):

Cena 2.

Panorâmica de bairro de periferia.

Cineasta _ Esse bairro chama-se Novo Brasil, de novo tem apenas os eletrodomésticos comprados em milhões de prestações, é mais uma foto do subdesenvolvimento. Não há promessas, índices ou dados de campanha que nos convençam de que o país está melhorando quando se vê a desgraça na qual se encontra o Novo Brasil. Novo Brasil é um aborto da humanidade, um sonho que podia ser mais não foi. Fodido. Uma boca de drogas há um quarteirão, crianças fumam crack à noite. Bebês choram – a trilha sonora do gueto – casais brigam, choro, carros velhos, choro, carroças, choro, cocô de cachorro, choro. As pessoas parecem pedaços de cocô ambulante. E são. E no sétimo dia, Deus descansou. E, descansado, cagou os pobres.

Cenas de bagunça

Cena 3.

Magrão(olhando pra câmera) _ Seu moço, seu moço o que o senhor ta fazendo ai?

Cineasta _ Isso se chama cinema!

Magrão _Cinema é de comer seu moço?

Cineasta _Não, mas mata a fome que nem televisão.

Magrão _ A sim, to compreendendo… Vai passar na televisão? Na Grobo? Posso mandar um alô pra rapaziada?

Cineasta _ Não vai passar na Globo, não. Isso aqui não é comercial.

Magrão _ A não vai não, é? Mas porque, ceis num gosta da Grobo, não, seu moço?

Cineasta _ Isso aqui é cinema marginal. Não passa na televisão.


não a globo

Magrão _ Se não passa na tv, ninguém assiste, né mesmo? Lá no meu barraco, pelo menos, né? Cê sabe, eu moro num puxadinho, atrás dos meus pais. Porque ta duro de arrumar um trampo, então eu fico lá, né? Pensando na vida, assim, como se diz? Refletindo né? Refletindo,mesmo.E acho que tudo que nóis aprende hoje é pela televisão. Esses dias mesmo eu tava vendo aquela mini-série bonita na televisão,aquela que mostra como qui os português descobriram o Brasil, um negócio complicado, né seu moço? Sangrento, mesmo.

Cineasta _ Cinema marginal só mostra realidade, é o cinema do povo. Não dá pra passar num canal vendido como a Globo.

Magrão _ Mais que qui adianta fazer cinema do povo, se ninguém vê? Assim, só to refletindo comigo mesmo, né? Porque eu não sou muito do conhecimento, né? Não tive uns estudo assim, mas di vez em quando eu gosto di pensa, de vez em quando. E acontece que não to entendendo assim: a utilidade desse cinema marginal.

(Passa casal na rua.)

Brando _ Cuidado meu bem, tem um bosta na rua.

Tarsila _(desviando de Magrão que vira pra câmera e olha para os dois bravo) Ai que nojo, quase que pisei!.

Cineasta _ O amigo, o amigo!

Magrão_ Eu?

Cineasta_ É você, você não sente falta de realidade na televisão? De povo na televisão, gente que nem você?

Magrão_ Ah, gente que nem eu? Sai fora! Quero ver gente feia? Quem gosta dessas coisa é intelectual, cumunista. Eu gosto de ver aquelas casona grande, Big Brother, mulher gostosa. Você gosta de vê trubufu? Trubufu a gente encara, né? Mais fica pensando nas moça da novela, assim de olhinho fechadinho.(fecha o olho e simula sexo).

Cineasta_ Meu amigo você está alienado, você está fora da realidade, a gente precisa colocar o povo na tela. A gente precisa ter um cinema brasileiro popular, marginal!.

Magrão_ Meu amigo, eu não sou marginal não,ta entendendo? Eu to me alinhando. Eu to me alinhando, pô!

Cineasta_ Então de um grito, vai! Mostra sua casa, onde você mora. Mostra pra gente o povo, pobre, feio, doente, banguela. Mostra pra gente seu José!

rogerio-duarte-en-cancer

Magrão _(tomando a câmera da mão do outro)Ih, vacilão, que seu José o caralho, me dá essa câmera ai. Da essa câmera que agora eu vou fazer um filme. Vou mostrar o POVO pra você(fala última frase com sorriso maldoso na boca.)

***

Luisa tem sérias crises de consciência por ser branca num país negro e rica num país pobre. As pessoas não escolhem como nascem e, provavelmente, os pobres escolheriam nascer ricos.

***

Segunda série do ginásio, ALEX é branco, homem, portador de cultura e preceitos éticos. Seus colegas na escola pública Augusto Pereira de Moraes, não. Renan(branco) para Eduardo(negro)

_Aposto que seu maior sonho é virar branco, né? Quem nem o Michael Jackson, todo negro deve querer ser branco…

ALEX fica inconformado é claro.

***

Se os pequenos meninos de rua querem ser brancos ou não, poucos sabem, eles querem comer e são levados pelo representante da prefeitura para isso. Filinto leva todas as crianças numa KOMBI branca antiga até a escola pública onde elas terão direito a um prato de comida e um saquinho de leite de soja sabor morango. È o salário recebido em troca do uso de suas imagens no filme de Luísa.

Luisa  alonga o corpo, está com dor nas costas. Precisa voltar a fazer capoeira, ficou parada nos últimos seis meses por causa da fisioterapia. A equipe de produção se despede, ela fica fazendo algumas anotações, ouve um barulho… Será um rato? Embaixo da mesa. È quase isso, uma garotinha mulata, de uns sete anos escondida…

_O que você está fazendo ai, menina? Não quer comer? Não ta com fome?

_Tô sim…

_E porque você não foi na kombi com os meninos?

_…

_Vou ligar pro Filinto!

_Não! Não, não liga pra ele não! Ele levou meu irmão ontem e eles não voltaram mais! Eu acho que ele ta fazendo alguma coisa ruim com as crianças…

_Como assim?! O Filinto? Mas ele tá na prefeitura há anos, ganhou o prêmio Betinho de Ação Social por ajudar o próximo!

_Tia, eu acho que ele tá fazendo coisa… Fazendo coisa com as crianças!

_Impossível! Vamos até lá que eu vou te mostrar que ele é um doce!

-Não, tia! Vai toma no cu! Vai cagá! Fia da puta! Eu num vou não!

Saiu correndo desesperada, chorando. Luisa pensa, a coisa pode ser séria… Seu faro jornalístico dispara. “I see dead people”. Pega a câmera, o carro, as boas intenções, e a esperança num mundo melhor e VRUMMM! Segue pra escola estadual “Francisco de Assis França”, enquanto ouve um disco do Tom Zé, e pensa em Alex. “Será que eu to fazendo certo em terminar? E se ele for o cara da minha vida?” Casais, pedras, cachorros, gatos, lojas, e mendigos. Toda rua é igual numa grande cidade do século XXI.

Luzes apagadas na escola estadual. Não há mais aula, é uma hora da tarde. Luisa sente cheiro de morte no ar. Arrepio correndo o corpo, sensação ruim no peito. Medo. Pula o muro, alongando o corpo inteiro como uma gata. Cai no chão, pés empoeirados dentro da sandália, olha pros lados. Barulho vindo da cozinha, fogão industrial, merenda para milhares de alunos: macarrão e arroz com coloral – tudo que a nutricionista elaborou era caro de mais pra ser comprado.

_ Vai, filhinho, chupa, chupa.

Abre a porta da cozinha, tudo vazio, só um pouco de carne cozinhando. “Vai, deixa eu colocar, só um pouquinho”. Sussurros, vindos de baixo. Corre os olhos pela cozinha, abre o armário de baixo, panelas e… tchan tchan tchan tchan um fundo falso. Desce até o final. “Isso, assim, tá vendo como é gostoso? Agora você vai sentir um geladinho…” Um adulto ri, uma criança chora, um adulto ri, uma criança chora. Há sempre um nenê chorando numa vizinhança pobre. Há sempre um grito de dor, e hoje um grito de morte. Corredor escuro, cheiro estranho, acende o isqueiro, MEU DEUS!

(Racha peito essa dor

desilusão, desengano.

A morte, El Salvador

Seres humanos são seres insanos,

Com uma arma ou uma flor.

Aqui brincamos um ano,

Agora só um grito, uma cor.

Racha peito, explode a dor

Morte aqui, El Salvador.

O sofrimento humano
É o único sentimento universal.

(O resto é sexo).

Seres humanos são seres insanos
Racha peito, explode a dor
Com uma arma ou uma flor
Racha peito, explode a dor.
O sangue tem sempre a mesma cor.
Racha peito, esta dor
Essa desilusão, desengano.
A morte aqui ou El Salvador.
Seres humanos são sempre insanos

O Sofrimento humano
É a única verdade universal.
(O resto se releva.)

MEU dEUS! Crianças mortas! Todas as crianças de rua, todo futuro abortado do Brasil, armazenados em freezers gigantes, congeladas, suas expressões de dor eternizadas! São sonhos. Eram pra ser, mas não foram. Um adulto ri, uma criança chora, ainda há tempo de impedir o bastardo, deitado numa sala, pequena, observado por mais dois garotinhos em choque, seu corpo treme sobre o corpo de um garoto. Toda civilização moderna pode ir pro inferno, todos os sonhos, tudo que pensou hoje de manhã é supérfluo, o mundo é horrível, não, é? O MUNDO É HORRÍVEL! A câmera registra tudo, um filme de horror, “Filinto gritou como um filha da puta!” E as crianças riram, riram, gostoso. “Mata ele tia, mata a bichinha” “Corta fora tia, corta o cuzão”. “Não vai haver amor nesse mundo nunca mais”. Suas últimas palavras:

_Querida, eles não são nada, ninguém se importa, eu estou pensando na ciência, você sabe quantas vidas um rim desses pode salvar? Você sabe quantas pessoas “de bem” morrem na fila de um transplante? Você não sabe nada, menina rica, você não sabe nada! Essas crianças não deviam ter nascido! Elas não existem! Não existe infância nos desertos de pedra das metrópoles do terceiro mundo! É tudo propaganda de refrigerante, é tudo propaganda de refrigerante.

Só existe alegria nas propagandas de margarina. Alex não consegue trabalhar em ONG’s por isso se prostitui numa revista de comportamento 12 horas por dia. É muito Bukowiski e pouco Guevara. Seus pais passaram a vida se dedicando ao próximo e acabaram num bairro igual ao de todas as crianças mortas na geladeira da história. O garoto não consegue e nem se conforma, ele só chora e chora, letras, versos e um poema no final desse conto. Já Luisa…

Luisa morreu aquele dia, quem saiu daquela escola era uma mulher completamente nova, desconhecida, agora mãe de três garotos:um negro, um branco e um roxo. Vomitou um bocadinho. E andou até a linha do horizonte. N’algum lugar do mundo….

N’ algum lugar do mundo…

Há uma alma queimando,
Há um sonho murchando,
Há um feto chorando.

Em algum lugar do mundo,
Um ponto, sim um ponto,
Um ponto que poderia ser, mas não foi.
Um ponto pode ser muita coisa:
Uma flor, um coração, uma criança
Ou um alvo em potencial.

Naquele jardim de esperanças,
A última foi queimada,
A minha foi roubada. A história acabou.

31/12/06.
Fred Di Giacomo é jornalista e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais”

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