Tiros, tretas e vagabundagem. (Aconteceu no meu bairro.)

(Esse conto foi originalmente publicado no site Enraizados e faz parte do meu primeiro livro Canções para ninar adultos“. Dedicado a todos amigos do meu bairro)

por Fred Di Giacomo

Não sei quem mata mais a fome, o fuzil ou Ebola. Não sei quem sofre mais, os pretos daqui ou os de Angola,

O Invasor”, Sabotage.

Mestre Sabotagem atuando no filme "Carandiru"

Mestre Sabotagem atuando no filme “Carandiru”

 

_Escuta, vamos matar esse puto logo e sair daqui, não tô afim de preocupação pra minha cabeça.

_ Porra, Bino, você tá amarelando, meu irmão? O negócio é baba, pega o padre, bota uma bala na cabeça dele e boa. Trabalho feito.

_Caralho, Betão, você acha que sair por ai matando padre é um esporte bem agradável, né?

_Ih, calma vocês dois. Vamos agilizar o negócio. O cara vai estar no acampamento sexta, a gente espera na estrada e faz o serviço: simples assim.

Quem falou foi o Fino, o Mudo não falou nada. Ele nunca falava.

***

Tava tocando Bezerra da Silva, cd de camelô. O cheiro de gordura queimando se espalhava pelo bairro. Criança chorando no vizinho. Sempre. Seis caras e três mulheres. Cerveja “Conte” barata e caipirinha com pinga 21. R$ 2,28 no supermercado. Mais barato que maconha. Tinha uma mão de cinco reais também. Mas só o Gil e o Bina fumavam. A galera não curtia, nem pegava bem com os vizinhos. Foda. A Tat chegou, já tava barriguda. De 6 meses. Caralho, como o tempo passa rápido: a mina brincava na rua ontem e hoje já era essa mulher. “Nega linda”, que nem rosnava o Gil, sacana. O pai do moleque tava na Holanda. “Alguma bolsa de estudo?” Não, tráfico internacional. Sem brincadeira. A galera ainda pagava pau. No duro. Mó ascensão social. Não to contando histórinha de Jornal Nacional, é um negócio que eu ouvi na minha vizinhança.

Cheiro de gordura queimando. Sol quente, asfalto esburacado. Parede descascando. Muros baixos cada vez crescendo mais. Vira-latas na rua revirando lixo. Salivando. Cheiro de gordura queimando, mais uma vez. Seu Wilson não gostava da vizinhança, tinha mudado muito. Aglomerado de pobres. Quase todos vivendo como negros, sejam brancos ou mulatos. Som alto. Seis horas, rua cheia de bicicletas voltando do trabalho. Sete horas rua cheia de bicicletas indo pro culto. Pernas que pedalam usando chinelos. Havaianas, as legítimas. Pernas entrelaçadas nas construções inacabadas. Meninas virando mulheres. Aquilo já tinha sido um bairro de classe média baixa, quase todo mundo vivendo como quase brancos. Quase todo mundo, quase cidadão. Agora era o Senhor Wilson contra o mundo, trancado em casa. Tinha TV por assinatura e computador. Tinha medo de assalto e reumatismo. Tinha se aposentado depois de quarenta anos de serviços diversos. Tinha vindo do nordeste sem curso superior. Tinha sobrevivido.

***

_ Caralho, Betão, você tá maluco? A gente não conhece essa cidade, mermão. Porra, onde você ta metendo esse carro.

_Se liga, Bino, caralho! To falando que você tá frouxo. Meu Deus, é por aqui que a gente pega a estrada.

_Betão, seu preto, filha da puta. Se ninguém matar a gente, eu te mato.

_Vai tomar no cu, branquelo! Vou te mostrar o que o negão tem de bom.

_Aposto que o meu pau é maior que de qualquer preto filho da puta.

_Ah, eu aposto vinte conto! Aposto no duro, vou até parar o carro agora.

_Para então, tiziu. Macaco do caralho!

_ Macaco não, hein, seu branquelo! Vou te mostrar a serpente africana.

_ Se o seu pau for maior que o meu, eu chupo ele.

_ Cê vai chupar, então.

Pararam.

Cena do filme "Guido deve morrer", primeira aparição dos matadores Pedro, Bino e Mudo

Cena do filme “Guido deve morrer”, primeira aparição dos matadores Pedro e Bino

***

Cerveja rodando. Vagabundagem sentada na frente da calçada. Silmara com o Wilsinho. Bina conversando com o Juninho e o Bola. Gil em cima da Tat. Sheila dançando. Geninho sentado no canto, batendo o pé, tentando acompanhar o ritmo. Homens brancos não sabem dançar.

_Orra, Bina, a Sheila tá filézinho, hein, mano?

_ Só.

_Se liga, Juninho. Cê não pega ela nem fudendo, a Sheila só fica com boy.

_ Ih, Bola. Cê é gordo, não enxerga nem o pau. Não entende de mulher, mano.

_Vai lá então, garanhão.

_ Que cê acha, Bina?

_ Desisti das mulheres, mano, só como puta.

_ Se acha da hora?
_O foda é que eu acabo ficando amigo e paro. Fico com dó, mó nóia.

_Vai lá, Juninho! O Gil já ta garfando a Tat, grávida e tudo.

_ Treta, hein?

_ Só vai ter treta, se alguém sair falando merda. O macho dela não precisa saber, né? O cara é do movimento, mó foda.

_ Pode crer, vou lá na Sheila, então.

Era loirinha, de olho castanho. Bunda redonda, peitinho arrebitado. Usava shortinho jeans, marcando a lordose, e blusinha de alcinha. Chinelinho Havaiana vermelho. Cabelo solto, compridão até a bunda. Sabia que era gostosa. Dançava requebrando até embaixo. Um crime. Juninho foi. Ficaram o Bina e o Bola. O Bina tinha trinta e dois anos, careca, bigodinho fino. Mulato mais pra negro. Magro. Poeta. Tinha sido punk. Tinha rodado o mundo com a mochila nas costas e uns fanzines dentro. Desenhava pra caralho. Trampava no curtume, turma da noite. Hoje era do rap. Bebia muito, falava pouco.

Daí chegou um opalão com som fudido. Dentro estavam o Morcego, o Renatinho e o Lu Furacão. Tudo turbinado: colarzão de ouro, óculos escuros, camisa de marca. E o Gil fazendo a Tat, lá no fundo. Tinham que segurar os nego lá na frente e avisar o moleque, senão iam querer honrar o amigo que tava tomando chifre lá da Holanda. O Bina foi lá, ofereceu cerveja. A Sheila também foi, ofereceu esperança. A Silmara foi pro fundo avisar os dois.

Seu Wilson estava de olho no esquema. Era o pessoal do movimento, melhor chamar a polícia rápido. Polícia corrupta. Direto parava um taticão na boca do bairro. Parava, ficava uns dez minutos e saía, de boa. Diziam que era batida, mas os traficantes nunca estavam lá. A polícia brasileira tem dois patrões: rico ladrão e pobre ladrão. Ligou mesmo assim. Seu Wilson estava pensando em mudar do bairro.

***

 4 pistoleiros discutindo a aposta:

_ “Cê” vai chupar!

_ O caralho!

_ Isso mesmo, “cê” vai chupar o caralho, ou eu vou por na tua bunda.

_ Calma ai, moçada. _ O Fino saiu do carro.

_Tu tem uma puta pica mesmo, Betão, agora vamos cair na estrada. _ O Fino tentava acalmar os ânimos. O Mudo tava quieto no carro. O Bino entrou rápido, com medo da “serpente negra”.

O Morcego estranhou o Honda Civic parado ali na frente, rodeado por homens de terno e óculos escuros.

_ Ei, boy, que você tá fazendo aqui?

_Se liga, Morcego, o cara tá com a pica de fora. Puta sacanagem dos playboys. Tão achando que tão na Gozolândia.

_ Filha da puta, guarda esse pau, maluco!_ Apontou a PT.

O Betão apontou a dele. A cena congelou. Betão com as “duas” armas em riste. O Fino de costas. Os três traficantes apontando os berros. Close no carro, Mudo girando a chave na ignição. Volta o movimento. Uma bala castra o orgulho do Betão. Fino toma dois tiros nas costas. O Honda Civic sai em disparada. Os três traficantes correm atrás com os canos na mão e dão de cara com o taticão. Seu Wilson olha pela janela, ri. Fez sua parte e botou na bunda dos marginais. Liga pro jornal, põe um anúncio nos classificados. Queria escrever “Vendo terreno no inferno”. Velho exagerado, nem repara que o som rolou até de madrugada.

Periferia é periferia, né?

2005

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Para ler ao som de “Periferia é Periferia” dos Racionais Mc’s:

 

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