Preto no Branco

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Eu escrevi esse conto quando morava em Bauru e estava terminando a faculdade. Uma versão atualizada dele faz parte do meu primeiro livro, “Canções para ninar adultos“, lançado em 2012 pela Editora Patuá.

palhaço-negro

Mesmo o cara que pode conquistar todas as mulheres do mundo é infeliz se não tem a mulher que ama. Eu estava tão triste que parecia que tinha uma gilete rasgando o coração numa bacia de álcool. Tristeza dói. Auto-piedade ameniza um pouco. Tava tudo escuro no quarto, não conseguia dormir. Tinha deitado às onze horas, revirava-me na cama, rolava de um lado pro outro. Onze e quinze. Pensei de novo na Clara, conversava com ela mentalmente, só assim a menina me escutava. Onze e meia, acendi a luz, li um conto do Rubem Fonseca, história maluca, não dava sono, apaguei a luz, tinha entrevista de emprego amanhã, repassei o que podia e o que não podia dizer. Quinze pra meia noite, vou até a cozinha, o filtro ta quebrado, encho o copo d água da torneira, tem gosto de lodo e consistência de barro. Tem gosto de derrota, sou um perdedor, pelo menos nisso sou bom. Na geladeira um punhado de contas, um punhado de fracassos, números de pizzaria. De que me adianta? Não como uma pizza há seis meses, preciso de um amigo com uma condição financeira melhor que a minha pra pagar.

Olho o caderninho de endereços buscando alguém que esteja com a corda mais frouxa no pescoço do que eu. Os sonhadores de hoje são os fracassados do amanhã, ta todo mundo rolando na sarjeta. Edgar queria ser cineasta, agora trabalha de balconista numa vídeo-locadora. Silas, o mais inteligente da classe, fazia parte do movimento estudantil, terminou com a namorada, transou com sua melhor e mais gorda amiga e engravidou a mulher. Uma noite, uma maldita camisinha que estourou, e o cara tem que sustentar uma família. Francisco era poeta, bebeu tanto que ficou louco, outro dia encontrei caído na rua, tinha cagado na calça, fingi que não conhecia, tive nojo. Não devia fazer isso, nós éramos amigos naqueles tempos. Quando as coisas estão boas todo mundo é muito amigo, eu era uma mina de sonhos e hoje em dia animo festas como palhaço. Se você é mais azarado que eu, por favor me escreva uma carta.

Mais um mês sem pagar telefone e cortam a linha de vez, agora só recebo ligações. A luz ta pra estourar.Volto pra cama, não dá pra dormir com tanta coisa pra resolver. Rolo pra direita, não consigo achar a posição certa, não consigo achar conforto. Penso na Clara, penso em sexo, dois meses sem trepar, isso não acontecia quando tinha vinte anos. Puta merda, vai ter que ser assim de novo, meia noite e meia. Vou a banheiro, me masturbo. Dá uma aliviada, quase como fumar um baseado. Volto pra cama e durmo.

_ Clara, eu descobri o mal de todo nosso problema.

“Sim, meu querido, ela parece dizer”.

_Agora nós não precisamos mais discutir, você vai ser eternamente minha.

“Eu sempre fui sua, amor”.

_Olha aqui, arranquei sua língua com a faca!

“Ela tem o sorriso mais lindo do universo, mesmo sem a língua”…

Acordo, atrasado de novo, tenho entrevista de emprego e depois festa de crianças para animar. Vendo felicidade, toda minha alegria artificial é sugada pelas crianças imbecis. À noite fico só, com a maquiagem no rosto, o palhaço mais triste do planeta.

Chego em casa, só o osso, completamente infeliz, vazio. Sou um aborto, uma merda cagada por uma dona de casa em uma maternidade pública. Sempre tive medo da morte, mas agora já não me divirto com a vida. Cortaram a luz, o telefone ainda toca. Desisto de atender, olho pro espelho, a maquiagem está borrada por lágrimas. Sou um palhaço triste, ta ai meu epitáfio.

***

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Um dia iluminado para uma menina dourada: Clara, um metro e setenta, mas queria ser mais alta. Cabelos loiros, mas queria ser ruiva. Olhos verdes, que podiam ser azuis. Clara não estava satisfeita com a vida, mas não queria morrer. Tinha dúvidas sobre tudo:

1975, nasce Clara Alva. Demora para sair do útero materno, hesita. Dois dias de atraso, a mãe morre no parto. Clara suspeita: “Terá sido culpa minha?”

1980, aos cinco anos o vovô pergunta a Clara: “Meu docinho o que quer de aniversário, pede o que quiser que o vovô dá”. Clara pensa, pensa, pensa, mas fica em dúvida. Uma viagem para Disney é melhor que uma casa na árvore? Seu Francisco Alva morre sem saber a resposta.

1990, aula de religião. “Então Deus criou o mundo, certo”? A menina balança, não tem nada contra Deus, nem a favor, mal o conhece. Quando ora, nunca sabe para quem pedir proteção, à alma da mãe ou ao pai que ficou sozinho. Desiste e vai dormir depois do Pai Nosso. “Então Deus criou o mundo, certo”?

_Não, sei.

_Como não? Você não acredita em Deus?

_Não, sei.

_Não sabe, como assim não sabe? Você quer ir para o inferno?

_Não sei…

_Menina, você está ficando louca? Não aceitamos ateus nessa escola.

Expulsa do colégio de freiras, o pai fica preocupado. “Por que você fez isso, minha filha?” Mas não houve resposta. Clara é uma menina muito bonita, mas quase não têm namorados, sempre titubeia para escolher com quem ficar.

1993, ano de prestar vestibular. Tem dúvidas entre Ciências Sociais e Comunicação Social, não sabe se deve tentar ganhar dinheiro ou se deve seguir seus sonhos. Não sabe se deve comer bife ou se tornar vegetariana. O pai pede que preste fonoaudiologia. Indecisa, acaba aceitando.

1997, forma-se sem brilho. Não sabe se é realmente o que quer da vida. Fica um ano desempregada até que o pai lhe arruma um emprego trabalhando com surdo-mudos.

1999, um ano trágico para a menina. Seu noivo Juan Silva, suicida-se. Suspeita-se que o rapaz não agüentasse mais a indecisão de Clara sobre o casamento, afinal, desmarcaram a data quinze vezes. Desesperado Juan foi a sua casa, olhou em seus olhos verdes e falou:

_Clara você ama outro homem?

_Não sei, Juan.

_Clara, você já amou alguém?

_Não sei, Juan, gosto de você, mas não sei se o suficiente…

Atirou-se do décimo andar. Na dúvida, se estava triste ou não, preferiu evitar as lágrimas no velório.

2001, mais um ano difícil. Dimas Alva, pai dedicado, está com câncer. “Deve ser muito triste perder o pai, para uma garota que nunca teve mãe” “Talvez”, ela pensa. Em seu leito de morte o patriarca sussurra: “Filhinha, dediquei toda minha vida a tentar solucionar sua eterna dúvida, não sei se falhei ou não, mas te amo”. Ela ficou quieta. O pai morreu sem paz. “Funerária Bom Pastor” ou “Descanso Eterno”? Nova dúvida. O corpo começava a feder, a família tem que tomar uma atitude drástica. Enterram Dimas como indigente.

2003, está na cama com Juliano. Sua pele branca contrasta com o negro da pele do palhaço triste. Não sabe se o sexo é bom ou ruim, não sabe se já teve um orgasmo na vida ou não, acha que gosta do rapaz, mas não pode ter certeza. Pensa em fundar uma ONG: para ajudar cachorros sem dono ou anjos sem asas.

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2004, prefere terminar com Juliano porque não sabe se quer namorar ou não. O rapaz entra em depressão, não sabe se sente compaixão ou arrependimento. Passam-se trinta anos. Não sabe se a vida é boa ou ruim.

2005, tenta ligar para Juliano. Pode ser que queria reatar, ou talvez seja apenas um pretexto para uma boa conversa entre amigos. Ninguém atende, tem vontade de ligar de novo, mas o rapaz pode entender tudo errado.

2034, Uma mulher vestida de negro bate em sua porta. Talvez a conheça, pergunta se: “Devo chamá-la para entrar ou não.” A estranha acaba sentando-se na sala. Sabe seu nome e fatos relevantes de toda sua vida. “Mas como? Nunca a vi antes.” A mulher é muito pálida e usa um lenço na cabeça. Traz um caderno com diversas datas nas mãos.

_È uma oferta, você nunca decidiu nada na vida, passou-a observando em dúvida, nunca arriscou ou apostou. Ofereço-te a chance de voltar ao parto e viver tudo de novo.

Hesitou. Pela última vez. Sentiu uma dor no peito aguda que lhe garantiu a certeza de alguma coisa. Os olhos pararam. Pela primeira vez não teve que decidir nada. A mulher de negro levou-a para sempre.
13/08/05.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Leia também:

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4 thoughts on “Preto no Branco

  1. Pingback: Punk Brega » Sexo virtual, pop e desencontros – conto de Fred Di Giacomo, extraído do livro “Canções para ninar adultos”

  2. Anonymous disse…
    😮
    incrível!

    7 DE JUNHO DE 2008 16:33
    Frico disse…
    Anônimo quem é vc?

    8 DE JUNHO DE 2008 09:17
    Super Tint’s disse…
    Oh Frederico, bem massa!

    19 DE JUNHO DE 2008 08:51
    Anonymous disse…
    Hmmmm, começou no palhaço e terminou na indecisa, interessantizão! Tipo uma lierdade pra escrever uma coisa e depois outra… esperava terminar na história do palhaço fracassado.

    Simpatizei com o poeta cagado.

    Abraços!

    Maicão

    3 DE SETEMBRO DE 2008 09:45
    Anonymous disse…
    O paplhaço é o namorado da indecisa. Ele é preto ela é branca.A história do relacionamento dos dois é contado através da visão dos dois

    26 DE DEZEMBRO DE 2008 08:25
    Anonymous disse…
    Do Clube de Ideias:

    Filhas da Pagu disse…
    Indecisão algema…
    Algumas pessoas precisam da nossa certeza para a própria redenção. Mesmo que seja a pior certeza, mas a mais sincera.
    Isso de voltar ao útero á a nossa chance, todas as vidas, de sermos mais (ou menos) humanos na próxima. Evolução.
    Mas esse texto envolve tanta coisa que até esqueci do amor, da paixão… Mas esse é um tema que não se esgota.
    Se Clara amasse, se quisesse, se sentisse um orgasmo, com certeza ela saberia.
    Bjs!
    Karol

    16 de Março de 2009 10:36
    Fred Di Giacomo disse…
    Oi, Karol! Pô, que bacana seu comentário todo cheio de análises! To esperando novas poesias suas aqui! beijo, valeu!

    18 de Março de 2009 09:41
    Filhas da Pagu disse…
    Pois é… estava inspirada… rs E o texto realmente merece.
    Quanto aos meus te mando um e-mail!
    bjs

    18 de Março de 2009 13:41
    Eleutherius disse…
    Um breve suspiro… Sabe, nos tornamos um lixo humano diante do exausto cotidiano, sem amor, sem paixão, sem esperança, sem ao menos um gostoso orgasmo. Pagamos para ter tudo isso, ao chegar do cansativo dia de labuta sentamos no velho sofá com cheiro de mofo, em frente a pequena tv ganhada em uma rifa e esperamos o resto do dia passar,se preocupando com o aluguel, a água, a luz, a refeição, e ao dormir com sua linda mulher o nosso orgasmo tem hora como um fast food, rápido e sem graça para poder descansar por mais alguns minutos antes de se levantar as 5 da manhã e sentir o cheiro da carne sendo cortada… Assim da mesma forma Clara podia ser outra pessoa ou “otra vida”, da mesma forma eu também poderia ter “otra vida”, mas ao passo q não podemos nos iludir, a vida sempre será frustrada para quem batalha, e inevitável será a indecisão para quem dia após dia conhece a derrota, porem a vitória será sempre um desejo q mesmo longe nos faz parar de chorar e estampar aquele sorriso de lado sem graça no rosto cansado e com olheira… Não entende o q sou, não entende o q faço, não entende a dor e as lágrimas do palhaço…

    18 de Março de 2009 16:10
    Fred Di Giacomo disse…
    Pô, gente, que legal! Vocês estão mais inspirados nos comentários que eu no texto, heheh. Abraço, mano!

    18 de Março de 2009 19:46
    Eleutherius disse…
    Cara seu texto tah muito bom!!! Na verdade o texto é um espelho para todos…Saudades Irmão!!!

    20 de Março de 2009 11:11
    Bárbara disse…
    Gente, pode parecer um comentário de Pollyanna mas ser feliz é bem mais simples do que se imagina. A felicidade plena e constante não existe. Ela está nas pequenas coisas, nos pequenos prazeres. Valorizar os momentos felizes em detrimento dos tristes é o segredo!

    21 de Março de 2009 14:10
    Eleutherius disse…
    Cara li novamente o texto e estou passando pela mesma situação…Um palhaço triste com a maquiagem borrada a espera de uma decisão…so que não sei ate quando vou esperar por ela.

    1 de Abril de 2009 16:01
    Fred Di Giacomo disse…
    Pô, vc gostou mesmo do texto, hein mano? Mas se vc é o Palhaço triste, que é a clara?

    29 DE NOVEMBRO DE 2009 08:31

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