“Mais podres do que nunca”, como primeiro disco dos Garotos Podres se tornou o álbum independente mais vendido no Brasil

Capa do clássico disco "Mais podres do que nunca"

Capa do clássico disco “Mais podres do que nunca”

por Fred Dio Giacomo
-Leia entrevista exclusiva com os Garotos Podres

Na capa um menino saudável brinca com uma mamadeira, na contra um pequeno africano desnutrido chora esperando a morte chegar. Mais Podres do que Nunca, produzido pelo Redson (Cólera), primeiro disco de Oi! do Brasil, é um clássico do rock brazuca. Todos citam “Dois” do Legião Urbana, “Nós Vamos Invadir Sua Praia” do Ultraje à Rigor ou, “para quem curte um som mais agressivo”, “Cabeça Dinossauro” dos Titãs, mas se esquecem dessa pérola tosca que vendeu mais de 50.000 cópias independentes, ganhou as rádios rock com “Johnny” e “Vou fazer cocô” e ainda cravou dois clássicos no punk nacional: “Papai Noel, Velho Batuta” e “Anarquia Oi!”.

Aqui não há nada que lembre o punk cheiroso de CPM22 e Blink 182, a produção é suja, os instrumentos amadores, a gravação era pra ser uma demo, mas acabou virando disco independente “devido ao resultado surpreendente” pra época. Três faixas gravadas nunca foram lançadas devido à péssima qualidade, as 11 que ficaram trazem a marca dos Garotos Podres; punk simples, mais lento e candenciado que o feito por seus contemporâneos (Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera…) e letras críticas/ sarcásticas carregadas de humor negro. Afinal, quem nos dias de hoje teria a manha de fazer uma letra como a de “Papai-Noel”: “Papai- Noel, filho da Puta/ Rejeita os miseráveis/ Eu quero mata-lo/ Aquele porco capitalista/ Presenteia os ricos/ Cospe nos Pobres.” Ou “Vou fazer cocô”: “Enquanto você, de paletó e gravata/ Aparece na tv/ E diz coisas que eu não consigo entender/ O que que eu faço?/ Vou fazer cocô.” Não, não, muito sujo, politicamente incorreto, prejudicaria as vendas. Rock sem esse espírito de contestação tem o mesmo valor que axé. Mesmo porque, tanto faz ter na rádio É o Tchan e Art Popular ou LS Jack e B5. O lixo é o mesmo, aí talvez até seja melhor o Tchan porque é lixo 100% nacional, os caras das “bandas de pop/rock” de hoje em dia ainda tem a moral de copiar lixo dos gringos. Cada país tem a trilha sonora que merece…

-Leia resenha do disco “Pela Paz em Todo Mundo”, do Cólera

-Leia resenha do disco “Camisa de Vênus”

Bom, voltando aos Garotos Podres, seu disco de estréia gravado em 1985 e relançado com a música “Meu Bem” (uma daquelas 3 que tinham ficado “péssimas”) é o retrato dos anos 80, conturbados, marcados pelo fim da ditadura (que censurou duas faixas do disco), pelas greves de metalúrgicos (ali perto dos Garotos que são do ABC) e pela hegemonia do Brock. Uma história retratada nas 11 faixas desse disco. Uma curiosidade é a música Füher (“Os imundos querem dominar o mundo, com o poder de suas armas/ Sob suas estrela maldita/ Fanáticos religiosos, assassinos malditos/ Eu quero mata-los”). A letra acabou gerando acusações aos Garotos Podres (socialistas) de nazismo. Essa acusação ainda ecoa nos meios anarcopunks. Em uma entrevista concedida a mim por e-mail, Mau explica o assunto. “A intenção da música é colocar no mesmo saco os nazistas e a extrema direita israelense que defende a matança indiscriminada e a deportação em massa dos palestinos”. E a história segue dezoito anos depois do lançamento do disco, os palestinos continuam sendo massacrados pela extrema direita israelense e os Garotos Podres ainda são uma das poucas bandas interessantes do rock nacional…

ÁLBUM: Mais podres do que nunca.
ARTISTA: Garotos Podres
ANO: 1985

GRAVADORA: Independente(Rocker)

-Mais punk rock aqui!

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One thought on ““Mais podres do que nunca”, como primeiro disco dos Garotos Podres se tornou o álbum independente mais vendido no Brasil

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