Procurando sexo numa noite chata.

alessandra-negrini-15

Alessandra Negrini num clássico ensaio para a revista Playboy, onde encarnou uma prostituta

_Abra a boca, senhor Ernesto, um pouco mais. Isso! O senhor assistiu o jornal ontem? Mataram aquela freira que defendia os sem-terras.

O dentista sempre pergunta coisas que a gente não pode responder, não com todos aqueles aparelhos e brocas enfiados na garganta. Eram duas: a dentista e sua assistente. Pareciam saídas de um programa humorístico. Faziam piadas o tempo todo, comentários que você não podia responder. Eu poderia comer as duas, sem dúvida. Juntas. Minha cabeça doía. E minha boca ainda tinha um gosto estranho. Ressaca…

***

Tínhamos comemorado o aniversário do Marcelo ontem. Como nos velhos tempos. Os quatro amigos sentados em um bar naquela quentíssima cidade do interior. Cidade de terceiro mundo na entrada do século XXI. A cerveja era barata e tinha uma faculdade fuleira lá em frente. Passavam umas moças de minissaias e a gente ficava feliz só de ver. O Lucas e o Flávio estavam lá sentados. O Flávio tava virando intelectual e lia um livro atrás do outro. O Lucas estava virando velho e estava mais gordo e mais careca que nunca. Ia morar junto com a namorada agora. C’est la vie. Pedimos mais cerveja e brindamos mais um ano do Marcelo.

Passou meia-hora e chegaram mais conhecidos no lugar. Convidaram a gente para sentar, mas eu não queria. Gente CHATA, conversa desinteressante. É horrível fingir interesse por alguma merda desinteressante. Setenta por cento das pessoas no mundo são CHATAS, eu acho. Setenta e cinco por cento vai! As mulheres bonitas podem ser um bocado CHATAS, mas os caras sem chance! Nunca comeria um cara, ainda mais um cara CHATO. Às vezes, eu finjo interesse e encaro uma conversa com um desses tipos. Uma conversa que não vai me levar a lugar nenhum a não ser uma enxaqueca e a sensação de ter perdido o dia todo inutilmente. Sem fazer nada. Odeio fazer coisas por obrigação. Burocraticamente. Gosto da vida com paixão.

O dono do bar tava expulsando a gente. Certo. Um dos caras disse pra irmos prum bar de putas. Ninguém tava afim, ainda. Fomos pra outro lugar aonde tinha uns músicos CHATOS com violão e teclado. Tocando canções populares e CHATAS. E cobravam “couvert artístico” a mais da gente. Eu queria que eles abaixassem o som. Dava vontade de pagar pros bastardos ficarem quietos. Tudo bem, chegamos tarde e eles logo pararam de torturar. Mais cervejas, conversas CHATAS. To com um puta buraco no estômago e sem grana. Nunca saio com muito dinheiro porque nunca tenho muito dinheiro. Sempre tenho que escolher entre beber ou comer. E na maioria das vezes acabo bêbado.

Bom, estão expulsando a gente daqui também. O dono do bar não parece ser um cara bem decente. É um japonês explorador e sempre erra o troco. Sempre dá dinheiro a menos. Puto! Os casais que estavam com a gente dão o fora. Casais são CHATOS e usam apelidos carinhosos o tempo todo, isso me arrepia. O amor é ridículo. Eu sou ridículo quando amo e chamava minha pequena de “bebezinho”. Ponto. Matem o autor. Ele é um tremendo CHATO.

_ Vamos atrás dumas putas!
_ Nada disso. _ Eu digo. _ Não pago por sexo.
_ Foda-se, a gente só vê elas dançando. No Star Drinks é dez reais com direito a uma cerveja e striptease.
_ Não tenho dinheiro nem pra comer um lanche, quanto mais uma mulher. E na minha situação um lanche é mais quente que uma mina.
_ Vamos pro bar da Márcia então, lá a entrada é grátis e pode ter uma puta cansada a fim de conversar e fazer uma chupeta de graça.
Nessa hora todo mundo era macho: o Lucas que tinha namorada e não traía, o Lorival que tava fazendo a proposta e também tinha namorada, o Porcão que era um gordo CHATO. Todo mundo menos eu, que tava cagando de fome.
Entramos nos carros. Noite quente, cidade vazia. O álcool só aumenta a solidão, estimula os hormônios. O desejo é um demônio que espreita o ser humano. Juventude e drogas só liberam o monstro. Dois carros na rua. Dois caras no da frente, quatro no nosso. Um pedaço de mau caminho, mini saia, sonhos possíveis e cabelos loiros adiante. Todo mundo grita como um bando de porcos! Assovios, juras de amor. Ela ri, de longe tem no máximo vinte anos.

A noite não está tão CHATA assim.

Peço pro Lucas parar. Ela continua vindo na nossa direção. Grito: “Ei moça, quer uma carona”. Nada. Ela mais perto. O Flávio repete. A pequena sorridente: “Ah, vou aceitar”. Entra no carro. Testosterona no ar. Paus enrijecidos. Imaginação levando até uma orgia.

_ Aonde você tava indo?
_ Tava procurando um bar aberto.
_ Onde você mora?
_ Moro em X (X é um bairro bem distante!).
_O que você ta fazendo aqui?
Silêncio.

O cheiro dela é uma mistura de suor, perfume vagabundo e álcool. Sexo pago. Ela parece estar entorpecida. Não esbanja muita reação. Responde às perguntas de forma burocrática. CHATA. Meu pau amolece. Chegamos de volta à rua do segundo bar. Paramos. Ela desce e os dois do outro carro também. O Porcão fala com a moça. Ela vai comprar cerveja. Sandalinha. Blusa de alcinha. Senta com as pernas abertas. Olhar perdido.

_ Porra! Como vocês deixaram essa mina ir embora? Vocês tinham que ter segurado ela. Começar a passar a mão no carro mesmo!
_ A culpa é do Ernesto!
_ É, vacilão! Ela deveria ter ido do meu lado!
A moça volta, nem anjo e nem demônio. Pra dizer a verdade nem parece humana. Um pedaço de carne pros caras devorarem. Um zumbi pra mim. Zumbi sem desodorante. Já não me excito com suas pernas roliças ou sua bunda carnuda. O gordo joga sua lábia. Parece um rinoceronte, barriga enorme, sua muito. Ela conta sem descrição quantos caras são.
_ Você não quer sair com a gente?
_ Fazer o quê?
_ Tomar uma cerveja, conversar…

Segundos de relutância. “Tá certo, mas eu vou com vocês que o outro carro ta meio apertadinho.” Capto a mensagem. O outro automóvel é um carrão, um Golf. Falo pro Lucas que é melhor irmos embora. Ele quer seguir o Lorival. Todos querem devorar a loirinha. Paramos numa rua escura. Os dois carros emparelhados. Eu só ouço alguns sussurros. Os vidros traseiros fechados. O gordo bolinando a moça. A voz do Lorival: “E, ai?” “Você agüenta seis?” “Tá certo”.
_ Pessoal, ela quer quarenta reais!

Quarenta conto?! Tô fora! Prometi pra mim mesmo segurar a onda no sexo, se estivesse limpo de AIDS. Não tenho coragem suficiente. Sexo em tempos de HIV é uma merda e tanto.
_ Cara, eu vou broxar se comer ela com vocês. Imagina o gordo pelado! – É o Marcelo.
_ Eu tenho namorada. _ O Lucas.
_ Eu como._ O Flávio.

Flashback. O diálogo que se passou no carro. Câmera fechando na cara do Lorival.
_ E ai, os pega?
_Que pega?
_ Os corre.
_ Que corre?
_ Os pega do corre.
_ Não to entendendo, moço.
_ A gente quer te comer..
_ Ah… Eu não vou dar pra seis caras de graça…
_ Quanto você quer? Vinte reais?
_ Vinte é muito pouco, dez reais de cada um, assim eu posso comprar o material escolar.
_ Quantos anos você tem?
_ Dezoito.

Ela tem no mínimo vinte e três anos agora, vendo de perto. Cara cansada.
_ Quarenta reais!
_ Quarenta ta bom.
_ Você agüenta seis?
_ Agüento. Mas vai um de cada vez, né?
_ Isso depende da empolgação na hora.
_ Hum… Moço, pede pros seus amigos me deixarem em casa depois.

Volta pros carros emparelhados. Ninguém é mais macho.
_ Deixa quieto, então. Ela pediu pra deixá-la de volta no segundo bar.
_ Deixa ela aí… _ o Lucas.
_ Vamos voltar, lá!

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Alessandra Negrini encarnando uma prostituta nas páginas da revista Playboy

Voltamos. Eu to quieto. O Flávio xinga: “Eu comia, eu comia”! Nem a pau! Os caras deixam ela. Mal a mina sai e eles reclamam: “Que catinga!” “Fedorenta!”. Fico com dó. Mas da pra sentir o cheiro saindo das janelas abertas. Paramos em frente ao primeiro bar. Tá fechado agora. O Marcelo distribui cigarros, todos fumam a derrota. Ninguém é mais macho. O Lorival tira o corpo fora. Eu digo:
_ Ela queria os dois, vocês deviam ter ido com ela.
_ Nem a pau! O Porcão que queria comer ela.
_ Eu não! Credo! Só pus a mão nos peitinhos, se não tivesse fedendo quem sabe…

Sentava com as pernas abertas, só não pus a mão lá, porque fiquei com nojo…
Ninguém é mais macho, são todos CHATOS. Fim de uma noite CHATA, em uma cidade CHATA. Ponto final em mais um de meus chatíssimos Kontos.

06/03/05.
Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e escreve sobre felicidade no Glück Project.
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One thought on “Procurando sexo numa noite chata.

  1. Ana Alice disse…
    como é difícl ser homem, hein? macho e chato, então… hahahahahahahha….

    21 DE JANEIRO DE 2008 10:36
    Gisele Santos – Redação MRC disse…
    oieee!!! bacana que vai ouvir o programa!!!!!! bjão

    21 DE JANEIRO DE 2008 23:19
    Energizaizer’s Corporation disse…
    Seis perdidos numa noite suja, praticamente.

    Na próxima, deixem um desodorante no porta-luvas.

    Moça esperta.

    29 DE JANEIRO DE 2008 18:13
    Anonymous disse…
    um conto que mostra a vida noturna de cidades chatas do interior. um belo conto, um belo dia…

    24 DE FEVEREIRO DE 2008 19:28

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