Chiclete com Banana – Angeli

Quase vinte anos depois o mundo dos quadrinhos não abortou outro feto tão engraçado.

Chiclete Com Banana N° 21 - 0001

Faltam quadrinhos nacionais nas bancas. Faltam boas revistas de humor também, se você tem mais de catorze anos e já não acha graça na MAD….Certa vez, numa palestra com o Fernado Gonzalez em Bauru, alguém propôs a ele fazer uma revista junto a outros cobras como Laerte e Angeli. Ele rodeou, rodeou, mas não conseguiu dar uma boa desculpa para não tocar o projeto. Por quê? Porque se alguma dia isso acontecesse seria um sucesso. Ou melhor, já foi.

Eram os anos oitenta e quadrinhos de massa no Brasil se restringiam a Turma da Mônica. Havia o punk, havia a “abertura política” e a cultura pop estava se espalhando pelo país. Fome e rock n’ roll. Em meio ao caos, uma trupe de novos chargistas vindos do quadrinho político (entre eles Angeli e Laerte) se depararam com a contra-cultura (pelas mãos de Glauco) e passaram a espalhar seus rabiscos pelo país. Angeli foi o primeiro a lançar-se em vôos independentes. Desenhando na Folha de S. Paulo desde os 17 anos, ele publicou livros com suas charges que foram sucesso. Foi o estalo para que seu editor, Toninho Mendes, o convidasse para um título regular nas bancas em 1985.

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A “Chiclete com Banana”, bimestral, foi lançada pela editora Circo e era uma pérola de sarcasmo e bom humor. Tudo que a MAD brasileira fez depois estava lá, desde as tiras de uma página nas contra-capas às piadinhas com os preços passando pela sessão de cartas bem humoradas (ilustradas por desenhos toscos dos leitores) e pelos relatórios nonsense que o Ota copiou. Isso tudo pelas mãos de mais aplicado discípulo tupiniquim de Crumb: Arnaldo Angeli Filho.

A produção da Chiclete era tosca. Nada de pagemaker ou super equipes de arte, era tudo montado pelas mãos de Angeli num esquema que lembrava os fanzines de onde o próprio Angeli havia surgido (zine O Balão). No entanto, a primeira edição esgotou sua tiragem, que dobrou na segunda e na terceira novamente. A revista, que vinha com um selo de “aprovada no código de ética” para adultos, chegou à histórica marca de 110.000 exemplares, número nunca igualado por uma HQ independente no Brasil. As histórias recheadas de sexo, palavrões, drogas e violência podem não causar tanto arrepio hoje, mas na época eram um grito de subversão numa sociedade acorrentada por vinte anos de ditadura. O estilo underground da revista quebrava o padrão de humor brasileiro que não tinha nem nas tiras de Belmonte nem na turma do Pasquim um antecessor a altura da anarquia proposta por “Angel Villa”. Com o crescimento da cria de Angeli, novos colaboradores deram as caras: Paulo Caruso, Glauco Matoso, Hubert, Glauco e Laerte. Esses dois últimos criaram com Angeli uma das mais bem sucedidas tiras do Brasil: Los Três Amigos, que estrearam em uma “edição especial em duas colores e dublada em portunhol e espanhes” na Chiclete com Banana número 20!

Los Três Amigos eram alter-egos dos autores, cada um com características de seus criadores: Angel Villa era o conquistador de araque, Glauquito o doidão e Laerton el maricon. Maricon no, transformista! Como ele mesmo dizia. Os mariachis assassinos distribuíram balas pelo México muito antes de Antonio Banderas e a “Balada do Pistoleiro”. Assassinando Miguelitos (pequenos garotos com chapelão mexicano), atacando donzelas inocentes e enrabando seus cavalos, os três espalharam terror e risadas com seu humor ácido, violento e completamente sem moral. Ganharam posteriormente as páginas do caderno Folhateen por onde reinaram anos seguidos sempre gerando polêmica. Voltando a Chiclete com Banana…

A revista publicada pela Circo trazia além de charges, matérias humorísticas, fotonovelas, anúncios feitos especialmente para o Pasquim, entre outras porra-louquices. Os personagens clássicos de Angeli estavam todos nas páginas sangrentas da Chiclete, cada um representando um tipo comum na sociedade brasileira da época : Rhalah Rikota, Rê Bordosa, Walter Ego , Meia Oito e o punk Bob Cuspe. Bob era pra ser no começo uma sátira aos punk paulistas, mas seu criador acabou se identificando tanto com o personagem e a ideologia do mivimento que logo a revista se tornou a preferida de punks e headbangers. Muito antes da “Metalhead” e “Rock Brigade”, fãs de rock mandavam cartas atrás de contato com outros fãs. Metaleiros pediam um personagem cabeludo e punks detonavam o sistema em cartas seriíssimas. Sintam o drama :

“A sua revista Chiclete é uma chance dada aos punks de todo o mundo. Agora, estes filhos da puta, metal, heavy, black, new waves, querem atrapalhar nosso espaço. Na MAD eles encontrarão um espaço, aqui não, fora, foraa, foraaa!”
Lula Borozão, Brasília, DF.

Ou

“Sou um black metal revoltado e acho pagode coisa de viado. Pau no cu dos pagodeiros”.
EFA, Embu, SP.

Sem contar cartas enviadas por punks de um kibutz em Israel ou uma sessão toda destinada a cartas detonando a MAD. Surreal? O ano era 1987 e ainda tinha uma foto de uma leitora de costas mostrando a bunda ilustrando a página. Quem tem a manha hoje em dia? Quem tem a manha de detonar o Lulu “Argh” Santos com todas as letras e colocar Freud de moicano na capa??

As 52 páginas de cuspe na cara que saíam a cada dois meses duraram até a edição 22 e deram força para o surgimento de diversas outras publicações semelhantes como a revista “Circo” e a “Geraldão” (do Glauco), todas seguiam a linha inovadora criada por Angeli em sua revista. Ele mesmo admite que o seu caráter centralizador de querer fazer tudo sozinho acabou dificultando a produção regular do título; e também logo vieram as crises que abalaram a economia no final dos anos 80, diminuindo o poder de compra dos leitores ávidos por quadrinhos.

Plano Collor, sertanejo nas rádios, democracia. O cenário era diferente nos anos 90 para quem havia surgido na década passada. Não que os quadrinhos de Angeli não se atualizassem, mas o formato de revista regular se tornou inviável. Uma nova década viria junto com quadrinhos online e editoras especializadas em lançar álbuns de quadrinistas como Lourenço Mutareli, mas a Chiclete com Banana ficou na memória daqueles que puderam sentir o cheiro junkie do papel “pulp fiction” de suas páginas.

Veja também:
-Te gustas el punk rock?
-Homenagem ao cartunista Glauco

Frederico Di Giacomo Rocha
08 de Maio de 2004
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