Memórias de um perdedor: Capítulo 1

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Infância

“Quando era pequeno, a vida era um circo queria ser palhaço, queria ser artista voar pelo espaço, o tempo demorava para passar.”

1. Quando fiquei velho eu morri.

Esse é o fim , no começo tudo eram pequenos flashs. São Paulo era uma cidade grande e eu tinha um amigo ruivo que brincava comigo no parquinho. Um dia ele me meteu a mão na cara e nós nunca mais conversamos.
Não sei se eu era bundão, porque não tenho muitas lembranças até meus três, quatro anos de idade. Lembro que meu irmão mais novo estava sempre lá, sabe? Acho que nós nunca fomos apresentados um ao outro, assim como nunca me apresentaram a meu primo Fábio, mas eles sempre estavam lá. Ele nasceu um ano depois que eu, então na verdade sempre considerei que ele fosse parte de mim. Nunca soube distinguir direito onde eu terminava e onde começava o Marcelo. Só sei que ele tava brincando comigo e com meus primos quando a gente ia pra casa dos meus avós e que ele estava comigo quando a gente se mudou pra um buraco no interior de São Paulo: Patópolis.

Nenhum dos meus pais tinha realmente algo a ver com Patópolis, meu pai vinha de uma família simples de São Paulo. Minha avó era filha de imigrantes espanhóis pobres e meu avô tinha migrado da Bahia. Ele tinha trabalhado na roça, jogado futebol e sido vaqueiro em Goiás. Quando veio pra São Paulo arrumou um emprego público e passou a estudar direito à noite. Meu vô nunca parecia estar feliz e eu tinha medo dele. Minha vó adorava falar e me dava presentes. Eu adorava minha vó, seus presentes e o cheiro forte do seu perfume…. Quando meu vô realmente começou a ganhar dinheiro, meu pai já estava no colegial. E ai ele resolveu fazer Ciências Sociais! “Não rapazinho, você vai ser um advogado como seu pai”. Meu velho durou um ano no curso de direito com seu cabelo comprido e sua barba hippie, mas logo transferiu pra Ciências Sociais e teve que começar a trabalhar pra pagar a faculdade. Voltou a ser pobre…. O coitado nunca soube realmente como ganhar dinheiro, tudo que ganhou ele gastou em livros. Livros e idéias que ele passou pra gente como herança. Foi na faculdade que conheceu minha mãe. Ela era quase hippie e também gastava seu dinheiro em livros.

Minha mãe era uma garota linda: magra, de olhos verdes, boca carnuda e cabelos negros. Foi dela que eu herdei meus olhos, que no começo eram azuis. É impressionante como a gente muda pra pior com o tempo, né? Todo mundo dizia que eu era um bebê lindo, e quem vê minhas fotos dessa época concorda. Eu até fui uma criança bonitinha, mas a adolescência mudou tudo… Bom, voltemos a minha mãe: seu pai era médico e sua mãe tinha vindo de uma família aristocrática. Meu avô materno perdera uma fortuna jogando baralho. Ele realmente fora um viciado em jogo e por isso teve que sair de Pacú onde nasceu para ir pra Patópolis… Diz a lenda que, numa manhã, depois de passar a noite toda jogando buraco no clube, meu avô trouxe um colar grosso de ouro pra minha vó. Não que ele tivesse ganho uma bolada, aquilo era o equivalente a toda grana que ele perdera no dia. É, meu vô era um cara legal e os caras legais sempre chegam por último.

A família da minha mãe era uma típica família italiana: grande e barulhenta como todas as famílias italianas são. O natal era sempre muito divertido, tinha aquele arroz ruim com passas, mas a gente ganhava presentes e podia brincar com os primos. Eu sempre passava fome no natal porque odiava arroz com passas e aquelas coisas que eles colocam na comida de fim de ano Eu tinha um primo da minha idade que se chamava Fábio, e a gente sempre brincava junto. Eu, ele e o Marcelo. Um dia em Pacú, o Fábio também chegou me dando umas porradas sem eu saber porque. Eu não reagi porque não entendi porra nenhuma, não entendia porque na vida de repente te dão uma porrada na cara. O pai da minha mãe também chamava Fábio e era filho de italianos, ele vivia gritando palavrões e fazia macarrão nos domingos. Nós íamos comer na casa dele e eu achava meu vô muito engraçado. Ficava ouvindo suas histórias da Revolução Constitucionalista de 1932 e do dia em que ele viu Getúlio Vargas. Ele achava Getúlio um grande cara. Eu também achava Getúlio um grande cara e meu vô era um herói pra mim. Minha vó me lembrava morte. Ela queria me convencer que dEUS existia e vivia contando histórias de doenças e de pessoas tristes. Eu sempre me sentia doente quando escutava as conversas. Teve um dia, no quintal da casa dos meus avós, que ela perguntou porque eu e meu irmão não acreditávamos em dEUS, eu falei que ia decidir depois , mas o Marcelo disse:

-Eu odeio dEUS, porque ele é bicha!.

Se dEUS era veado ou não, nunca descobri, mas acho que minha avó nunca mais encheu o saco com essa história.

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

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