Na margem do Rio Piedra, eu sentei e caguei.

-Leia mais contos

Esse conto foi escrito em 2005, uma versão editada dele encerra meu primeiro livroCanções para ninar adultos

***
roqueira-sexy

Mesmo que eu gostasse de Paulo Coelho teria vergonha de dizer que um dos meus livros favoritos chama-se “Às margens do Rio Piedra sentei e chorei”. E a menina que dirigia o carro disse exatamente isso. Ela era uma dessas roqueiras místicas que gostam de Janis Joplin, sexo e pactos com São Cipriano. Sabe o que é um pacto com São Cipriano? Aquele negócio satânico que você faz pra fechar o corpo e tal. Na minha adolescência, tinha sempre um cara louco de preto estudando essas coisas de Bíblia Negra, acho que o Paulo Coelho ia fazer um baita sucesso investindo no undeground do misticismo.
Certíssimo, estávamos eu e o Augusto voltando da “balada” bêbados e alterados por solventes, do tipo “lança-perfume”. Quem dirigia era a Bia, ao lado dela Samanta, “a gaga”, e dividindo o banco traseiro conosco, o respeitadíssimo: Denis, pequeno traficante japonês, que nos explicava a diferença entre uma pistola automática e uma semi-automática. Aquilo tudo era muito instrutivo, mas às seis da manhã o que eu queria mesmo era comer alguma coisa e dormir umas boas horas de sono. Ou dormir com a Bia e terminar uma história que eu deixei incompleta há mais de três anos atrás… Ta, certo, não entenderam nada, né? Hora do flashback…
Tinha, então, dezoito anos, virgem e pré-universidade. A tal da Bia era uma lenda sexual na cidade. Namorava um cara, mas isso não impedia seus casos, que eram vários. Um amigo chamava-a de “Deusa do sexo”. Nós a idealizávamos bastante e só. Um belo dia(adoro usar essas expressões clichês pra começar frase), ela resolveu dar em cima de mim e nós acabamos no seu carro, no meio de uma estrada. Naqueles tempos, eu era um bom garoto, não me sentia muito a vontade, estava nervoso e meu membro também não ajudava muito. Por mais que ela me atiçasse, ele não se levantava. Quem me salvou foi a polícia… Uma viatura parou ao nosso lado, conferiu se estávamos nos drogando e nos mandou sair dali. Tive mais um encontro (quase) sexual com a Bia, mas a camisinha teve alguns problemas e acabamos não transando…
Voltando ao carro, paramos em frente de casa, agradeci e pulei. A Bia me pediu um beijo de boa noite, fui no seu rosto, e ela me deu um selinho, tentei enfiar a língua, mas ela riu… Não seria naquela noite… Tudo bem, ela gostava de Paulo Coelho…

***
A Bia deixou um por um em suas casas e só sobramos eu e ela… Eu conhecia a figurinha há tempos, só foi o Denis sair do carro e ela colocou a mão no meu órgão. Era completamente ninfomaníaca, pensava e fazia sexo vinte quatro horas por dia. Cabelos compridos tingidos de vermelho, olhos pretos, boca carnuda, seios fartos, mas sem bunda. Usava umas roupas muito decotadas e falava algumas merdas tipo:
_Os judeus não podem olhar, é pecado pra eles. Eu passo com os menores decotes possíveis em frente à sinagoga e eles me ignoram. Eu fico me sentindo mal, assim.
Cursava psicologia… Meu dEUS do céu, quanto mais psicólogos conheço pela vida, mais confio nos curandeiros e mães de santo. Entramos no apartamento dela, ficava num condomínio onde as janelas de um prédio davam de frente pras do outro. Ela dividia o quarto com uma colega de classe, mas a menina não estava em casa. Sorte minha, entramos no quarto e eu enfiei a língua na boca dela, apertei sua bunda e rolamos no sofá. Eu estava muito empolgado, e parecia que quanto mais peças de roupa tirava, mais peças de roupa apareciam. Era como magia, arranquei uma calça jeans, um top e suas sandálias beijando cada dedo do seu pé, e lá estava ela com uma saia de pregas curtíssima, coturno e blusinha decotada. Cada nova combinação lhe dava um estilo mais vamp, mais sadomasoquista. Ela disse pra irmos ao seu quarto, afinal a colega não estava. A cortina da janela estava toda arrebentada e um sem fim de janelas permanecia com as luzes acessas para assistir nosso showzinho privê. Alguns caras, com jeito de operários, assistiam a cena do saguão, torcendo e gritando coisas do tipo:
_Mais um, Bia? Quem é o babaca da vez?
_Quem você vai devorar agora?
_Ela ta te passando pra trás, otário!
Eu, peladão ali no meio, fiquei sem graça. Achei que ela era algum tipo de viúva negra. Consegui deixa-la só de calcinha e ela voltou com alguns artefatos S&M.
_Você gosta de ser dominado?_Me perguntou… Naquela hora, eu faria qualquer coisa em troca daquela calcinha.
_Claro.
_Então, você vai ser meu escravo. Grita pra eles lá fora que você falhou comigo, que você é meu escravo e faz o que eu mandar!
(“Nem a pau”, pensei)
_ Eu me humilho por causa dela!
_Não foi isso que eu mandei você falar.
Ela tava de pé, calcinha preta minúscula, chicote na mão. Salto alto e sombra nos olhos. Os cabelos, antes vermelhos, agora eram negros como a noite. Tinha uma tatuagem de aranha na coxa. Viúva Negra! “Quer saber?”, pensei. “To, de saco cheio disso aqui, esse quarto é uma zona, tem um exército de operário e porteiro tarado lá embaixo, e ela ainda quer que eu fique gritando? Enchi o saco”. Parti pra cima dela, e joguei a na cama, tava bem violento. Ela xingou, eu dei um tapão, segurei os braços com uma mão e com a outra baixei a calcinha. A Bia tava bem agitada, mas quando eu tirei o trapo preto sossegou…
Um pau! Tinha um pau ali! Uma mina com um… Eu não podia transar com uma mina com aquele negócio no meio das pernas, podia?
Acordei puto.

***
Depois daquele sonho, só tinha uma certeza: o culpado de tudo aquilo, dos gritos de “Toca Raul” nas festas, da divulgação da literatura brasileira no Irã e de toda corda pro misticismo de butique era o mesmo cara: Paulo Coelho! Eu ia matar o cara! Não por ele ter composto hinos hippies com Raul Seixas, se ele estacionasse naqueles tempos tava bom, mas, se não fosse por ele, a Bia não seria “a Bia” e eu não teria sonhado com uma mulher com pau. Parecia justo.
Peguei um livro dele na biblioteca municipal de Shit City e comecei a seguir o “Caminho de Compostela”. Fui assassinando todo tipo de hippie, guru e monge que encontrava pelo caminho. Meu destino era um só: matar o “Alquimista” e acabar com seu nome na lista dos Best Sellers mundiais.
Entrei num mundo louco que parecia São Tomé das Letras multiplicada por três, havia todo tipo de malucos, yogues e vegetarianos. Rolava um concurso internacional de imitadores do Raul e um show ao ar livre do hippie Ventania. Toras de incenso e maconha eram queimadas, enquanto mantras fajutos eram repetidos. Alguns casais punham o kama sutra em prática ali mesmo, no meio de crianças, cachorros e animais selvagens.
Não tive dúvida, se aquilo não era o Fórum Social Mundial, era a sede do reinado de terror do “Bruxo”. Uma menina de dezesseis anos passou diante de mim e eu perguntei:
_Moça, onde estamos?
_Às margens do Rio Piedra, foi aqui que o “Alquimista” inspirou-se para escrever diversas de suas obras clássicas.
_ Ah, muito obrigado. E, a propósito, qual é seu autor favorito?
_Paulo Coe…
_Era._ Descarreguei minha pistola na garotinha.
Logo à frente, duas senhoras, discutindo a profundidade da filosofia paulocoelhana, um hippie e uma menina comum.
_ Por favor, qual é seu autor favorito?- Eu repetia. E a cada resposta idêntica, descarregava minha arma.
Tanta violência me deu sede, fui tomar um pouco d’água no rio Piedra e ouvi um guia explicando:
_Às margens desse rio, o “Alquimista” conseguiu inspiração para diversas de suas obras…
BLAM! Um guia turístico a menos no mundo! Que saco, eu já não agüentava mais. Será que aquelas pessoas não gostavam de ler de verdade?
_Eu adoro ler! Auto-ajuda, “Quem roubou meu queijo” e Paulo Coe…
BLAM! BLAM! BLAM! Eu era o juiz do apocalipse e tinha o poder de eliminar todas as pessoas que quisesse. O critério era simples: “Você gosta de Paulo Coelho”? Não importava que fosse um jovem começando suas leituras, um intelectual que lesse só por diversão ou a mulher mais linda do mundo. Todos teriam que pagar por aquele crime horrendo!
Encontrei o Paulo Coelho às margens do Rio Piedra, de cócoras. O desgraçado estava cagando no rio! E logo ali embaixo, algumas pessoas usavam a água para banhar-se e fazer comida. Bruxo filho da puta! Fiquei com vontade de dar lhe um chute na bunda branca. Acontece que nesse exato momento senti uma pontada na barriga. Aquela água devia estar tão carregada de coliformes fecais de autores de best-sellers e místicos, que soltava o intestino de qualquer pessoa…
Às margens do rio Piedra, sentei e caguei. E depois, chorei.

***
Ah propósito, você gosta de Paulo Coelho? (24/07/05.)

Paulo Coelho em sua fase hippie

Paulo Coelho em sua fase hippie

Fred Di Giacomo é jornalista multimídia e autor dos livros “Canções para ninar adultos” e “Haicais Animais“ . Ele foi pioneira na criação de newsgames (jogos jornalísticos no Brasil) e toca na Banda de Bolso.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

4 thoughts on “Na margem do Rio Piedra, eu sentei e caguei.

  1. Pingback: Reflexões d’um blogueiro anônimo | Punk Brega

  2. wallace polga disse…
    KILL’EM ALL!

    24 DE DEZEMBRO DE 2007 09:23
    Frico disse…
    Uhu!
    Polga rulez!

    25 DE DEZEMBRO DE 2007 14:13
    Amanda Carvalho . disse…
    Seus textos são fodásticos !!
    Parabéns!!!!!!!!

    18 DE FEVEREIRO DE 2008 20:51
    Frico disse…
    Obrigado, Amanda! Por onde você descobriu o blog?

    1 DE MAIO DE 2008 08:25
    GP disse…
    Excelente!! Parabéns, um bom texto, como pouco se acha hoje na internet e afins!

    17 DE FEVEREIRO DE 2009 13:54
    Frico disse…
    Obrigado, GP! Que bom que ainda tem gente lendo esse conto!

    28 DE JULHO DE 2009 20:04

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.