>Tim Maia Racional

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ABC do Tim Maia Racional.
Uma introdução a quem quer se iniciar num dos mais cultuados e obscuros discos da black music nacional

(Em 2004 eu ouvia os discos Racionais do Tim Maia todos os dias, decorava as letras e tirava as linhas de baixo. Empolgado, escrevi esse longa resenha/reportagem pro Watchtower zininho do amigo ECM:)

Introdução.

Buscapé caminha feliz por ter conseguido sobreviver no inferno ao final de Cidade de Deus, Marcelo D2 sampleia e cita em seu primeiro disco solo “Eu tiro é onda”, dois compradores aparecem desesperados atrás dele numa cena do filme “Durval Discos” moleques correm atrás na internet, fanáticos pagam 200 reais por disco e o som é pipoca nos bailes de samba-rock e black music. Unanimidade que reúne, DJ Hum, Caetano Veloso, Fred 04, Nação Zumbi, Gal Costa e Racionais Mc’s. Afrika Bambaata? James Brown? Alguma nova banda do interior dos Estados Unidos? Não, o responsável é o velho Tim Maia e seu par de discos “racionais”.

Histórias Racionais.

A relação de Tim Maia com a tal seita racional, ou Universo em Desencanto, é complicada, poucos sabem o que levou o doidão mais famoso da MPB a se converter aos ensinamentos de um guru de Nova Iguaçu. Segundo o companheiro de soul music, Hyldon em declaração ao e-zine Ruídos “Tim passava por um momento difícil. A Geisa, mulher com qual teve um filho e que morava com ele, tinha ido embora. E ele já tinha tomado uma porrada com a mulher anterior, a Janete, já falecida. Acredito que num momento de desespero ele buscou uma ajuda espiritual”. A isso se somavam anos de abuso de drogas e um desejo de entrar em contato com discos voadores. Tim Maia vinha de uma luta pra se estabelecer no cenário da música nacional que começara no início dos anos 60, final dos 50. Amigo de Roberto e Erasmo Carlos, tivera projetos com os dois e passara alguns anos nos Estados Unidos onde acabou sendo preso e deportado por posse de maconha. Um jovem negro, polêmico e fã de black music não se enquadrava nos moldes da jovem guarda branca e bem comportada e, assim, Tim vagou até ser descoberto em uma gravação de “These are the songs” ao lado de Elis Regina. Daí seguiu-se o sucesso de “Primavera”, “Gostava tanto de você” e “Não quero dinheiro”. Foi nessa época que o soulman “atingiu o bom senso.”

O primeiro contato de Tim com a seita foi ao encontrar um livrinho (o tal “que veio a mão”) na casa do compositor Tibério Gaspar, cujo pai pertencia ao Universo Racional. Pelo que parece, a iniciativa independente de Tim já estava em andamento quando o cantor decidiu conhecer a seita, raspar a cabeça e vestir branco. Segundo Paulinho Guitarra que participou das gravações do disco as bases foram gravadas no final de 1974, nos antigos estúdios da RCA (hoje Companhia dos Técnicos), em Copacabana.. Uma vez convertido, o cantor mudou as letras e os títulos das músicas. Adios San Juan de Puerto Rico, por exemplo, virou Quer Queira Quer Não Queira. Tim teria realmente largado as drogas, pelo menos as ilegais “(anos mais tarde, membros do grupo de reggae Cidade Negra, criados na mesma baixada fluminense da seita Racional, diriam numa entrevista que costumavam ficar jogando bola na porta da sede, em Nova Iguaçu, e sempre aparecia alguém “pedindo pra gente comprar cigarro pro Tim Maia”)” e passado a se dedicar ao estudo dos livros da seita. O cantor criou um mal estar definitivo com a rede Globo por ter se recusado a entrar no ar com roupas de outras cores que não fossem as brancas exigidas pela seita e começou a ter dificuldades de divulgar seu trabalho. Os disco eram vendidos de mão em mão pelos músicos, os shows(que se tornaram verdadeiros cultos de pregação) eram freqüentados apenas por seguidores da seita racional e as músicas, com exceção de “Imunização Racional(Que Beleza)”, não tocaram na rádio. Pra piorar Tim teve que se livrar de todos seus pertences materiais, eliminando fogão, geladeira, carpete e mandando, segundo a lenda, sua coleção de discos de black music para a casa do sobrinho Ed Mota.

O namoro de Tim Maia com a seita durou até ele perceber que o seu “mestre espiritual” Manoel (homenageado à capela na fraca “Grão mestre varonil”) era na verdade um tremendo charlatão. A seita que também atraíra Jackson do Pandeiro, misturava conceitos de candomblé com extraterrestres e se mostrou milagrosa apenas em ganhar dinheiro as custas de Tim. O cantor revoltado passou a renegar seus discos, e nunca os relançou. Pediu, inclusive, para que Marisa Monte não regravasse “Que Beleza”(que acabou sendo resgatada por Gal Costa, Monobloco e Timbalada). Sobre o “mestre varonil” só sobraram farpas: “Seu” Manoel vendera milhões de livros às suas custas e era o “maior estuprador de Nova Iguaçu”, graças a uma espécie de Viagra natural chamado guiné-tabu, que Manoel Jacinto consumiria avidamente. Pra revista Playboy o cantor relatou em 1991: “Quando cheguei lá, vi que o negócio era umbanda, candomblé, baixo espiritismo (…) “Ele (Jacinto Coelho) passou 15 anos com seu Sete da Lira e tinha uma propriedade enorme em Nova Iguaçu, que incluía até um motel para extraterrenos


Clipe da música Bom Senso.

O som que virou culto.

Os discos racionais de Tim foram divididos em dois volumes ambos com 9 faixas e lançados ao mesmo tempo. As capas são iguais e mostram um desenho tosco, retirado de um livro da seita “Universo em Desencanto”. O primeiro só tem composições de Tim e o segundo já traz músicas de outros autores: Robson Jorge ( “O dever de fazer propaganda deste conhecimento”), Beto Cajueiro ( “Cultura racional”) e de outros membros da banda (“O caminho do bem”), etc. Segundo o site “O Ruído” Tim chega mesmo a se satirizar no disco, com o samba-soul “Paz interior”: Edson Trindade, autor da música, fez dela uma resposta a outra canção sua gravada por Tim, “Gostava tanto de você” – o refrão diz: “eu agora/já não dependo de você”.

O som é um funk/ soul limpo, quase gospel e sem as firulas da fase mais comercial de Tim. Não há arranjos de cordas virtuosos, ou canções comerciais de Peninha. Não há aquele tempero brega que a fase posterior de Tim ganhou. Há sim um conjunto de excelentes músicos da black music nacional, Serginho Trombone e Oberdan Magalhães da banda Black Rio incluídos, fazendo um som de dar inveja a Marvin Gaye e George Clinton. O disco é, como um todo, um desabafo espiritual de Tim, que exorciza seus demônios procurando encontrar o seu equilíbrio, procurando encontrar a paz. É um daqueles discos antológicos da história do pop, marcados pela angústia, quando “a dor presente nos faz continuar”. Como em “Lóki?” De Arnaldo Baptista ou na faixa “Tears in Heaven” de Eric Clapton, o que o rei do swing nacional faz é transformar sofrimento em notas musicais. E o resultado é antológico!

A primeira faixa é “Imunização Racional(Que Beleza)”, um quase reggae com guitarras wha-wha e swing soul. É a menos comprometida com a cultura racional e pode passar como uma canção normal, por isso mesmo foi a que fez mais sucesso na época. Em seguida vem “O grão mestre varonil” à capela, que apesar da voz de trovão de Tim se perde na idolatria ao charlatão “seu” Manoel. Na seqüência, vem uma das melhores faixas do disco “Bom Senso”, um funk redondo com baixo marcando e bateria swingada que explodem no refrão em um soul gritado pela voz forte de Tim. Sua letra é um relato da conversão do doidão: “Já virei calçada maltratada/e na virada quase nada/me restou, a curtição/já rodei do mundo quase tudo/no entanto, num segundo este livro veio à mão/já senti saudades, já fiz muita coisa errada, já vivi nas ruas, já pedi ajuda/mas lendo atingi o bom senso/a imunização racional”. Na seqüência “Energia Racional” e o soul arrastado de “Contato com o Mundo Racional”. As duas últimas são em inglês : “You don’t know what I know” e “Rational Culture”. Lembrando dos seus tempos nos EUA, Tim Maia fala como um pregador negro do Bronx, chamando o ouvinte como James Brown e mandando um funk excelente, cheio de swing, que taca fogo em qualquer pista. As linhas de baixo, são todas memoráveis, e os riffs são marcantes, grudando na cabeça do ouvinte que acaba até querendo saber que diabos é essa tal cultura racional.

O segundo disco começa com o balanço de “Quer queria, quer não queira” e segue com “Paz Interior” com letra irmã a de “Bom Senso”. O primeiro grande momento é “O Caminho do bem” um funk leve e pegajoso,que repete milhares de vezes o mantra “o caminho do bem…”, e se tornou febre após ser usada na cena do filme “Cidade de Deus” citada no começo dessa matéria. Esse disco é mais fraco que o primeiro mas traz ainda a excelente “Quiné, Bissau, Moçambique e Angola Racionais” que vem se tornando hit em festas black e universitárias, graças a seu swing irresistível, baixão marcante, solo rock n’ roll e influências africanas. É a fusão do som negro dos guetos americanos com as canções tradicionais africanas e o molejo do samba brasileiro. Outra palavra a não ser genial?

Nas versões piratas distribuídas nas “Grandes Galerias” de São Paulo ainda se encontram duas faixas bônus : “Meus Inimigos” e “Ela partiu”(sampleada pelos Racionais Mc’s em “Homem na Estrada”), idolatradas pelos samba-roqueiros e pertencentes a uma fase posterior a racional de 1977.

Para os que agüentaram essa matéria até o fim.

Os discos do Tim Maia Racional são caros e difíceis de encontrar, mas hoje em dia estão disponíveis nos programas de troca da internet e, logo-logo, alguém vai perceber o potencial dos álbuns e relança-los. Pelo glamour e fetiche de se pesquisar um disco que é um tributo a uma seita obscura e ninguém conhece, muita gente esquece que esses álbuns também tem seus defeitos. As letras são repetitivas e fracas, e talvez algumas músicas pudessem ser cortadas para o lançamento de um disco único. O que não resta dúvida é que se a seita “Universo em Desencanto” era uma enganação total, pelo menos ela inspirou uma coisa boa na terra: Um dos melhores discos de música negra feitos no Brasil e, porque não no Universo?

Fred “Racional” Di Giacomo 09/05/04
Após escrever essa matéria converteu-se a seita “Universo em Desencanto”, desistiu do jornalismo e hoje escreve panfletos para “seu”Manoel

-Confira aqui as melhores frases do Tim Maia!

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3 thoughts on “>Tim Maia Racional

  1. ow, ow, ow, confere aí. mas se não me engano a seita chama “cultura racional”, e o “universo em desencanto” é tipo a bíblia deles. “read the book, the only book, the book of god: universe in desenchantment”, ahahahahaha. o cara ficou doidão mesmo. adorei a resenha!
    29 de novembro de 2007 11:39

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